Na altura, já os relógios nos alarmavam quando o assunto fosse o xadrez. O desporto ciência que tem um valor muito importante no QI – Quociente de Inteligência. A matemática, no envolvimento do jogo, foi sempre algo indispensável para quem, realmente, quisesse ser um destacado jogador.

Hoje, percebo-me, triste, quando ouço alguém dizer que os jovens fogem, no ensino médio e superior, os cursos que exigem cálculos. Então, a ministra não sabe que toda a matéria só entra para a parte encefálica quando se tem um bom estímulo?! Ham, não! Então saiba que, até mesmo pela música, a matemática entra suave, sem o menino perceber que, ao aprender que uma escala de instrumentos de cordas é composta por dois tons, um meio-tom, três tons e um meio-tom ou, ainda, que ao aprender os acidentes das notas, no fundo, está a ensaiar o subconsciente de que calcular não é um bicho de mil cabeças.

Antes da dipanda, a arte de jogar xadrez era pouco concorrida nos vícios avulsos dos “mwangope”. O colono teimava incutir na mente dos indígenas que se divertir não era pelos caminhos das tábuas de duas cores aos quadradinhos. Dos assimilados, nada digo. Estou sem pachorra. Vá ler histórias quem queira saber sobre.

Terminado o regime colonial, em Angola, surgiam os primeiros núcleos de Xadrez. Nas unidades militares, era obrigatório saber-se o jogo nos momentos de se porem a descansar as armas. Não temo em calcular que, nas frentes do inimigo-irmão, também se praticava o desporto ciência, pela habilidade que dispunham em fazer guerra. Por aqui, nos quartéis, era mesmo tradição reunirem-se os melhores e partirem-se os cornos naquelas tabelas. E o prémio? Só era a alegria.

Em benefício do hábito, em 1976 surgia o desporto nas unidades fabris, escolas e na maior parte dos quartéis, senão todos. Quatro anos depois, em 1980, o capitão Mário Silas, um oficial das FAPLA, vencia o primeiro campeonato disputado no país. O Jornal de Angola, no seu design gráfico não muito distante do actual, nunca se esquecia de trazer na sua manchete a gravura com a posição das peças a serem varridas por quem estivesse melhor na partida de qual quer que fosse um dos três torneios a serem disputados: Grande Prémio Cidade de Luanda, Grande Prémio Nocal e o Grande Rainha dos Persistentes.

.Por quase todo o lado, existiam núcleos, como se deu ao caso dos famosos do Instituto Politécnico, Makarenko, e o núcleo da Construção. Os cooperantes dos países socialistas também ganhavam destaque ao virem formar os nossos atletas profissionais. Professores búlgaros e indivíduos pertencentes às missões cubanas e soviéticas em Angola faziam parte da lista.

Na altura, a Federação tinha tudo que tivesse que ver com a vontade de nos prestar um bom trabalho. Mas dinheiro, esta não dispunha. Ainda assim, as provas nacionais e internacionais surgiam. Não quero dar-me a afoiteza de calcular as dificuldades que esta não faltava de atravessar ao realizar, e bem, aquelas partidas que hoje, em pleno século XXI, os responsáveis das Federações que foram surgindo não conseguiram manter e alargar a ciência de se amar a matemática pelos cálculos da sábia modalidade nas novas escolas, creches, unidades militares e, principalmente, nas unidades prisionais – estas que andam cheias de jovens com penas vencidas há anos e sem nada para fazerem dentro dos castelos onde todo homem tem menos direitos que um cão morto.

Nas palavras que hoje se consubstanciam as teses VS os fazeres da actual Federação, a expansão dos jogos está condicionada por falta de materiais que condicionam os cerca de 8 mil praticantes em todo o país. Uma vez que sempre dependemos da vizinha África do Sul para os conseguirmos, pois, na boca que mandávamos «bué» de termos tido como um grande crescimento económico, nos esquecemos de construir até mesmo molde para fabricação de peças de xadrez ou, sequer, fábricas de relógios de competição.

Falar sobre este assunto que devia abranger a dois ministérios – dos Desportos e da Educação – e narrar os factos dentro dos carris é algo que levará alguns a perguntarem quantos anos devo ter. Próprio para nós que nos habituamos a dar importância às coisas pelos títulos, idades ou diplomas de quem as exibe, como se conta naquela dos alunos que deram ao professor a ler um poema. Riscando com um «xis» vermelho, advertiu-os que viessem a ser mais criativos, pois criar um poema é uma arte muito séria. Pelo que ouvindo ter sido escrito pela doutora que coordenava o curso de literatura, o professor pediu de volta o papel, leu – não releu – por completo e disse: “a doutora sabe muito bem o que queria transmitir com estes sentimentos muito fortes. Ademais, ela sabe bem o que faz.”

Mergulhando no assunto que nos trouxe por aqui o texto, é importante que se realce a realidade segundo a qual o xadrez nos era já algo cultural o qual não se aborda com profundidade nos “prolongamentos da banda”.