A elasticidade do percurso a que nos propusemos advinha-se complexa. Contudo, pretende-se com a presente comunicação um diálogo inclusivo, não conclusivo, em torno da umbicalidade catártica na poesia angolana. Isto é, o efeito catártico provocado por determinadas expressões poéticas em diferentes sensibilidades receptivas.

Inicialmente, aproveitamos fazer a destrinça entre expressões poéticas e sensibilidades receptivas. O primeiro circunscreve a singularidade polissémica do sujeito poético em relação ao texto. Falamos em singularidade polissémica, pois que o texto poético abandona a sua área de restrição para estar em acto por meio de um conjunto de elementos intrínsecos à natureza do sujeito receptivo. Não é por caso que os estudos do estruturalismo americano inclinam-se no modo de produção dos sons da fala pelo aparelho fonador e a fonética auditiva. Por outro, o aparelho visual é um elemento essencial na captação da escrita. permitindo a descodificação sensorial do conteúdo poético. Quanto ao segundo, a pluralidade efeito-contextual é a forma como o texto em acto adquire várias significações no sujeito receptivo. Entendemo-la, em nosso estudo, estar fortemente relacionada à estética da recepção e a teoria de interpretação. Alerta-nos Eco (2011, p. 49) “…que a obra de arte constitui um facto comunicativo que necessita ser interpretado, e portanto integrado, completado por uma contribuição de quem a frui.”.

Desta feita, a umbicalidade catártica na poesia angolana consiste na malha intuitiva de relação plurívoca entre a obra e o sujeito receptivo. Todavia, a ressonância entre a forma e o sentido no sujeito receptivo estende-se ao binómio arbitrariedade e a coercibilidade existencial. Ambos apresentam o texto poético como denominador basilar. Assim sendo, o que poderá impactar o modo de persuasão é o distinto labor natural da metalinguagem que apresenta o sujeito poético como ponto de partida e o receptivo, como o de chegada. Por conseguinte, a sustentabilidade de uma abordagem consiste nos discursos anteriores, ou seja, nenhum discurso surge de si mesmo.

Assim sendo, catarse, efeito catártico, é a palavra a que alude Aristóteles, na “Arte Poética”, quando trata da tragédia. Dentre as várias acepções, para o Dicionário Língua Portuguesa Prestígio (2012, p. 321), o conceito de catarse diz respeito a «purificação emocional». Aferimo-la tratar da sensibilidade social que o sujeito receptivo apreende no seu processo metamorfósico de socialização. A delimitação da área de jurisdição científica permite maior consistência à abordagem e facilita a compreensão da comunicação. Por esta razão, circunscrevemo-nos às obras: “Antologia Poética, Angola – Galiza: Sementes da Língua”, organizada pelo escritor angolano Lopito Feijó; Por se tratar ainda de um itinerário recente no panorama conceptual da literatura angolana e abranger distintas áreas do saber com maior incidência no campo da psicanálise, fica difícil predizer com exactidão a sua média de frequência no sujeito receptivo. Procurar-se-á um melhor desdobramento ao nível do conteúdo para que se evite superfluidade discursiva. Não é e nem será pretensão transparecer a ideia de que os textos aqui transcritos ou abordados poderão ser unânimes quanto à sua umbicalidade catártica no sujeito receptivo. Por exemplo, constata-se no poema da Ndilimeque (2017, p. 103): «quando a chuva redige de tristeza suas lágrimas sou solidão em pobre tormento». O referido verso dispõe-se de um dualismo antagónico, partindo do pressuposto de que ausência do sintagma chuva no imaginário dos povos agrícolas poderá ser entendida como um atentado à crença dos mesmos. Porque a chuva constitui o deus de sua subsistência. Mas para alguns bairros de Luanda, a chuva ou o prenúncio da mesma implica um caos.

Há vários e diferentes vectores da e na umbicalidade catártica na poesia angolana, dentre os quais: auto-umbicalidade catártica – a relação entre os factos sociais e os estádios evolutivos do homem que subjaz na sua manifestação poética. A reacção aos factos da realidade exterior, é determinada, em grande escala, primeiramente, pelas nossas impressões infantis. Posteriormente, pelo modo como concebem os múltiplos acontecimentos que decorrem ao nosso redor. A título de exemplo, temos o poema, do Gabriel Rosa, “Comboio de Infâncias” (2017, p. 79): «(…) Tosse/tosse/ó comboio da infância/Eis que falece o xarope da curadivindade sob o enterro do amor cristal/E tu, ó tosserrolando mortalidade na visão esfumada da memória». Concomitantemente, o passado de criança exerce uma inexplicável influência sobre o ser actuante.

Ainda sobre o poema referenciado, notar-se-á uma coerência metafórica, no campo da lexicologia, entre as palavras «tosse» e «xarope», «visão» e «memória» e ainda sobre tecidos linguísticos, a presença do gerativismo poético: «curadivindade» e «tosserrolando». Parte-se do gerativismo linguístico defendido por Chomsky, ou seja, é a partir da visão de Chomsky que as línguas abandonam o modelo interpretativo como resultado da interacção social e transladam para o campo da faculdade psico-natural. O falante tem a capacidade de usar palavras que não as tenha ouvido.

Um outro vector da umbicalidade catártica na poesia angolana é a intertextualidade no sujeito receptivo enquanto sujeito poético. Pode se verificar isso no poema “Carta” de Óscar Fernando (2017, p. 104): «Há uma carta intertextual/carta de desvelo/de amor/de desespero/uma carta que jamais será queimada pelo fogo do tempo/uma carta extra-planeta/». O trecho transcrito é resultado da umbicalidade catártica entre o sujeito poético receptivo e o poema Carta Dum Contratado de António Jacinto. Cada um tem os imputes para a umbicalidade catártica na poesia angolana.

Por ora, é bíblico quando nos é dito para que respeitemos os nossos pais [mãe] para que se prolonguem os nossos dias na terra. Dito isto, há compulsões metafóricas em Ibinda Kayambu como meio de protesto intuitivo no poema “Étnico Engano” (2017, p. 87): «(…) minha mãe/ minha pobre mãe/[Áfricas das minhas vidas/­ sem sonhos(…)». Na esteira do trecho referido, há tríade de perspectivas: filosófica em “sonhos”, solidariedade-inclusiva em “Áfricas” e simbólica em “mãe”. O morfema “pobre”, isolamo-lo por se estender a campos existenciais polissémicos com maior incidência sócio-material e espiritual. Por outro, há uma ruptura na sensibilidade do sujeito poético. Pois que se assiste também uma relação sintáctica entre mãe e, entende-se aqui, “mãe”, como um signo linguístico, os vários acontecimentos originados pelas urinas metafóricas.

A umbicalidade catártica na poesia angolana decorre de forma aleatória na relação existente entre o modo poema, neste caso o conteúdo, e o modo recepção do sujeito leitor. Esta relação resulta da confluência entre a individualidade genérica e a colectividade histórica. Isto é, o sujeito leitor ou receptivo reage aos efeitos de forma natural. Os vectores da umbicalidade catártica na poesia angolana são de caracteres heterogéneos.

No sentido de repto e não de conclusão, a descarga da umbicalidade catártica na poesia angolana não é uniforme ainda que os sujeitos receptivos partilhem o mesmo espaço-temporal. Como sempre, não terminamos, ficamos por aqui.

BIOGRAFIA

ECO, U. (2011). A Definição Da Arte. Edições 70

Porto Editora. (2010). Dicionário Língua Portuguesa Prestígio. Porto: Autor

FEIJÓ, L, (2013). Antologia Poética, Angola – Galiza: Sementes da Língua.