Não se pode negar o papel activo do inconsciente durante a produção duma obra de arte. Nas palavras de MARINI (1997), o inconsciente está em actividade em toda a produção cultural, mesmo na mais planejada. A imprescindibilidade do seu papel, no âmbito da concepção artística, é reforçada aqui com o pensamento de VALERY (1957), segundo o qual, o trabalho do artista, mesmo em sua parte inteiramente mental, não pode reduzir-se a operações guiadas pela razão; no entanto, «o artista não pode absolutamente desligar-se do sentimento do arbitrário» (idem), como que se o inconsciente e o consciente coexistissem no mesmo instante, o concreto e o abstracto, o sonho e a realidade, no mesmo espaço psíquico, na mesma «Casa», obstando-se. BRETON (1924), no seu manifesto surrealista, afirma acreditar na resolução futura destes pares antagónicos, resumindo-os em «sonho e realidade», dois estados, na sua visão, contraditórios apenas por aparência. Nesta sede, lê-se, no manifesto Litteragris, o seguinte: «no processo de criação, assiste-se a uma magistral combinação entre o inconsciente e o consciente», pelo que, privilegiar o material colectável do inconsciente ou o material colectável do consciente, entendemos ser uma questão opcional.

Deixando algum espaço para o lado arbitrário, da arte, podemos afirmar, categoricamente, que os objectos estéticos colhidos por Hirondina, tijolos ou adobos, com os quais construiu a sua «Casa», provêem do inconsciente e que a poética surrealista constitui o alicerce deste seu poemário.

A «Casa», em termos simbólicos, representa o seu espaço psíquico, seu interior, podendo apresentar-se ainda como um espaço fechado de protecção, como um útero, símbolo feminino; ao passo que «Os ângulos», do latim angulus, -i, deixando de parte os seus significados matemáticos, mais do que representar o espaço resultante entre a junção de duas paredes, equivalendo a canto, designa a maneira de pensar, de compreender, de abordar ou de observar, equivalendo a «perspectiva» ou a «ponto de vista». Assim, a sequência sintagmática «Os ângulos da Casa» configura-se como um macrotexto e cada poema ou prosopoema, apesar da heterogeneidade formal, constituem uma sucessão de unidades textuais autónomas que obedecem a uma certa linhagem semântica que, no âmbito da psicocrítica, remeter-nos-ia a um sujeito-paciente com um quadro clínico bastante complexo, ao qual se lhe diagnosticaria, uma psicose, que, segundo BOCK (et all.1999), «refere-se a uma perturbação intensa do indivíduo na relação com a realidade», dando-se «uma espécie de ruptura entre o ego e a realidade, ficando o ego        sob domínio do id, isto é, dos impulsos». O sujeito reconstrói, de forma inconsciente, realidades alucinatórias «Como se estivesse num quarto todo desarrumado, gavetas postas ao tecto, janelas ao chão, e o chão fosse parede, e a roupa estivesse estendida dentro do coração». Por vezes, «a cabeça inclina-se devagar», «confronta o lado insano da parede», e «os móveis desarrumados tornam-se imóveis». E recupera-se a normalidade psíquica com uma exclamação: – «Ai!» E aí surge a grande questão após a suposta recuperação: – «Que vem a ser isto?» A resposta a esta pergunta poética seria «Paranoia», na medida em que, durante o surto psicótico, o sujeito vive diferentes momentos de alucinações mais ou menos ordenados, ligados a temas complexos, que o levam a filosofar em torno de questões difíceis de fórum metafísico. Alguém que explique, com satisfação, «Como é que se escreve um olhar» e «… uma alma o que é?»

Nota-se que o paciente mantém, activa, as suas faculdades psico-intelectuais, não revelando deterioração da capacidade intelectual, subindo «até ao horizonte» para poder sentar-se «ao lado da razão» e descobrir que «toda biologia se foi. Toda ciência se foi.» Restando «a “aicnêic”», a ciência ao avesso, se calhar aqui, denunciando a incapacidade que esta, ainda hoje, revela em responder a determinadas questões da humanidade, tidas como sem solução.

No entanto, o quadro clínico do paciente agrava-se, diagnosticando-se-lhe, a posterior, uma esquizofrenia. O sujeito afasta-se da realidade, centrando-se em si, desenvolve uma fantasia de estar numa «varanda», onde «a testosterona agita os espaços compridos», manifestando desagregação do pensamento, das acções e da afectividade, como que se perdendo no transexualismo[1]. Sabe-se que, em média, a quantidade de testosterona nos homens é entre sete a oito vezes superior do que nas mulheres. Em vista disso, podemos referir que tal hormônio androgénico, segundo o Dicionário online de Português, a testosterona, configura-se como um tipo de catalizador biológico metamórfico que povoca a multiplicação do «eu», sujeito-paciente, gritando por socorro – «Alguém nos acuda» – sob pena de enveredar para um suicídio de natureza psicótica.

Nas palavras de BOCK (et all.1999), a abordagem psicológica encararia estes sintomas, (…) desenvolvidos pelo paciente, como desorganização da personalidade, todavia admitindo que o conceito de normal e patológico é extremamente relativo. Terão de ser chamados de loucos os diferentes sujeitos poéticos apresentados por Hirondina? Sim e não. Porque «a loucura comunal deixa de ser loucura e torna-se mágica, loucura governada por leis e em plena consciência» NOVALIS (1997). Inversamente aos Irmãos Karamazov de Dostoiévski, ama-se «o vazio… o espaço da liberdade, a ausência de certezas». E não se teme «ter certezas» nem se troca «o voo por gaiolas». Porque «as gaiolas são o lugar onde as certezas moram». Então, que fique a loucura, «fonte de gozo nada desprezível» BRETON (Sd.).

Vários estudos, no âmbito da Psicologia, apontam a questão da sexualidade, pelos aspectos morais que lhe são imputados, como fonte de angústia para muitos indivíduos de diferentes extractos etários e etnias. É um assunto que não ocupa os diversos espaços de debate das sociedades africanas tradicionais e conservadoras, apesar da disponibilidade sexual que se lhes reconhece. Tanta poligamia e poliandria, em crescente, para que a sexualidade se constitua ainda hoje como um tabu. Por isso, a «voz entra no fundo         \ e fode o espaço» «como se… pecasse atravessando o sangue, a ingénua nudez. A carne louca. Madura».

FREUD (1905), na sua obra «Três ensaios sobre a teoria da sexualidade», mostra que a prática sexual entre os adultos pode ser bem mais livre do que supõem os teóricos moralistas. E as emoções, os sentimentos configuram-se como dos principais alimentos do psiquismo humano, estando presentes em todas as manifestações quotidianas. A questão que se deve colocar aqui é se as manifestações poéticas apresentadas pela poetisa moçambicana não revelam um estado psíquico dum sujeito-paciente com um tipo de transtorno sexual que usa uma linguagem que se confunde entre a erótica e a pornográfica. Nessa sede, permitir-se-ia algum relativismo analítico (?). Durante um coito, entrelaçam-se várias formas de linguagens, e acreditamos que o inconsciente seja a parte do psiquismo humano mais activa ao longo deste acto, pelo que achamos ser normal alguma linguagem grosseira. E a leitura das «casas» de Hirondina são tão secretas e particulares como um coito normal que só diz respeito às partes envolvidas. Portanto, sabe da sua normalidade quem não simula uma vida celibatária, ou não o sabe dela aquele que opta por um conservadorismo herético. Ademais, o erotismo é dos espaços mais sublimes quando se lhe impregna um tipo de discurso, cuja função da linguagem predominante seja a poética. E há tanta metafísica ao longo duma cópula em que o prazer e a dor sejam as matrizes psíquicas dos afectos. Espera-se «a tradição milenar de um pénis sedento. Para vingar a febre mundana. Há metafísica invisível no cimo do ministério. Morre-se de várias formas… cumpre-se a lei do movimento. E ninguém pode ultrapassar a sina do inabalável. A carne.»

Acreditamos em hipnose colectiva quando mergulhamos nas estranhas águas da poesia. E no âmbito destas redes psíquico-criativas, conseguimos ligar a poesia de Joshua à poesia do angolano João Tala, à do português Herberto Hélder, à do brasileiro Murilo Mendes e a tantos outros poetas da escola surrealista. Mas é com as vozes do seu compatriota Eduardo White e do português Herberto Hélder que a jovem  poetisa se conecta directamente numa rede de influências estético-literárias, recebendo outras influências através de leituras variadas de como “O gato e o escuro” – Mia Couto; “Elogio da loucura” – Erasmo de Roterdão ;“Neighbours” – Lília Momplé ; “Conto Homônimo: o Ovo e a Galinha” – Clarice Lispector; “Niketche” – Paulina Chiziane; “Paraísos artificiais” – Charles Baudelaire; “Xicandarinha na lenha do mundo” – Calane da Silva; “As Ondas” – Virgínia Woolf; “Ualalapi” – Ungulani Ba Ka Khosa; “Uma Faca nos Dentes” – António José Forte; “Ácia, O Primeiro Amor, Águas Primaveris” – Ivan Turguenev e eventualmente outras, pela qualidade que já apresenta.

Por fim, é importante alertar aos leitores que a nossa análise incide-se na obra e não na sua autora, pelo que qualquer transtorno psíquico diagnosticado aos diferentes sujeitos-pacientes que foram surgindo ao longo dessa psicocrítica se refere apenas aos sujeitos poéticos. Hirondina, pelo que sabemos, é uma pessoa…


Sobre a escritora, diga-se que nasceu em Maputo, em 1987; que está integrada em diferentes antologias de poesia e prosa. Publicou nos jornais Notícias e Sábado (Moçambique); no jornal Cultura de Angola, nas revistas Literatas e Soletras;  em TriploV e nas brasileiras: Acrobata, São Paulo Review, Sirrose, Òmnira. Participou das colectâneas da editora brasileira Sol Além Mar de conto e poesia nomeadamente: “Faces não reveladas” e “A voz da liberdade”. Integrada no Projecto Enegrescência,  ganhou a menção extraordinária no Prémio Mondiale di Poesia Nósside edição 2014.

 

 

Referências Bibliográficas

BOCK, Ana Mercês Bahia (et alli). Psicologias: Uma introdução aos Estudos da Psicologia. Editora Saraiva. 1999.

BRETON, André. Primeiro Manifesto do Surrealismo, em Manifestos do Surrealismo, Brasiliense. Sd.

American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders.4. ed. Washington, DC: American Psychiatric Association; 1994

ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro. Zahar, 1998.

HERRNSTEIN, Richard J. e BORING, Edwing G. Textos básicos de
história da Psicologia. São Paulo, Herder/USP, 1971.

FREUD, S. O método psicanalítico de Freud in Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol.VII. Rio de

Janeiro: Imago, 1996

Sigmund Freud. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Paris, Gallimard, 1987

MARINI, Marcelle. IN: BERGEZ, D. et al. Crítica Psicanalítica em Métodos críticos para a análise literária. Trad. de Olindina Maria Rodrigues Prata. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

NOVALIS. Philosophical Writings, translated and edited by Margaret Mahony Stoljar, State University of New York Press, Albany, NY, 1997.

VALÉRY, Paul. Discurso sobre estética. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2002

WIDIGER T e Clark LA. Toward DSM-V and the classifcation of psychopathology. Psychol Bull. 2000.

[1] Termo introduzido em 1953, pelo psiquiatra norteamericano Harry Benjamin, para designar um distúrbio puramente psíquico da identidade sexual, caracterizado pela convicção inabalável que tem um sujeito de pertencer ao sexo oposto.