Ao longo da história da humanidade, é recorrente a postura revolucionária que a arte e a cultura, em geral, emplacaram. Muitas vezes, como alicerces dos valores que, como faróis, nortearam os caminhos dos homens; outras vezes, como autênticos furacões que demoliram valores inertes cristalizados por civilizações apaixonadas pelo seu próprio reflexo nas águas. Aparentemente, não há um denominador comum entre essa polaridade: construção e demolição. Mas, limpando a lupa, e olhando com maior objectividade, nota-se que, quase sempre, há um elemento que faz o papel de terra arável para que o progresso, a nível de valores, possa se efetivar: a crise.

Seja na construção ou na demolição, a crise sempre é um elemento preponderante na hora da renovação ou edificação de valores para uma sociedade. Manifestando-se das mais variadas formas, ora pela natureza política ora por natureza sociais ou económica, a crise nos oferece a dádiva da saturação. Quando não se tem caminhos para onde seguir, é a altura ideal para se inventar caminhos.

É nesse contexto, que as artes, no geral, e, particularmente, as artes plásticas, contra todas as previsões, apresentaram caminhos para um novo “pensar Angola”. No decorrer do ano passado, houve exposições como não se via há algum tempo. Porém, além do factor quantidade, é de salientar o factor qualidade. Exposições como a de Grácia Ferreira que teve como título “Nguimbi” e de Guizef que teve como título “Minha Gente” parecem ser ponteiros que direcionam para uma preocupação por parte dos artistas de vasculhar a alma da nossa gente e, a partir dela, extrair valores genuínos que possam iluminar a sociedade.

Sob ponto vista material, não é extraordinária a preocupação e o retrato da nossa gente na arte plástica angolana. Sempre houve e haverá artistas com essa direcção. Mas, se analisarmos sob ponto de vista psicológico e, dado o contexto económico que o país atravessa, essa preocupação beira à poesia. Afinal, é na alma dos que têm as esperanças desmaiadas, nas almas das expectativas dilaceradas, dos sonhos comprometidos que os artistas misturam as cores e tentam extrair o belo, coisa que lembra muito a fénix que renasce das cinzas.

E como resultado da dinâmica cultural empreendida pela paixão dos artistas, todo um mercado acabou por emergir. Galerias abriram, outras ressuscitaram e, a este nível, deve-se destacar o trabalho como o do Espaço Luanda Arte, onde a Palavra e a Arte tiveram a explorar com exclusividade. O espaço oferece residência aos seus artistas, na finalidade de proporcionar um clima propício para as criações. Prova inequívoca de que há quem olhe para as artes como ferramenta importante para a travessia deste período. E uma travessia que, ao olharmos para trás, nos leve a ver que nos tornamos mais fortes a todos os níveis: culturais, sociais, económicos e, até, políticos.

E é nessa conjuntura que surge  a Palavra&Arte como instrumento para servir de ponte entre o trabalho dos artistas e apreciação do público; resultado de uma crença, partilhada entre os jovens que trabalham na revista, de que as artes são da cor da fénix e, portanto, o suporte a ela é um dever revolucionário sob as costas da juventude.

A perspectiva do Palavra&Arte

A revista tem uma abordagem heterogénea que advém da singularidade dos seus integrantes. Mas, apesar da diversidade, o objetivo é comum: servir à cultura Angolana.

Diminuindo o foco da revista inteira para a rubrica de artes plásticas e, mais especificamente, aos conteúdos que assino, espera-se sempre uma leitura introspectiva a respeito da dinâmica cultural nacional, como se de um esfigmomanómetro se tratasse.

O lado das motivações artísticas, das intenções, do impacto orgânico é o mais privilegiado.

Em suma, o que a revista Palavra&Arte se propõe a fazer é medir a vida da arte e contribuir para que a arte dê vida.