A literatura existe há séculos e tem feito parte da história da humanidade por um longo caminho. Por meio da escrita, seu principal veículo de expressão, tem sido – e é – parte significativa do percurso da humanidade. É pela literatura que temos acesso a vários mundos, as mais variadas manifestações do pensamento humano. A literatura é das poucas manifestações humanas que nos proporciona uma visão atemporal do mundo: das suas dinâmicas, dos modos de vida individuais e colectivos, dos grandes e dos piores feitos da humanidade, do belo e de tudo mais que lhe quisermos acrescentar.

Entretanto, há uma componente do sagrado na literatura que lhe confere um fascínio arrebatador. Esta componente é difícil de pôr em palavras exactamente porque o sagrado transporta em si dificuldades de descrição. Olhar para a Literatura como algo sagrado é pensar nos vários caminhos espirituais pelos quais esta nos conduz em muitos momentos da nossa vida. Mas é além de pensar nestes caminhos, olhar também para facto de ser das pouquíssimas manifestações artísticas que, como disse o escritor Miguel Gullander, “nos confere um raio x da alma das pessoas, bem como se apresenta como uma tentativa de alcançar o divino” – não importa as visões e os nomes que este Divino tenha para cada um de nós.

E esse raio x da alma que nos é dado a conhecer por meio da leitura literária tem em si um peso espiritual forte. É sagrado porque é parte do espaço íntimo da outra pessoa, um espaço que de outro modo não teríamos acesso. E quando temos acesso, quando temos a oportunidade de dialogar com o que o outro escreve acontecem dentro de nós mesmos processos de (re) conexão de ideias, pensamentos, sentimentos, visões de mundo e aquelas inúmeras sensações de não estarmos sozinhos – o escritor José E. Agualusa disse “Literatura é construir pontes”. E, não se fica pelas conexões, a literatura traz a catarse, a elevação do espírito e os inúmeros chamamentos para olharmos para dentro e buscarmos o auto-conhecimento.

Ela traz espelhos que se cruzam entre si e reflectem os múltiplos “outros” com que nos deparamos ao longo da vida, sendo que muitos destes “outros” somos nós.

A literatura é, dentre outras coisas, a partilha de coisas sagradas para todos nós enquanto seres humanos – não importa os nomes que damos a estas coisas. É a partilha de partes importes e significativas de nós mesmos, dos outros, das nossas culturas, vivências, dinâmicas, e do belo eterno que nos circunda mesmo quando não conseguimos ver. Se isso não é sagrado, não sei o que é!