Naquela tarde de um pôr de sol de emprestar beleza a qualquer pele (dia 09/08/19), passámos, eu e alguém a quem prefiro chamar Tchissola (do umbundu que significa simpatia, querida…), à frente da União dos Escritores Angolanos – UEA e, como um pescador desprovido de forças para resistir ao (en)canto e ao chamamento da enigmática mulher com pernas feitas barbatanas, decidimos entrar, fazendo da curta paragem num bilhete de passagem para uma viajem à minha origem, ao meu fascínio e cada vez mais ao meu propósito: cultura africana.

Às portas da entrada principal das instalações da primeira associação de cariz cultural criada depois da Dipanda, ouvi uma “ndaka” (do umbundu que significa voz) que, embora acompanhada por poucos instrumentos musicais, absorvia minha atenção enquanto via as moças do protocolo extravasando beleza de dar dor de cotovelo às demais mulheres ali presentes. Para além dos sorrisos de ofuscar o luzir dos holofotes, tinham o rosto pintado de acordo a matriz africana, matriz extensiva às roupas que vestiam e aos adornos, nomeadamente os brincos, os colares, os lenços e as pulseiras.
Eu estava expressivamente maravilhado com as moças que julgo ter provocado um “poças!” no pensamento da moça com quem eu estava acompanhado. Ao aperceber-me disso, senti um desconforto brusco e felizmente banido no instante em que notei. Já dentro da sala onde já decorria a actividade para qual aquelas belas donzelas faziam protocolo, apercebi-me de que a voz que eu ouvira era de Ndaka Yo Wini (cantor singular cujas canções são de atulhar corações de emoções) e que se tratava do lançamento de um livro, cujas inúmeras cópias estavam esteticamente expostas sobre duas mesas cobertas com toalhas.

Especificamente, tratava-se do lançamento do livro com título “Dicionário De Verbos Conjugados Em Umbundu & Português Três Tempos Num Só Modo” da autoria de Cesaltina Kulanda, um evento onde o vento soprou para o passado, presente e futuro das línguas nacionais, precisamente na questão da sua (des)valorização tanto por parte do governo como do povo. Realçou-se no mesmo evento haver uma sede ardente, atrelada a um esforço em satisfazê-la, no seio da comunidade estrangeira cá residente em aprender e ensinar as línguas faladas no país de Leila Lopes.

Com sala ocupada acima do limite por gente vinda de várias latitudes da cidade de Luanda e não só, o certame foi essencialmente preenchido com intervenções que trouxeram a terreiro o perigo, cada vez mais evidente, da extinção das línguas nacionais, tidas como elemento primordial da identidade cultural de qualquer povo, numa altura em que, volvidos quatro décadas depois da Independência Nacional, a desculpa do colonizador e do seu tipo de colonização já não colhe. E foi nesta senda que Cesaltina Kulanda, que também é jornalista, recomendou à população e, principalmente, ao governo a incrementar esforços e redefinir políticas com vista a evitar a extinção das línguas nacionais.

Entretanto, tal como é da praxe, o evento também contou com discursos, alguns de afogar os olhos com lágrimas de alegria, sobre a vida da autora que convergiram no seu engrandecimento. Precisamente, por ser das pouquíssimas pessoas do género feminino, quiçá a única, que não obstante aos compromissos profissionais, as dificuldades de diversa natureza e obrigações com a família, conseguiu lançar uma obra de tamanha e inquestionável importância para a cultura angolana, dando continuidade a um percurso iniciado por Cordeiro da Matta em 1893 com a publicação do Dicionário Kimbundu Português, tido como o primeiro dicionário na disciplina das línguas nacionais.

Sob o olhar estático dos olhos secos do autor dos olhos secos, a actividade congregou entidades de diversas idades, sensibilidades que foram incapazes de fazer finca pé à galvanização digna de condecoração de quem, maleável e brilhantemente, o moderou. Uma linda mulher cujo nome ainda me é incógnito que, além da moderação bilingue ( Português e Umbundu), deu a conhecer e a cantar canções populares do grupo etno-linguístico Ovimbundu, fazendo com que todos os presentes, cada um a seu tempo e do seu modo, participassem activamente da actividade.

Portanto, o lançamento do “Dicionário De Verbos Conjugados Em Umbundu & Português Três Tempos Num Só Modo” da autoria de Cesaltina Kulanda mostrou-me a elegância e a inteligência da mulher africana por ter sido um evento onde as “garotas” bonitas, permitem-me o termo, tiveram um papel palpavelmente essencial, não obstante a plateia ter sido constituída, quase totalmente, por homens. Que este facto sirva de exemplo para todas as mulheres que ainda se vêem inferior ao seu gênero oposto e que erram crendo que deste depende a sua emancipação. Uma vénia e um abraço a todas as percursoras do legado de Rainha Nzinga Mbande (Cesaltina Kulanda é uma delas) com a mais elevada consideração!

Ndapandula!