Não posso escrever poemas apenas com poesia. Poesia são sonos que vou dormir com o tempo que me resta até ser infinito. É poesia chegar ao fim do copo sem beber uma única palavra. Acrescentar horas à eternidade e entornar à tona da tua boca desejos que sorvo quando não escrevo por ser de esperança o tempo que te basta para ser feliz.

É poesia esta vontade de arrancar os sonhos pela raiz e fotografá-los para que todos saibam que não se brinca com as ilusões dos outros.

O delírio de um louco pode ser uma obra-prima.

São poesia os corpos de água que peço ao céu para te embriagar com chuvas de esquecimento. São poesia os sons que me descem pela garganta abaixo. Estas asas, este voo enevoado. Este caminho que me corre por dentro sem me revelar até onde é infinito o sono que escrevi nos teus lençóis.

São poesia estas enxadas que descascam a paisagem para os olhos comerem. São poesia os tiros de imaginação embrulhados nos vidros repartidos, estes sinais de fumo que usamos para comunicarem beijos à distância. O almoço que fica mais pequeno quando tiro metade para servir de jantar. O lavatório sujo de manhãs por esfregar. Os cigarros que perfumo como se com eles pudesse afiar os teus lábios.

É poesia a mão que me envolve no silêncio dos teus gritos, é poesia o sopro de fazer inspiração boca a boca ao último verso. É poesia a pedra que retiro ao ar para que possas respirar sem solavancos. Para que possas parar em cada frase e fazer respiração palavra a palavra ao poema.

Porque são poesia estes braços que me fazem tanta falta e asfaltam o caminho que vai dar ao teu abraço.

Porque amar é poesia, é sepultar silêncios na tua boca com uma pá de beijos.