A crítica literária, entre outras obrigações, tem o dever de revelar às gerações presentes e às vindouras escritores que, apesar de marcarem positivamente uma época, por razões extraliterárias, quase que são obliterados da memória colectiva. Não que a autora sobre quem nos vamos debruçar agora se inscreva rigidamente nessa lista, porquanto, ainda que timidamente, se-lhe lê em alguns ensaios. Mas é preciso sermos honestos connosco e referir que Ana de Santana, até ao presente momento, é uma escritora de saudade e que sobrevive através da memória dos confrades, dos seus contemporâneos e dos poucos leitores que buscam o passado através de múltiplas leituras. A Comunidade Literária que emerge gradualmente desde 2010 desconhece-a e, por força disso, decidimos reforçar a sua presença através desse artigo.

“A Revelação Da Distopia Em «Sabores, Odores & Sonho»: Ana De Santana Entre A Evasão Lírica E O Labor” pressupõe o reconhecimento de uma certa inocência a roçar a esfera da ignorância e uma mudança de atitude face ao contexto em que a poetisa se encontrava. Tal revelação resultaria num turbilhão de sentimentos que, no âmbito da construção da paisagem lírica, dá espaço para o aparecimento de estruturas que extravasem a sintaxe lírica.

Ana de Santana, pseudónimo de Ana Paula de Jesus Faria de Santana, segundo a Wikipedia, nasceu a 20 de Setembro de 1960 na Gabela, província de Kwanza Sul, mas cresceu em Luanda. Ela é graduada em Economia para Negócios (BA Hon.) Pela Universidade de Westminster e possui um Mestrado em Ciências (MSc Merit) em História Econômica e Economia do Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science (LSE).

Santana, assim como Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, Doriana e seus símiles, faz parte de um núcleo restrito de resistência feminina que ombreou nos anos 80 do século XX contra o domínio e predomínio dos homens dentro da instituição Literatura Angolana, revelando-se com qualidade, astúcia e audácia.

«Sabores, Odores & Sonho» é a única obra de que temos conhecimento, e a sua primeira edição, publicada em 1985, com 25 poemas, um mês antes de ter completado 25 anos de idade, será, portanto, o nosso objecto de análise.

Editada no âmbito do mega projecto da União dos Escritores Angolanos «Lavra&Oficina», que visava, por um lado, a reedição de obras de autores consagrados publicados ou impedidos de publicar no contexto colonial e, por outro, a publicação de jovens marcados com selo de qualidade, «Sabores, Odores & Sonho» é o quinquagésimo terceiro caderno desta colecção ou periódico, geralmente editado por uma das principais referências da historiografia literária angolana − Luandino Vieira.

Estruturalmente, a obra constitui-se de uma tríade formada pelos lexemas que compõem o título:

1- «Sabores» − um conjunto de nove poemas com uma multiplicidade de temas através dos quais o sujeito poético se revela igualmente em diversos estados de afectividade (raiva, decepção, nostalgia etc.). Embarca com «Música Sanguínea», página 11, em que se pode vislumbrar um sujeito bastante decepcionado com o rumo das «coisas». Trata-se de um poema que poderia oferecer várias interpretações. No entanto, atendendo o contexto de criação, Angola,1985, guerra civil, 10 anos de independência e aliado ao facto de ter feito parte da Revista Archote, do Movimento Kiximbula, um Movimento composto por jovens verticais e que, politicamente, acabaram mesmo por se revelar como oposição ao poder instituído pelo governo do MPLA, a leitura que daí pode resultar será indubitavelmente o de desencanto para com a situação, a desmiopia em relação as utopias advindas da Luta de Libertação Nacional e da conquista da independência. Assim, o sintagma «/No cimo do tambor / continuar brincando, queria/mas não/» − sendo «tambor» um objecto de emissão de sons e «cimo», revelando a ideia de «topo» − sugere um momento sombrio da guerra civil ao longo do qual só há espaço para se pensar a própria guerra, e toda utopia autorrevela-se. «Música Sanguínea» refere-se ao enredo da guerra fratricida em que os protagonistas têm a mesma génese.

Seguem-se dois poemas, «Xicala (p.12) e Núpcias (p.13)», nos quais o «mar» constitui-se como espaço estético privilegiado. O mar, um lugar de laser e de reflexão, que se estende ao passado e se liga ao presente.

Restou a boca/ aberta ao mufete/ na porta dos dedos/ e/ a lembrança/para o contar/ das tuas conhas ao vento/ ainda o mar na pele/ .

Penetro/esse colchão de cristal/e/um lençol de mar /me envolve/tecendo o meu vestido raro/espuma e sal/.

Em «Vida de Cão», página 14, um poema aparentemente simples e pouco significativo − no qual um menino ousa beber do leite de um bull-dog, é apanhado e batido por isso −, revela-se-nos os paradoxos da gritante assimetria entre a elite política e o povo, num contexto em que o socialismo predominava. Assim, «Park Avenue», uma bela avenida na cidade de Nova York, localizada em Manhattan, simboliza as imponentes residências habitadas por políticos. Trata-se de um poema composto de trocadilho que convocam a máxima atenção do leitor:

/Algures na Park Avenue / mister Bull-Dog, imponente / e severo, / trincou a nádega do menino/

/ Não era esfomeado, o dog /nem assaltante, o menino/ o Bull apenas se enganara/ ao aflorar o cravo/ que sua ama para ele plantara/ ali no jardim/

/ Onde o menino, impávido / e sereno/ se aliviava da disenteria/ causada pelo leite/ que ao bull-dog roubara, quando decidira / levar a vida de cão/

A grafia das palavras «Bull-Dog» vai oscilando entre iniciais maiúsculas e minúsculas, sendo que, no primeiro caso, com maiúscula, para se referir ao homem imponente e arrogante e, no segundo, com minúscula, ao animal mimado com uma «vida de homem», na perspectiva da autora e das demais pessoas que colocam os animais numa escala inferior, ainda que de estimação.

No poema «Ralhete», página 15, Ana revela as razões das opções temáticas e consequentemente da poética. Trata-se de um poema bastante expressivo, apesar da alguma fragilidade em termos de técnica, um poema em que o sentimento se sobrepõe ao labor, através do qual vislumbra-se um sujeito poético de sexo feminino, em depressão, que grita contra a inocência de uma criança, cujo pai, para além da guerra, também é a razão do seu estado de sofrimento:

não me cobres/ histórias de adormecer/quando o obus/ rebente no quintal/ não me peças luz/se as janelas estão trancadas/

e, sobretudo, não me perguntes / pelo que não disse / pois a minha boca / há muito se fechou à força / do fuzil do homem que em mim te semeou /

Entre outros poemas, não menos significativos, que constituem a primeira parte do poemário, ressalta-se-nos a «Canção para uma mulher». Um poema que no seu tempo procurava romper com as rígidas estruturas sociais e políticas que se erguiam contra a autonomização da mulher na frente política, social, profissional e cultural, cujo dever se restringia nos cuidados da casa e dos filhos e a maior realização profissional era o cultivo de bens em campos agrícolas.

Nunca me falaste / da tua música / estuprada à força do falo/ nem me contaste / das partículas que pacientemente raspaste / ao sol para fecundar a terra. /

Apenas dizes dos braços / à volta do filho /ou do milho a colher/

             2- «Odores» dispõe-se de sete poemas com uma pluralidade de temas dentre os quais a amizade que roça a fronteira do namoro, assim como a superstição com todos os seus mantos temáticos, complementados por uma paisagem lírica que envolve elementos do imaginário angolano, valorizando assim a cultura nacional, e inscrevendo-se na linha dos poetas da «Mensagem». Em «Aos homens da Noite», página 26, Santana converte essa presença mística e noctâmbula que, segundo crenças, habita o sonho feminino e estupra a mulher de espírito fraco, em figuras mitológicas

/Queria dizer-vos/ do melhor retrato que colhi/ do vosso mais querido fantasma/

Vale-me a sensatez da música/ dizendo o ritmo de semba/

Muito mais do que ser lida, em termos metonímicos, Ana de Santana precisa ser decifrada, pois, uma estratégia esboçada por si pode ser compreendida como sinónimo de fragilidade. Tal ocorre principalmente no texto com o título «Castelo de areia», página 23, em que ressalta a memória de um amor e amizade infantil, que é descrito numa linguagem igualmente de petiz em que, indecisa, o sujeito poético procura restabelecer um amor por via da amizade:

/ Desculpa amigo/ é que eu gosto sempre/ de voltar/ não precisa sequer/ de gostar/ acabo sempre por voltar/

/ Vamos ser amigos? / brincar fazendo castelo/ de areia e / sem dar conta/ nele acabar por viver/

  • «Sonho», a última parte desta trilogia poética, compõe-se de nove poemas, nos quais a utopia é combatida e «sonho» e «tempo» são vocábulos com forte presença, revelando, assim, a tendência de antiutopia, o desvanecimento da miopia e o olhar crítico de alguém com visão clínica sobre a matéria em questão.

O sonho solta-se/ ao toque fantasma/ da campainha/ persegue um rodar imaginário/ chaves/ falta de ar sob a coberta/ (p.41)

O caos se instala em cada célula/ ameaça desmoronar o castelo/ sonhado real na língua do mar/(p. 42)

No entanto, a utopia é algo que se pode renovar através de múltiplos processos de instrumentalização perpetrados por Senhores da ideologia vigente ou por via de equívocos psíquicos advindos da caducidade do ser no tempo:

Sob um certo entrar silencioso / um apressado despir para a sombra/ o sonho renasce/ um hálito na penumbra do dia/ (p. 41)

 A esperança / é depositada apenas /na alma /se a alma existir /pode-se esperar/ (p. 39)

Capa do livro Sabores, odores & Sonho, de Ana de Santana

«SABORES, ODORES & SONHO» é um livro que não pode ser apagado da historiografia da Literatura Angolana por vários motivos. Trata-se de um livro bem-conseguido, apesar de acharmos que, tecnicamente, pudesse ser menos prosaico em alguns poemas e que se pudesse controlar melhor a evasão lírica. Outrossim, julgamos que o seu conteúdo explica filosoficamente os equívocos de um tempo e narra uma história complexa, com a subtileza de revelar biografias que já mais nos chegariam.