Amiúde, pessoas doutas e indoutas vociferam que o “game está violento”. Na verdade, não enxergava com realismo o teor deste peso pesado, até que, numa tarde calma e agitada, o rei Sol rasgava com prazeres excitantes as doces nuvens dos céus. Os seus raios acariciando com ardência o meu corpo, querendo levá-lo mesmo a ficar molhado, eu estudava com o meu amigo e homólogo e uma colega da fau na boca de um azafamado residencial.

A certo momento, um bando de playboys invadiu aquele que julgava ser o meu ameno, acolhedor e aconchegante habitat e começaram a violar violentamente o game.

Vivenciei actos que eu julgava serem incomensuráveis. Fiquei mesmo com vergonha da minha ingenuidade e rigorosidade durante aqueles longos nove meses de intransmissão cultural, e via-se que eles já sabiam tudo. Todavia, lembrei-me do provérbio (agora invertido por mim) quem colhe tempestade, semeia vento.

Enxerguei os frutos dos meus árduos labores e noites de planificação para melhor transmitir a nossa pobre cultura àquelas mentes geniais. Com muita garra, fi-lo com amor e prazer.

Eles foram aparecendo aos poucos e, timidamente, meninas e meninos, naqueles “tchuna babies” que, num ápice, invadiram aquele espaço romantizado. Qual palancas estropiadas pelos nossos irmãos bakongos (sem quiser discriminar), exibiam aqueles corpos em construção arquitectónica, aquelas capelas sobressaídas daquelas tangas e fatos de banho, que me fizeram lembrar um dos versos da Kizomba da banda “esse teu bar”, cujo autor não me lembro, porque aí havia bares como os do antigamente; com todos os molhos como afirmariam os mais gulosos.

Na realidade, estava diante de uma Baixa de Cassange, pois o meu ente vivenciava uma revolta interior, prazerosa, mas repulsante.

Aquilo, eu aguentei e aguentava durante um século. Depois, começou a chover as Tigras, que eles bebiam com uma garra de se admirar. Até que surgiu mesmo um convite para a minha mesa:

– Prof., não vai umas?

E eu, querendo conservar a minha mente sã, agradeci e respondi:

– Não, obrigado. Estamos a beber sumo.

E lá choviam as nevadas Tigras para os tigres e as tigresas que as entornavam racionalmente.

Mais tarde, apareceram mais quatro e completaram o pódio. Para a minha surpresa, uma dama, uma das mais exibicionistas e apelativas, chamou um dos quatro elementos que retirou do bolso um maço de AC, e o ar começou a ficar quente ao invés de frio. A menina sacou da bolsa os fósforos e deu uma chupada num à vontade de arrepiar o corpo, parecia uma actividade inata ou ela era craque em partir o maço.

Enquanto cigarravam, algumas se escondiam de nós e outros faziam-no a bel-prazer, os meus companheiros e eu ficamos abismado com a tamanha perícia deles. Coitada da tia, que é mãe e professora, e que estava alheia àquelas realidades, inquiriu:

– Agora os jovens divertem-se assim?

Jovens em descontação após a 1ª edição do Abrace o meu abraço [1° Edição Data: 2 de Julho de 2016 Fotografia: Teu Caqui Picasso ]

O meu bom amigo, na sua candura e brandura, respondeu-lhe.

-Tia, não estranhes só, este comportamento é genérico em quase todos os nossos colégios e devemos nos consciencializar que talvez os nossos filhos também sejam praticantes destes actos atrás de nós.

Isto alarmou ainda mais a inocência da minha cara tia e colega, pois tinha os filhos naquela idade e estudando num dos colégios mais renomados da nossa cidade, no centro de Babel. Perguntou-me:

– Mas de que classe eles são? São aplicados?

– Eh! Tia, deixa só. Na realidade, apenas duas pessoas neste grupo são aproveitáveis.

– Olha para este! Parece ser o que mais bebe e daqui a pouco estará logo a cair ­– apontava ela.

Para a nossa surpresa, o mesmo apareceu com uma torre de cerveja. A torneira jorrava que jorrava o líquido d’ouro nas suas bocas sedentas.

Rindo tristemente daquele panorama histórico angolano, exclamei:

– Que grande actividade extra-escolar! No nosso tempo, não nos divertíamos, esses, sim, sabem se divertir.

E lá chovia a cerveja com 5% de álcool e 100% pura num ambiente puramente impuro, em cima de uma tarraxinha bem rachada por dois jovens quase nus, acompanhada com o mergulho despreocupado de outros, afinal era a celebração de uma prova final, e eles iriam de férias. Entretanto, alguns ainda precisavam de ser recuperados pelos professores através de uma prova fictícia, se não ficaríamos sem alunos e, nas instituições privadas, o game também violentou por causa da crise que, quando um aluno bazava, levava também pão de buede profes, como dizem, “cliente sempre tem razão”.

Portanto (não portanto para a conclusão da minha odisseia, mas das nossas actividades investigativas), decidimos abandonar aquele recinto desenfreado, muito ressentidos, apesar de saber que havia alguém os controlando.

Entretanto, na sexta-feira, fui terminar uns pendentes na escola e, para minha surpresa, lá estava uma boa parte deles saindo de uma prova (?) de recuperação, não sei se da ressaca ou da nota já adulterada.

Caí de beiços ao ver a tacanha ousadia daqueles seres de outra galáxia e nem os questionei pela prova, nem eles se prontificaram em esclarecer o dia de ontem.

Fiz o meu trabalho, corrigi algumas provas, reflectindo na questão latina, adaptada: “cuo vades ensino?”

O que me recordou o postulado do meu homólogo supracitado de que se não somos uns revoltados graças as nossas birras e as ngungas surgidas loucamente por aí, pois elas são verdadeiros ATLs para muitos dos nossos futuros do amanhã. Por conseguinte, fui forçado a compreender, mas não o aceito, o “modus operandis” de desrecalcamento derivado