Manas,

Espero que esta carta vos encontre bem.

Escrevo para dizer que estou aqui; que podem absolutamente contar comigo.

Seria uma grande ilusão me sentar aqui e julgar entender tudo. Não tenciono fazer isso. Não tenciono assumir que a minha dor é de alguma maneira igual a vossa, que os nossos gritos ecoam as mesmas mágoas e nem que a felicidade que procuro é a mesma que vocês procuram. Não! Não me sento aqui assumindo saber ou entender o que vivem me baptizando especialista nas vossas dores, nem mesmo quando passo por algo igual ou semelhante. Não assumo que meus medos são nossos, tampouco quando temos em comum o mesmo sentimento de aversão, quando nos abraça a mesma fobia.

Talvez jamais venha a entender o que faz algumas de vocês ficarem tanto tempo num relacionamento tóxico; o que vos prende num trabalho que não vos dignifica ou progride, nem mesmo o que esteve na vossa decisão de criar uma família em vez de uma carreira ou, ainda, no caso de algumas, o que fez assumirem as duas opções. Não me esqueço de vocês, minhas queridas irmãs, vocês que decidiram ser só e que, por isso, são diariamente crucificadas.

Às manas cobertas das manchas do longo e sofrido constrangimento físico e/ou moral, só o meu sentimento de compaixão. Jamais entenderei o que pensaram quando guardaram a sete chaves os abusos que, por muito, toleraram; não só os contra vocês, mas os contra as outras que desoprimiram em segredo. Talvez tenham se sentido pequenas, incapazes ou qualquer outra coisa pior. Jamais entenderei como limparam o sangue deixado entre as vossas pernas e foram como se nada tivesse acontecido, jamais entenderei isso. Se não tivesse o pungente conhecimento que tenho, condenar-vos-ia por fracassarem, por não terem prestado queixa ou feito o que fosse para que tal mal não se repetisse. Mas, infelizmente, essa verdade está num plural que também me envolve.

De maneira alguma, tenciono julgar entender o que sentem quando são injuriadas pela cor, pelo tamanho ou pela textura do vosso cabelo, nem mesmo quando passo por isso também; quando o tamanho e a forma do nosso nariz e o tom da nossa pele se fazem motivo de escárnio; quando, em geral, o nosso senso de moda é tido como expressão dos nossos desejos e é, por isso, agressivamente arrancado de nós.

De maneira alguma, intento ser insensível às nossas diferenças. Porém, escrevo com uma enorme esperança de que será por estas mesmas dissemelhanças que construiremos o nosso ponto de intersecção. Que promoveremos a nossa união e que chegaremos a um futuro tolerável para todas nós. Um futuro onde nossas irmãs, filhas, sobrinhas, netas, e todas as meninas que ainda estão por conhecer as atrocidades deste mundo tenham um espaço para viverem sem os medos com que vivemos hoje.

Não pretendo me sentar aqui e julgar entender-vos a todas pelo simples facto de também ter uma vagina, mas pretendo me sentar aqui e dizer que nada me deixaria mais feliz do que ganhar uma oportunidade de vos ouvir e de ser ouvida por vocês. Sento-me aqui confiante de que esta carta vos fará ver em mim alguém não só com capacidade para entender, mas com uma imensa vontade de o fazer. Sento-me aqui também crendo que com ela, finalmente, olharão ao vosso redor e notarão as outras, as que também enfrentam o mundo e procuram mudá-lo tal como vocês. E, venturosamente, entenderão que não é necessário irem sozinhas. Verão, nestas magras linhas, razão suficiente para considerarem uma união independente das nossas diferenças e por elas também.

Assumo ser pequena e limitada e não vos burlo com promessas vazias, mas recuso-me a aceitar que isso determinará a qualidade do nosso êxito. Nenhuma mudança cairá do céu e removerá os espinhos por onde andamos, portanto, aqui mesmo, como somos, como estamos, com o que temos, vamos começar a arquitectar a mudança que há muito ambicionámos. Juntas, podemos!

Texto extraído do livro “Ahetu: Vozes Desprendidas“, de Cláudia Cassoma