Apesar de declarado como o ano de inúmeras dificuldades, e o sector da cultura apresentar enormes cortes, desde o OGE a investimentos privados, foi possível ver acontecer projectos culturais importantes.

A cultura fortalece a nação e não pode haver dúvidas sobre este argumento. O ideal “mais cultura mais angola” vincou face à crise que vivemos. A crise económica que Angola enfrenta, da qual ainda não se vislumbram saídas possíveis, é um dos momentos mais subtis da sua história. Ela trouxe consigo problemas conjunturais muito sérios: separou famílias, aumentou a taxa de desemprego e de inflação e dividiu o país em blocos.

A “ascensão meteórica” dos Estados Unidos como produtor de Petróleo deu um “K.O” significativo ao preço do barril do “ouro-negro” que, até então, custava mais de 100 dólares. O preço do barril veio a cair mais de dois terços, chegando mesmo a 30 dólares. Por outra, a Arábia Saudita, ao recusar-se a “cortar a produção de petróleo para manter os preços e recuperar a sua posição no topo do mercado”, causou uma guerra de preços. Em consequência, os outros países produtores como a Nigéria, a Líbia, a Venezuela e Angola encontram-se num cenário de tensão. Angola, por muito tempo, dependeu inteiramente do Petróleo, e, por este facto, a sua projecção económica de 2014 para 2015 era de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Com a queda do preço do barril do petróleo, houve a necessidade de se fazer um reajuste no Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2016.

As limitações observadas no OGE revisto para 2016 acentuaram um corte substancial ao capital que se disponibilizava à cultura.

Ainda que quiséssemos deixar os cálculos aos economistas, de uma coisa teríamos certeza: a cultura é o sector que mais ganho teve em 2016 e é aquela que mais vinca em tempos de profundas instabilidades sociais, económicas, políticas e até religiosas. Foi assim ao longo de todos os períodos, desde as eras antigas até a era Moderna-contemporânea. A crise sempre existiu, ela acompanha o homem ao longo da sua história, e podemos dizer que, ela é antropológica.

Para o propósito desta exposição, distingue-se que, longe de toda esta turbulência originada pelo impacto da crise, foi possível notar como os agentes culturais apresentaram propostas capazes de dinamizar a cultura quer pela realização de actividades regulares como exposições ou concertos assim como festivais de abrangência a nível da capital e mesmo nacional.

Diante das dificuldades de encontrar créditos e ou patrocinadores, eis que surge, deste imbróglio, como Fénix ressurgida das cinzas, a cultura nas suas mais diversas formas: Literatura, Música, Dança, Artesanato, Teatro, etc.

Em 2016, assistimos a realização de festivais e consertos musicais (Festa da Música, Festival da Canção, a 4ª Edição do Festival Sons do Atlântico); festivais de teatro e cinema (Festival Internacional de Teatro do Cazenga, Festival de Teatro das Acácias-Benguela, Festival de Curta-metragem em Luanda, Circuito Internacional de Teatro, Festival de Teatro Universitário etc.); festivais de poesia (Festival de Poesia do Huambo, Encontro de Gerações do Movimento Lev ‘Arte, Spoken Word); festival de dança (Festikizomba Angola 2016); diversas exposições individuais e outras colectivas (como o JAANGO, Projecto Olomgombe, etc.); lançamentos de livros, entre outros eventos que qualificaríamos como sendo o portento de salvação do país face às sequelas da crise.

Com efeito, os inúmeros resultados positivos que estes eventos demonstraram, mesmo com insuficiências de recursos, fazem com que a cultura seja e pode vir a ser o sector alternativo da economia angolana. Destaca-se aqui contributos de fundações, associações e instituições culturais, como a Associação Sindika Dokolo, Instituto Camões, Espaço Chá de Caxinde, Casa de Cultura Brasil-Angola, Aliança Francesa, Fundação Cultura e Arte, e alguns produtores como Adriano Maia, Estúdio Olindomar, Lev´Arte, Kwatas & Koolies, Actos & Cenas, Cena Livre, Projecto Cultura Para Todos, entre outros, que, indubitavelmente, diante das dificuldades têm optado em buscar saídas efectivas para colocar Angola num cenário de destaque a nível cultural.

III Trienal de Luanda – Este evento emancipatório que traz consigo um reportório determinado de atitudes, quase utópico (tema central da actividade), perante às dificuldades de várias índoles socioculturais e até socioeconómicas, se coloca como um modelo de unificação cultural.

A Trienal de Luanda, que já anda na sua terceira edição, é um dos eventos que maior contributo deu à cultura durante o período 2015/2016, quiçá, antes e depois deste período. Organizada pela Fundação Sindika Dokolo, teve o seu início em 30 de Novembro de 2015 e término previsto a 30 de novembro de 2016.

Produziu mais de 1.559 actividades com mais de 2.147 artistas. Por este facto, foi prorrogada o prazo para 30 de Junho de 2017, começando com o Festival de Teatro Angolano a 05 de Janeiro até 12 de Janeiro. Do ponto de vista de cobertura e expansão, é um projeto de grande vulto e pensamos que pode contribuir para internacionalização da cultura angolana.

Imagem de perfil da Trienal de Luanda na sua página do facebook

Luanda Cartoon – De igual impacto, a 13ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada e Animação, denominado “Luanda Cartoon”, considerado uma peça fundamental na promoção das artes figurativas e do cinema de animação angolano, contou com a participação de artistas de Portugal, Brasil, França, Congo, Gabão, Moçambique, Itália e Cuba e aconteceu no Centro Cultural Português. O festival, dinamizado pelo Núcleo da Banda Desenhada – este promovido pelo Estúdio Olindomar –, destacou-se ainda por ter ganho a categoria de Artes Plásticas do Prémio Nacional de Cultura E Arte, em que o júri atesta a “execução meritosa das caricaturas apresentadas e o emprego da metáfora, onomatopeia nacional e a integração de técnicas do mundo digital”.

Luanda Cartoon

CIT – Circulo Internacional de Teatro – A par de festivais já estabelecidos e festivais surgidos durante o ano de 2016, o Circulo Internacional de Teatro, levado a cabo pelo Projecto Cultura Para Todos do Grupo Pitabel, apresentou uma dinâmica diferente ao teatro nacional a propósito de “trazer o mundo para Angola e levar Angola para o mundo. Em entrevista à revista Palavra&Arte para este dossier, a directora artística do certame apresentou a motivação, o repertório teatral de grupos de Luanda, Benguela e Huambo, e de grupos estrangeiros, numa ampla plataforma de intercâmbio entre estes, passando além da apresentação de peça. Com devido reconhecimento atribuído ao CIT pela delegação da cultura, pela comunicação social e pelos diversos grupos, Carla Rodrigues não mediu fôlego ao dizer que “2016 foi o ano do teatro”, observando o nível de dificuldade enfrentada para efectivação do circuito.

Enigma Teatro após a sua exibição da sua obra teatral no CIT

Pela sua dimensão, estes eventos constituem um movimento capaz de fomentar a indústria cultural onde os bens culturais se transformam em mercadorias.

Neste contexto, podemos falar também de “tecnologização da cultura”, aplicar a tecnologia na cultura, sendo que por este se tenha disseminado e tentado transformar bens culturais em bens de consumo. Deste modo, a mercantilização da cultura dará lugar à “economia da cultura” que constituirá um suporte à economia do País. Pois, hoje, a nível mundial, os países que optaram na sua economia possuem um “gigantesco mercado” de produção, distribuição de conteúdos culturais, e Angola não pode ficar atrás. É tempo de encontrar formas de alavancar a nossa economia, e a cultura mostrou-nos, nesse ano de 2016, que é possível