O dia despertou sob o céu bravo, acinzentado. Sobre o tecto de zinco do meu “um quarto” resta a ressaca dàgua da chuva torrencial que se abateu durante a noite e castigou os gatos vadios que não tinham por onde se esconder. E miaram a madrugada. Ainda meio inconsciente, enquanto me espraiava no sono das cinco horas, senti, no meu ouvido, os resmungos da mangueira frondosa do meu quintal, parindo de si uivos ensurdecedores provocados pelos xinguilamentos dos ventos vindos da Ilha do Cabo. A força do vento era tal que arrancava as verdes mangas e arremessava-as sobre as chapas do meu mbjanji. Novembro é sempre assim, as chuvas e as mangas se dão o puro kibeto sobre as chapas do meu cubículo, à toa.

Ao sair do quintal com a minha mata-cobra nos pés, junto ao portão de casa, deparei-me com a Setinha (filha bocuda do proprietário da casa), afagando o cabelo crespo de Maria Benguela, cliente assídua do salão de beleza.

Diferente dos outros dias, Benguela não me recebeu sorrindo com os seus dentes de leite que se agitam sobre os lábios purpúreos. O triste cenário mostrava uma Benguela desolada, preocupada em anestesiar as dores dàlma.

Por alguns instantes detive-me diante delas, a fim de saber o que se passava ao certo. A voz de Maria parecia tremeluzente e se perdia entre silêncios e choros.

Benguela, a boazuda da minha rua de poucas casas, vive no anexo que dá de cara com o meu portão cansado e multicolor. É uma mulata de bons modos, olhos castanhos-claros, de peitos fartos e uma silhueta de fazer inveja, que, vinda do Lobito, acabou por viver com um namorado do mesmo sexo.

Vive uma relação amorosa paradoxal. Seu namorado chama-se Dalva, mulher que se assume como lésbica mesmo depois de já ter dois discos (filhos) no mercado. Apesar das fofocas do tio Zé, malanjino da Catepa, Benguela e Dalva sempre nos pareceram um par feliz. Porém, o rosto de Benguela banhado de lágrimas e ranho atiçou a minha curiosidade e procurei saber sobre o sucedido.

Setinha, no seu modo atabalhoado de falar, visivelmente alterada e a gaguejar, começou por reproduzir o que Benguela a disse, afirmando que Dalva, sem uma justificação lógica, rompeu a relação e enxotou Maria da casa arrendada por ambas. Dalva não mais queria Benguela em virtude de uma nova relação com um mwata do Executivo.

Dizem que Dalva, a lésbica, foi abordada por um secretário de estado de um dos ministério mais falado da Mwangolé. O tal nguvulo é uma pessoa notável e detentora de grandes méritos, tanto no país como na diáspora. Já foi considerado uma das cem mentes mais brilhantes da África do século XXI.

Dalva, era simplesmente cozinheira e responsável do bar de um dos cines mais falado do Zengá (Cazenga). Cine este, público, que, sem um concurso público e com a anuência do administrador do município, foi privatizado e faz parte de um dos conglomerados económicos deste boss que goza grande influência dentro do Comité Central do Partido.

Passados alguns minutos, Benguela, já mais calma, começou por dizer que o seu namorado (Dalva) encontra-se convicto de sua decisão e que não mais quer levar uma vida que, segundo a Bíblia, é pecado. Facto é que Dalva, apesar de se assumir como homem, nunca deixou de ser uma mulher deslumbrante. Sempre foi uma jovem afável, de trato fácil e fluente na fala. Elementos estes que, combinados com a sua beleza física, deixaram o tal nguvulo boelo. O kota boss, na sua forma rude e mal-criada que o poder lhe confere, ao abordar a linda cozinheira, limitou-se em dizer que tinha necessidades de a possuir. Dalva fez-se de despercebida e tratou de afastar-lhe chamando-o por Dr. Secretário de Estado!

Passados alguns dias, Dalva já era Presidente do Conselho de Administração da empresa que gere o afamado cine do Zengá. A cozinheira, em menos de um mês de namoro com o nguvulo do Partido, já ostentava um poçante Lexus 570 e tinha um lindo apartamento a à disposição, diferente da casa onde nasceu e cresceu no Tungangó.

Na pequena rua onde moro existem outros personagens com estórias não menos dignas de um romance à Luandino Vieira vivido num musseque de lata qualquer. Bem na esquina junto ao terreno baldio que dá acesso à minha estrada, todas as manhãs, dou por mim a contemplar o vigor de Mafuta, zairense de bunda tipo embondeiro que se diz nascer no Golungo Alto. Na nossa rua correm alguns mujimbos de que o excesso de nádegas dela é fruto de muita administração de caldo Maggi no ânus.  Mas, verdade seja dita, Mafuta, mesmo com a pele exposta ao sol e a poeira do asfalto, não deixava de atrair clientes e vendia seus micates com quitabá num lingala aportuguesado. E enquanto batia um prosa com ela, fomos interpelado pelo fofoqueiro senhor Zé da Catepa. Apressei-me em sair dali. Tirei voado rumo ao trabalho.

Depois de muito andar, já na ex-rotunda da Camama para quem sobe ao Calemba 2, junto ao banco BAI, deparei-me com um amontuado de “azul e branco” a soluçar nos charcos de águas repletas de areia de bungo. O cenário era vergonhoso, mostrava a Angola da reportagem da SIC. Agentes de trânsito indiferentes ao engarrafamento a pedirem a famosa gasosa, calor infernal, música alta e “ofenças do fundo” a mistura. Coitadas das nossas mães, pagavam sempre pelos erros dos filhos.

O caos instalado era o reflexo da nossa Administração Pública! E em meio a tanta confusão, lembrei-me da Mafuta e outros protagonistas da rua onde moro, e por alguns instantes senti sobre a minha alma os afagos de uma paz sublime!