Não assisti ao live solidário do último Domingo na TPA 1 que tinha como protagonistas Socorro, Baló Januário e Os Tunjila Tuajokota. Sabia, como soube do live 3G – Bonga, Paulo Flores e Yuri da Cunha –, mas, simplesmente, não troquei o canal da Super Sport na qual assistia à Fórmula 1 pelo canal da TPA na qual passava o dito live. Por isso, considero-me e podem considerar-me um marginal à cultura nacional. Sim, marginal. Não me enquadro na cultura do meu país, é muito para atrás para o século XXI e um mundo tão desenvolvido e tecnológico, tão para frente. Sou marginal a toda forma de manifestações cultural e artística nacionais por ouvir rap (nacional) e ter na minha playlist este estilo; sou marginal por ser urbano, por vibrar com a música urbana mesmo sendo nacional; sou marginal, acima de tudo, por não me identificar com o folclórico de Baló Januário ou um outro, mesmo não sendo este e sua música da minha etnia-nação. Por isso, não fingirei estar atento e preocupado com aquilo que é ou que dizem ser próprio da nossa essência como angolanos e antes como africanos.

Vocês, sim, são culturalmente angolanos, porque uma “têpêá” vos fez lembrar que existe, em Angola, não apenas Semba, Kizomba e Rap; Bonga, Euclides da Lomba e Cool Clever; fez-vos lembrar que afinal música angolana também é Socorro; vocês, que vibraram e dançaram a um ritmo há muito esquecido pelas rádios, pelos produtores musicais, culturais e de espectáculos, e, acima de tudo, pelo Ministério da Cultura e foram gabar-se entre as paredes digitais das redes sociais como tão representados como angolanos se sentiram, são os verdadeiros angolanos culturalmente.

Porque então não se fazer desse dia, 19 de Julho, como o dia da Música Nacional, por o trio do live deste dia ter feito dançar Angola inteira literalmente, das cidades aos campos, dos musseques às vilas mais recônditas, ali onde a energia eléctrica é uma realidade tal que o pisca-pisca é uma irregularidade? Assim, nesse dia desse mês de todos os anos posteriores lembrar-nos-íamos que existe música folclórica e, nos outros dias do ano, poderíamos nos esquecer, como se nunca existisse tal estilo, simplesmente apagaríamos da nossa memória colectiva tal existência. Mas, mal tocasse meia-noite do dia 19 de Julho, a magia da tradição e da cultura, como uma memória implantada através de um chip, nos faria “lembrar” que era dia de festa da Música Nacional, do Folclore Nacional, e os esquecidos nos 364 dias do ano eram lembrados, valorizados, exaltados e lhes era colocado na cabeça a coroa de Reis da Música Angolana por um dia, acabando com a discussão que parecia interminável sobre quem deveria ser o Rei.

Pós-título: A exibição da hipocrisia em passos dançante e folclórico