Perdido na cidade a olhar somente a moderna cidade que mortifica a velha urbe. Cidade das paixões efervescentes, dos artistas e dos soldados, cidade das conquistas, cidade de corpo e alma, sobressaindo no pôr-do-sol da tarde.

Gente que parte e vem de toda parte, trazendo “velas ao vento de belos e inúmeros barcos”. De segredos e mistérios a cidade é epopeia.

Ela ouve-nos, embala-nos. E se a dor nos devora, ela parte-se. Mas ninguém a ouve chorar.

Ele veio das cercanias da Cidade, dos musseques e casas amontoadas e se perdeu entre modernos edifícios e arco-íris incandescentes e entre o corre-corre dos funcionários e dos rostos serviçais mascarados de felicidade.

Ele é a voz que grita, o suspiro que persiste. O guardião dos espíritos alienados.

A tentar decifrar sons, ouve a voz esbatida, sentida e atrofiada da Luanda, o rosto pueril marcado de lágrimas. E ninguém ouve. A cidade clama sobre o regime opressivo de todos os tempos, e ele abate-se revoltoso. Pássaro querendo escapar da pontaria das fisgas do modernismo. Não suporta. Angustia-se.

Reúne em si a força anímica do universo. Revive. Os pensamentos são feixes de luzes a eclodir como moléculas. Tudo se reinventa, a dor, o riso, o abraço quente e rubro, até mesmo as esperanças. Tudo chameja na sede de mudanças repentinas, de permanências absolutas. O tempo ressurge das suas mil e uma viagens ao além, e traz as velhas querelas, a mesma façanha da aristocracia da mestiçagem. A colónia permanece. O presente traz-lhe o passado, bruto, cruel, rude. Outra vez a cidade e o inspector de cacimbos forjam utopias sobre realidades crepusculares. Tempo de esconde-esconde, agarra-agarra. Epidermes luzidias e café torrado. Caravelas e crucifixos. Bordéis e capelas trazem à imagem o cruel e boçal momento da metrópole.

Foto de @krisnano_santos “As vezes estamos numa rota se colisão e nos não sabemos, Seja por acidente,destino ou intencional,sou não podemos fazer nada a respeito. Parece que será o fim da minha jogada na vida.”

No tempo em que o tempo significava tempo de luta, Luanda era a menina dos olhos de todos. Cresceu.

Na linha do horizonte surgem engenheiros lunáticos, que criam corpos armados, verdadeiros paraísos-infernos. E tudo se consome, o mercado da Quinanga, edifícios, igrejas, o penedo de Santa Cruz, gentes, o musseque, a memória. Tudo se perde no rio incolor da modernidade.

Perdeu-se e reencontrou-se como simples neófito na arte de reinventar cidades-Memória.

Na conversa com esse Muxiluanda, maluco resignado:

– A cidade sofre por dentro, ela se definha, se entristece, apesar das novas urbanidades – disse o homem embrulhado em farrapos a comer no contentor. – É uma cidade sem memória – concluiu.

A força claudicou no corpo, mancou. Percebeu que eram os mesmos sentimentos da cidade.

O cheiro nauseabundo substituía o da liberdade. Veio na mente as palavras de Tomás Jorge: “a cidade é um crime habitado”.

O pregão resiste ao tempo. Dá vida a muitos poemas. E cada verso espera o pai e o pão à tarde.

É Sempre o mesmo vil e miserável. O ponto-final da narrativa. O melodrama da cidade dos caixões. O excremento expulso das entranhas e feito aos pedaços.

Passou pelo kinaxixi. Aqui já esteve outrora de olhos virados à lua, a afagar com a mão a sua donzela. No mesmo sítio, violeiros faziam pomposas serenatas com gramofones. Os bancos, as pessoas sorridentes, seguindo ou se importando. No impulso da angústia, ele se distrai e chora. A memória é replay. Não cessa de recriar o passado. Seu corpo fustigado pelo tempo é mapa dos lugares. É geografia. Na dimensão humana da memória colectiva ele é o tempo que tudo cura e perdoa. Só não devolve nada nem a ginga dos escravos-capoeiristas, nada. Tudo é sombra de outras eras.

A cidade ao seu lado geme sofregamente, ele reinventa-se com a cidade, obreiro do seu próprio destino.

Aqui havia um prédio, além da casa do Governador. Mais para lá, o museu de ferro. Anteriormente, aqui havia escravos que contavam suas histórias de meter medo.

A noite surge com lâmpadas made in china que substituíram os petromax a gasóleo e torcidas imundas das outras eras. O barulho das cigarras vencidos pelo zumbir de motociclos alienados. E ele mesmo desaparece sobre a periferia da nova cidade.

 

Em Memória a Jorge Macedo e a todos os que por esta cidade dão o seu sangue.