Em busca dos passos e caminhos onde se expressa, se busca e se reinventa a arte, a Palavra&Arte cruzou com Maria-Gracia Latedjou, uma artista de mão-cheia, no quesito de vocações distintas, que recria e representa as Artes de forma inusitada, ousada. A cantora e compositora é autora do EP Baile dos Sentidos e, marcando mais um passo na sua carreira artística, da curta-metragem Ancêtre de Sable Rouge, apresentada recentemente ao público. Ancêtre de Sable Rouge é um filme de 17 minutos desenvolvido através de uma linguagem abstracta, de características sonoras e visuais pouco comuns e propõe uma abordagem que busca reflexões sobre questões de identidade e, como diz a autora, sobre as ligações que podem existir entre língua e identidade/língua e pertença. Na conversa que se segue, Latedjou compartilha connosco um pouco de si, da sua trajectória como artista e fala-nos do Baile dos Sentidos e do seu mais recente trabalho, o Ancêtre de Sable Rouge.

A Maria-Gracia Latedjou é compositora, cantora e, como se apresenta, violinista. Muito do que tem sido é fruto do autodidactismo. Como explora todas essas vocações?

Comecei a aprender a tocar violino em Luanda, numa altura em que era muito difícil encontrar quem ensinasse. Na minha escola, havia uma professora de música que fosse violoncelista, e que me mostrasse algumas bases. Como ela também adivinhava muito o que ia me ensinar, comecei já a aprender o instrumento com margem para tentar coisas sozinha e ver como queria utilizar o instrumento. Só depois tive algumas aulas com violinistas. Também fui-me ensinando a tocar outros instrumentos, como é o caso do teclado, que usei muito para compor a banda sonora de Ancêtre de Sable Rouge. Por isso também, é, às vezes, difícil de eu me identificar como violinista. Acho só que gosto de tocar instrumentos. Não tive aulas de canto, mas desde pequena sempre me encontrei a criar melodias, mesmo que não as gravasse. Essa é a parte que mais aprecio no processo de composição. Geralmente, as letras vão surgindo sobre uma base melódica de forma um pouco inconsciente e aleatória, por isso deixo-as fluir. Só nunca as considero finalizadas, se não reflectirem o que estiver a pensar. Para mim, o mais importante na composição é sempre ser livre e honesta.

Percebe-se que o resultado de todo o aprendizado, no que concerne ao mundo artístico, originou certamente uma identidade. Que descrição faz desse novo ser, criativo, que questiona, através da arte, a sociedade e os caminhos que a cultura deve percorrer como pilar na formação do homem?

Desde a saída de O Baile dos Sentidos, tenho tido vontade de re-imaginar o EP de várias formas e às vezes extraí-lo da sua atmosfera e ambiente muito presente, para sublinhar certos questionamentos que escolhi levantar com o projecto. Apesar de ser um trabalho pensado para celebrar e dialogar com todos os sentidos e, sobretudo, com a Intuição, cada música do EP leva a vários encontros, vários sentidos. “Não é País”, uma das músicas que mais gosto de tocar, fala sobre a forma como um lugar que se autodenomina “país” – que é supostamente como se chama um espaço que agrega milhões de pessoas e que as protege em nome desse título – consegue mesmo assim criar divisões justamente pelo facto de existir ainda como um projecto em processo de compreensão do que significa respeitar e abraçar a diversidade. Ao mesmo tempo, a música fala da forma como a Intuição que nos guia para percebermos quando somos bem-vindas ou não num espaço. Daí o verso “Não é País/O meu corpo me diz.” Com este EP, tentei explorar um processo criativo que fosse muito focado no ambiente e na atmosfera, mas que pudesse também dar espaço para reflexões livres sobre coisas que acontecem ao nosso redor.

Acho a experimentação interessante para se pensar livremente o ambiente visual e para se convidar a livres reflexões sobre certas questões, sem estabelecer muitas balizas

O filme Ancêtre de Sable Rouge é a realização de uma ideia ramificada através do seu projecto de estreia, o EP Baile dos Sentidos. Fale-nos um pouco sobre o referido EP e como se dá a transição ao filme.

O Baile dos Sentidos é o meu primeiro projecto musical a solo. É um EP de cinco músicas que escrevi para voz e violino sem arco. Na hora de gravar, cada composição tinha ainda muitos espaços por preencher. Por isso, senti a necessidade de abordar tudo como um lugar para se experimentar e improvisar. O projecto foi gravado em casa, num guarda-fatos; porque preferi não ir em estúdio para poder ter mais tempo, e porque queria experimentar um eco natural que tinha imaginado.

A música “Ancêtre de Sable Rouge” nasceu de um sonho acordado sobre a cidade de Cotonou, capital económica do Benin. É lá que a minha mãe cresceu e onde a minha avó e avô viveram e criaram os meus tios e tias. É uma cidade onde vou de férias desde criança para visitar a família, e que visito em períodos irregulares. Por isso, apesar de ser uma das minhas cidades favoritas, é um lugar que vejo a partir de uma certa distância, não só física. De Dezembro do ano passado a Janeiro, pouco após o lançamento do EP, fui lá passar férias. Ali surgiu a ideia de gravar um videoclip para a música. Como, para além do sonho, a letra aborda temas ligados a questões de identidade e de língua, tive vontade de explorar isso em vídeo também. Surgiu então a ideia da curta-metragem experimental.

“Ancêtre de Sable Rouge” significa, em português, “Antepassado de Areia vermelha”. Esse título transporta uma certa mensagem poética, como a maior parte dos títulos e conteúdo do Baile dos Sentidos. Deixando de lado o abstraccionismo que caracteriza a sua arte, que leitura espera dos telespectadores através e somente da referida expressão?

Geralmente, prefiro mesmo deixar espaço para as interpretações das pessoas. Com o filme, entre outras coisas, quis criar um encontro para reflectir sobre como, muitas vezes, não é a língua que falamos todos os dias que serve para descrevermos o que pensamos de forma mais nossa, mais genuína, mais honesta; sem filtros. Isso, mesmo que falemos a tal língua fluentemente. Quis explorar a ideia de termos na cabeça línguas que carregam mundos e visões nossas, ainda que não nos ouçam falar essas línguas todos os dias. O meu pai tem como língua materna o Kikongo e a minha mãe, o Fon-Gbé, que é uma das línguas locais de origem no Benin. No filme, trago um provérbio traduzido do Kikongo, que o meu pai costuma dizer de vez em quando. Ele traduz literalmente por «não se aconselha uma criança que volta do baile». Isso para dizer que os conselhos se dão antes, e não depois de teres passado pela experiência para a qual te podiam ter preparado. Tem também outra frase que a minha mãe dizia muito quando eu era criança, que ela traduz literalmente em francês por «on passe dans ton ventre pour aller où?» [Passa-se pela tua barriga para ir aonde?], que seria para perguntar «quantos caminhos dão para o teu estômago? Vais mesmo conseguir comer isso tudo?»

E tem vários exemplos assim de momentos em que esses mundos vão se desenrolando naturalmente diante dos olhos dos meus pais, mas que, quando os contam, sinto que houve uma tradução. Isso também quer dizer que fui vendo esses mundos através dos seus olhos, em formato reconvertido. E uma reconversão ou tradução perde muito do que foi o formato original. Com isso, queria reflectir sobre as traduções literais que muita gente tem de fazer ou nos mundos que muitas pessoas calam por não encontrarem espaço para os expressar. Queria falar da língua que resulta de uma imposição sistémica colonial e que é eleita como oficial, e do espaço que essa língua oficial ocupa perante as diversas línguas locais de origem. Por causa dessa imposição que se arrastou pela história em espaços como uma capital ou uma grande aglomeração – que não são lugares pequenos –, essas línguas têm pouco tempo de acção e ficam relegadas a espaços delimitados como os pensamentos das pessoas, e vão se manifestando, às vezes, através de um provérbio traduzido, por exemplo.

Também quis explorar uma metáfora sobre uma pessoa de uma geração mais nova que cai em desentendimentos e em esquecimentos profundos porque não consegue ir e vir ou ter poder de decisão sobre visitar esses lugares através de uma língua local de origem, simplesmente porque não a fala. Na mesma, essa pessoa consegue ver o vermelho berrante desses mundos em vários espaços, ou tenta recriá-los através de rituais seus, para construir a sua realidade no presente.

Nas produções artísticas, seja lá qual for a disciplina, seria bom que pudéssemos presenciar outros panoramas que não estivessem só extremamente ligados ao horizonte da cidade de Luanda e ao seu imaginário.

Pela performance no filme Ancêtre de Sable Rouge, nota-se determinadas características sonoras e visuais únicas. Como imagina a mesma obra fora das telas, em performance, ao vivo?

As performances nas filmagens dão-me espaço para interpretação cénica. Por ser eu a operar a câmera, consigo me desapegar da autoconsciência e ter tempo para experimentar e criar personagens. Ao vivo, a cantar, já é bem diferente. Por enquanto, costumo querer manter uma energia contínua, sem muitas interrupções ou mudanças. Em palco, tenho só tentado trazer comigo a atmosfera do EP e, visualmente, quando é possível, tenho uns poucos objectos alinhados com o ambiente do concerto. Realmente, Ancêtre de Sable Rouge dá vontade de trazer mais, mas ao vivo prefiro concentrar-me na música.

 O filme é uma curta-metragem. A escolha desse formato supre todas as necessidades de expressão que tem no momento, ou pensa em algo maior, uma longa, por exemplo?

As músicas do EP surgiram já com atmosferas visuais. Essa curta-metragem, assim como os outros vídeos, ajudaram muito a dar luz a essa parte do projecto que, afinal, sempre esteve tão presente quanto à música. A curta-metragem é um formato que comecei a explorar há pouco tempo para comunicar ideias de forma breve, ainda que com um ritmo lento para pensamentos alargados. Acho a experimentação interessante para se pensar livremente o ambiente visual e para se convidar a livres reflexões sobre certas questões, sem estabelecer muitas balizas. Penso muito em longas-metragens. Por uns meses durante o mestrado na faculdade, tive uma matéria sobre filmes documentários que falam sobre música. Era uma matéria bem teórica, mas foi aí que aprendi o básico da edição de imagem e um pouco sobre escrever guiões e realizar filmes. Para completar, vou pesquisando na Internet e pedindo dicas a profissionais que conheço. Antes de realizar uma longa-metragem, quero adquirir mais bases técnicas e ir praticando.

Depois do Ancêtre de Sable Rouge, que outros projectos, quer sejam audiovisuais, musicais, ou outros, tem para continuar a promulgar o universo artístico-cultural? Haverá, por exemplo, uma nova ramificação do Baile dos Sentidos? Em livro, talvez?

Quero fazer mais música! Sobretudo, quero mesmo explorar a composição como todo um universo, um lugar para se criarem atmosferas e experiências… Gosto muito de compor, penso até que gosto muito mais do que apresentar uma performance da composição – que é tocar ao vivo. Aqueles primeiros momentos sozinha, a surpresa boa de uma nova melodia que vem com bocados de palavras e de tons que anunciam um pouco o que aquela música vai ser… isso deixa-me mesmo muito empolgada, sempre. Quero fazer mais isso… seria então um bom momento para dizer que venho trabalhando num próximo disco.

Desde que saiu, o Baile dos Sentidos foi se completando pouco a pouco ao vivo e penso, agora, com a curta. Um livro? Não acho que venha!

Que perspectivas vê na arte e na cultura em Angola? E como encara as entidades sem fins lucrativos, como Palavra&Arte, que mesmo sem qualquer tipo de apoio institucional ou de particulares, fazem o máximo para promover a arte, os artistas, a identidade artística e cultural de Angola?

Eu vejo-nos um pouco mais plurais e diversos, artisticamente. Mesmo que essas identidades criativas não sejam todas muito visíveis, é bom sentir que vêm visões e estilos distintos. Isso é muito importante. Na mesma, para voltar à questão da visibilidade, tenho sempre sede de ver, ouvir e sentir mais presenças que não sejam só de Luanda ou que não se tornem naturalmente visíveis por estarem em Luanda ou por terem passado por Luanda. Eu entendo que se queira que aconteça sempre muito mais numa cidade capital do que noutros lugares de um mesmo país – porque é um espaço que foi pensado para ser central, de certa forma – mas sinto isso demais, aqui em Luanda. Acho uma pena muito grande! Isso nos impede de valorizar e de sentir a presença e a importância inquestionável de visões e vivências diversas. Nas produções artísticas, seja lá qual for a disciplina, seria bom que pudéssemos presenciar outros panoramas que não estivessem só extremamente ligados ao horizonte da cidade de Luanda e ao seu imaginário.

Também acho que os órgãos públicos competentes deviam trabalhar o seu interesse num processo de democratização das artes. Por exemplo, precisa-se mesmo de salas de espectáculos equipadas, de diversos tipos e em lugares diferentes; não só nos centros das cidades grandes, sobretudo num país onde ainda não temos uma boa rede de transportes públicos, onde, por exemplo, uma pessoa que vive em Cacuaco, numa «rua de trás», se não tiver carro, não pode ir a um concerto à noite, porque será na Baixa, será provavelmente caro, e a pessoa terá dificuldades em voltar para casa.

Sobre a Palavra&Arte, especificamente, acho um super exemplo de interesse nas artes em geral, também porque é mais um portal que, para além de promover o que acontece, tem colaboradores que trabalham para dar luz a projectos, conectando perspectivas, análises e questões. Isso é muito importante para percebermos como as produções artísticas estão ligadas a tudo que acontece ao nosso redor numa sociedade. Gosto muito do facto de apresentarem diferentes tipos de trabalhos e de haver sempre novas descobertas a fazer por aqui.