Latedjou não é uma cantora simplesmente, é uma artista. Não o é pelo contacto que tem com as artes cénicas e visual, apenas, mas, sobretudo, pela sensibilidade artística que lhe permite encenar, a partir do canto, da música no geral, diferentes mundos de forma peculiar.

Começámos assim. Isso, para nós, torna-se um facto depois de a vermos e não somente a ouvirmos, no seu concerto que se realizou no primeiro dia do mês da Independência. Mas para não parecer exagero, tentaremos justificar a nossa suposta tese, e se não conseguirmos, ainda assim continuará a ser a nossa opinião sobre uma das várias artistas emergentes da música angolana.

Pontualidade e organização da equipa responsável pela realização do concerto foram dois aspectos auspiciosos para uma hora e meia bem aproveitada de boa música. Tal como foi anunciado, a entrada do público – pequeno em número, mas aceitável pela novidade que ela representa – foi pontualmente a partir das 19h30, e o concerto começou poucos minutos depois da hora marcada, 20h00.

O cenário, “intimamente intimista”, não daria para muita gente, e, infelizmente, muita gente precisaria de uma boa terapia musical no último dia laboral da semana, excepcionalmente na quinta-feira. A parte frontal da sala que, claramente, seria manejada pela anfitriã estava composta por uma mesa na qual dava para ver um PC e mais alguns instrumentos, dois, se tanto. Havia três microfones destacados, prevendo, além de ela, mais dois acompanhantes. Mas o que se viu foi o contrário. Ou seja, Maria-Gracia Latedjou, ao contrário do que se esperava, dominou todo o cenário, sozinha, com a simplicidade de uma experimentada artista de longos anos. Além dos dois instrumentos denotáveis sobre a mesa, demo-nos conta do violino que foi o instrumento base ou principal durante o concerto, tocado com e sem arco, embora, no seu EP inaugural, “o baile dos sentidos”, o violino não tenha conhecido o arco como tradicionalmente é.

A sua voz, desconhecida por nós até antes do concerto, entrou nos sentidos auditivos com facilidade. Foi fácil aceitar ouvi-la, e talvez razão seja pela docilidade e sensualidade que pareceu ser características da sua voz. Não sendo capaz de usar termos técnicos para a caracterizar, buscamos palavras que melhor dominamos para tal. Afinal, encontrámos sentido no título “o baile dos sentidos”.

Como já se fez referência, sendo um concerto intimista, ela não se limitou em cantar, dialogou, diríamos que contracenou em 20 por cento do tempo com o público – bem comportado, diríamos – durante o evento. Fê-lo sem tropeços como se seguisse um plano ou um guião bem traçado.

As cinco músicas do seu EP se deram a conhecer ao público que parecia novo, desconhecedor do trabalho da artista, por meio de uma cumplicidade em que o silêncio ganhara novas concepções que não fora “ausência de ruído”. Antes porém, havia sossego das várias almas na sala, fugindo o ruído da cidade.

Em suma, Latedjou deve ser enquadrada no grupo ainda pequeno, por um lado, mas por outro, nem tanto, de emergentes fazedores de uma música que partilha o jazz, o afro-jazz, a bossa-nova, os ritmos angolanos e africanos e não só. Falamos-vos de Anabela Aya, Aline Frazão, Celda, Jazzimática, Gari Sinedima, Unekka, Banda Ukãi entre outros.

Abrimos um parênteses (Toda essa gente que foi citada tem em comum aquilo que os ocidentes denominam de world music para (in)explicar o que a ciência musical destes não explica ou que não deseja explicar. Mas há, porém, em cada voz, singularidade. Ao contrário do que sucede com e em outros estilos, aqui cada um é um lobo solitário que partilha apenas com os outros o mesmo espaço e a mesma fonte de sustento artístico. E a Maria-Gracia é uma “loba” solitária não somente pelas razões anteriores, mas também pela fonte que sustenta as suas aspirações artísticas.)

De qualquer forma, devemos também salientar que em Maria-Gracia há alguma coisa que a diferencia dos demais desse grupo que tem a ver com a proximidade que a sua música tem com os ritmos dos países ocidentais e do centro de África. E o seu desenvolvimento cultural que não se deu (e ainda se dá) apenas com e em Angola pode explicar isso, lembrando que, através de uma entrevista que esta revista fez-lhe, se nos demos conta da sua relação cultural e não só com a República de Benim.

Resumindo e quiçá não concluindo, já que esperamos ter mais motivos para abordagem em volta da sua arte, convidamos ao público apreciador de boa música a acompanhá-la a fim de tirarem outras e mais conclusões, pois não esperamos que sejamos os últimos e os únicos a fazê-lo. Boa escuta!