Uma escritora, rebaptizada no evento como ousada e corajosa, levou familiares, amigos e um público considerável, ao Hotel Skyna, na sexta-feira dia 12 de Agosto de 2016, para apresentar o seu livro de estreia. Bereznick Rafael fez brotar a sua primeira obra literária, intitulada “A Wilala” num ambiente de celebração com uma sala completamente cheia.

Entre a combinação das cordas vocais e os acordes da guitarra do grupo musical “Sutak” viu-se aberta a festa de apresentação do livro. Quatro Jovens com vozes estonteantes deslumbraram os ouvidos dos presentes com interpretações acústicas que foram de Boyz II Men à Filipe Mukenga.

Em passos despercebidos, pela maioria, entre as sombras de meia dúzia de fotógrafos ávidos pelo melhor ângulo para captar a melhor fotografia, surgiu de rompante na frente de todos aquela que seria então a Mestre de Cerimónia do evento, Adelina Rosa, que com a sua voz áspera e cativante, uma animação exímia de um apresentador nato de eventos, roubou várias vezes a cena impedindo às muitas brancas que ocorreriam no evento, ou evitando os prolongamentos das que ocorreram devido à contratempos técnicos e que roubaram algum brio ao evento do começo ao final.

Uma rapariga enérgica e cheia de sorrisos foi chamada a tomar o pódio e deslumbrar os presentes com duas declamações, sendo uma com o tema inspirado no livro e a outra, sugerido pela plateia. Isvânia Agostinho tomou o microfone e com um jeito simples e doce fez a sua declamação, levando todos à uma viagem de poucos instantes. Na escolha do público, pela indecisão ao tema, ela escolheu juntar os três propostos: Desgraça, Saudade e Futuro. E como uma declamadora nata, desenrolou um improviso digno dos aplausos que receberia a seguir.

A pedido da mestre de cerimónia, foi composta a mesa do Presídio cujas prelecções seguiriam. Três nomes foram citados: Luefe Khayari, O Apresentador do Livro, Rosa Soares e Victor Hugo Mendes, os Críticos. Os dois primeiros levantaram-se e tomaram o seu lugar, sendo que o terceiro, por algum motivo não se fazia presente ainda na sala do evento.

Adelina, usando da sua mestria e do poder que lhe conferia como condutora da cerimónia, chamou a atenção do público para acompanhar a canção “Se me amasses” de Celânia Queiroz acompanhada na guitarra por Teodoro Sawendo. O público reflectiu com o soar das palmas o deslumbre vocal recebido pelos seus ouvidos.

A Apresentadora aproveitando o tema da canção, e enquanto geria o tempo para ver chegar o terceiro membro da mesa do presídio, ainda ausente da sala, desenrolou um improviso poético para deleite dos presentes e esbanjando um sujeito-lírico tão rico que deixou boquiaberto quem não conhecia esse lado  seu.

Com uma cadeira vazia na mesa do presídio, deu-se início as prelecções, detendo a palavra quem haveria de procurar convencer aos presentes, de que a história do livro valia a pena ser conhecida pelo tema que

apresentava.

Luefe Khayari tomou a palavra levando aos presentes a razão de estarem naquele evento: “para viajarem pelos caminhos da arte da escrita”. Começou falando do percurso da autora como escritora de temas que buscam a reflexão, nos blogues “Desabafos Absurdos” e “Jovem Mulher”. Logo depois, falando já sobre o livro, afirmou que o mesmo daria o que falar, quer seja pelo tema que representa ou pela forma como a autora o escreveu.

Convicto da sua missão, o prelector fez por convencer ao público de que “A Wilala” transporta uma história que vale a pena ser conhecida e que é um livro que virá a suscitar diversas e distintas opiniões quer seja no seio literário ou na sociedade em geral devido ao tema central: o abuso sexual de menores;

Levou o público à uma reflexão sobre a onomástica presente no livro aonde destacou as motivações da atribuição de nomes na nossa cultura fazendo assim referência ao nome próprio da personagem central do livro e da sua designação que veio a estampar à capa.

Usando de algumas palavras do prefácio do livro, sem esquecer de citar, Oliveira Prazeres, quem o lavrou, Luefe sublinhou que o tema do livro é um “Grito de Socorro que muitas vezes não é percebido pela sociedade”, é um grito que precisa ser ouvido, pois apesar de falar-se muito e cada vez mais sobre a violência sexual ainda é insuficiente  o que se fala sobre os efeitos sociais e psicológicos das vítimas; a chantagem que elas vivem, o encobrimento dos familiares para preservação da imagem ou do lar ou ainda a continuidade da condição financeira.

A meio da apresentação, Luefe Khayari pediu aos presentes para que ao saírem daquele recinto levassem uma reflexão: Como pode uma vítima de abuso sexual deixar de ser atormentada pelos efeitos da violência que viveu?

Bem próximo do final, fez lembrar aos leitores de que “A Wilala” é uma obra de ficção e como tal é uma espécie de quebra-cabeça que deve mostrar uma imagem completa no final da história. Sendo que tal imagem pode ser o grito do socorro referido no prefácio ou – dependendo de como o livro foi escrito, de como a história foi abordada, de como foram expressas as técnicas de escrita e de como foi feito o desenvolvimento do enredo – a cimentação da Bereznick Rafael como uma escritora promissora no panorama literário nacional.

Findada a apresentação, chegava a vez dos críticos convidados, Rosa Soares e Victor Hugo Mendes, tomarem a palavra. Sendo que esse último ainda não se fazia presente, a autora de “Metamorfose” tomou a palavra para apresentar as suas impressões sobre a obra e começou dizendo, tal como o apresentador que o antecedeu – Luefe Khayari –, que a escrita da obra assim como o seu lançamento, era um acto de bravura pois a Autora soube colocar os seus pensamentos e as suas impressões num livro.

Rosa soares continuou dizendo que a escritora, através da história de Lueji Tchifole, abordou temas como abuso sexual, falta de amor, superstições e o papel da mulher na sociedade. E o fez usando de uma linguagem simples e directa abusando da criatividade, pois como sublinhou: “a nossa autora criou uma cidade fictícia e todos os nomes utilizados no livro estão em Língua Nacional que é um facto muito interessante, muito interessante mesmo”

Tal como o seu antecessor com quem compartilhava a mesa do presídio, a crítica convidada falou também da forma como os nomes são dados em muitas regiões. “Nós africanos temos como costume dar nomes às crianças de acordo às circunstâncias do seu  nascimento, sejam elas positivas ou negativas, e isto para o personagem do livro constituiu a sua bênção e a sua desgraça”, afirmou.

Sobre o tema abordado no livro, Rosa Soares referiu que é notável a denúncia da sexualização da mulher e do patriarcalismo que existe na nossa sociedade, onde, na maior parte das vezes, há supremacia masculina nas relações sociais. Falou também sobre a culpabilização das vítimas nos casos de violação, como é referido algures no livro.

De forma mais abrangente afirmou categoricamente que as vítimas de abuso sexual não são capazes de denunciar, e ressaltou a importância social da obra, que é uma denúncia, é um grito sobre casos de violações que tem acontecido com frequência na nossa sociedade. Revelou ainda, quão assustador é saber que, de acordo a ONU, cerca de 70% das mulheres já sofreram algum tipo de violência sexual e que uma em cada cinco mulheres irá sofrer.

A fechar a sua prelecção, a crítica Rosa Soares solicitou: “Que a obra – A Wilala –seja um grito por todas as mulheres e famílias que, por alguma razão, se calam perante tais actos e que seja também uma chamada de atenção para nós, para o nosso papel social perante tais actos”.

A Mestre de Cerimónia tomou a palavra uma vez mais e dessa vez convidando a autora a juntar-se a mesa do presídio, sendo a mesma recebida pelos presentes com uma estrondosa salva de palmas, pois como bem afirmou a Adelina Rosa, era ela “a razão de termos deixado às nossas casas”.

Seguindo com o programa, Lucrécia da Silva foi chamada a deslumbrar a sua voz pelos meandros dos livros. A leitora convidada, enveredou pelo “A Wilala” desbravando um dos momentos mais tensos da trama. Adentrada ao livro, acompanhada num silêncio magistral pelo público, a leitora depois de despida do nervosismo por que esteve domada inicialmente encarna Lueji Tchifole e transmite com a sua voz fina, mas bem audível a dor por que passa a personagem ao longo da história. Após três excertos lidos, fechou o momento convidando a quem quisesse saber mais sobre o livro comprá-lo!

Notando finalmente a presença do segundo crítico convidado, Victor Hugo Mendes, a mestre de cerimónia
convidou-o a juntar-se ao presídio, onde alguns minutos depois proferiu algumas palavras de encorajamento a autora e garantindo que estávamos presente a alguém de coragem, conforme referido, mais de uma vez, pelos que lhe antecederam, mais que isso, falou da qualidade da obra embora tenha assumido que ainda não tinha lido o livro. Uma vez mais, deixou o seu claro incentivo à juventude, para que se esforcem pelo que acreditem que só com dedicação e disciplina poderão alcançar os seus objectivos.

Antes de tecer algumas palavras à plateia, a escritora recebeu dois jovens vencedores de um concurso realizado semanas antes do lançamento e, entre aplausos entregou os prémios que incluíam, obviamente, o livro. O Poema vencedor, foi declamado com muitas trepidações revelando a par das incontáveis falhas técnicas de som e dos microfones os piores momentos do evento.

Seguiram-se os agradecimentos na voz da autora do livro, que começou por agradecer a Deus, pela força e o talento de traduzir os seus pensamentos e palavras e por ter-lhe dado a coragem de escrever o livro. Com afinco e revelando grande emoção, agradeceu individualmente ao Víctor Hugo Mendes e à Rosa Soares por terem aceitado o convite, não esquecendo-se de estender o convite à algumas personalidade que se fizeram presentes no evento, como Ras Nguiba Ngola, e Jacinto Malungo.

Após isso, agradeceu aos pais que fizeram uma caminhada longa – do Sumbe à Luanda – para poderem estar ali, aos amigos que sempre a apoiaram, aos colegas do MIT, na Rússia, às irmãs, aos cantores e a poetisa e ao público em geral. Tendo findado os agradecimentos sem mencionar o Prefaciador do Livro, Oliveira Prazeres, o Apresentador do Livro, Luefe Khayari, a Leitora do livro no evento, Lucrécia da Silva e a pessoa que conduziu o evento desde o auxílio no protocolo à apresentação dos participantes, a Mestre de Cerimónia, Adelina Rosa.

Ao som da guitarra de Teodoro Sawendo, deslizando na melodia Celânia Queiroz com a sua doce voz, foi aberta a sessão de autógrafos e o Coffee Break com o primor que a celebração merecia.