Ao Meu eterno mestre: Jorge Mendes Macedo
(Ars longa, vita brevis – A arte é longa, a vida é curta.)

É sempre assim todos os dias…

As horas fogem apressadas, o tempo evapora-se e rapidamente tudo se torna alienado. Encostado sobre o banco do autocarro ou por vezes de pé chegam-me de todos os quadrantes as reflexões mais frustrantes desta maldita vida. No tumulto das vozes que comentam os seus desesperos as suas decepções falando de tudo desde a política a fofoca, as últimas do desporto, as cantigas e candongas não faltam. E a viagem torna-se animada de debates abertos, vagos e frívolos. Queixam-se de tudo, até da própria existência, aos companheiros de luta. Tem maridos frustrados embriagados e chifrudos, mulheres caloteiras, ofendidas vomitando para sociedade makas do lar.
O autocarro torna-se o ponto de encontro de tudo que acontece neste musseque chamado Luanda.
O comércio, roubos, aldrabices e malabarismo aglutinam-se e parece que o casamento é compatível porque ninguém reclama.
Os problemas de feitiçaria aqui comentados fez-me imaginar em um louco que dizia “na África são todos feiticeiros”. Um rapaz que se tornou objecto da minha atenção, sentado num canto indiferente a conversa da sociedade sofria, sozinho com um pacote de whisky The best. As manas do arreiou-arreiou, arreavam-se também aqui. Aqui onde estávamos Cristãos e ateus, políticos e gatunos, feiticeiros e companhias amontoados como cabritos carregados ao matadouro.
O nduta pisou fundo o acelerador para alegria da garotada e desgosto dos velhos que em comum gritaram:
― Ó nos mata ou quê!!!
― Estás a levar pessoas e não cabritos!!! – Resmungaram
Um jovem atencioso alertando o apressado motorista que no seu machimbombo havia uma parturiente gritou:
― Tem mulher grávida!
Vinham gritos de todos os ângulos pareciam um concurso de quem grita mais o seu vagido. É característico do homem gritar quando não tem nada a dizer. Ao angolano talvez deve-se ao barulho da artilharia. Junto ao autocarro passou um iace com suas músicas a martelarem ouvidos e corações, que desapareceu para alegria dos martelados.
A pressa do machimbombo abanou os nossos corpos transpirados e encurralados que a combinação de cheiros chegou-me brutalmente, catingado, dipingado e até das bocas fedentas que não paravam de latir sobre isso ou aquilo, feria e destabilizava todos os meus sentidos.
Dois homens subiram numa das paragens, traziam consigo sacos pretos e bíblias a apresentarem um estado de má conservação a cheirarem a calor postas na sovaqueira, camisas e calças velhas mal amanhadas, sapatos mal engraxados aclamarem por substituição e a denunciarem miséria estrema “quanto mais pobres mais religiosos” pensei: parecia serem clientes do papá Quitoco que vinham de uma lixeira lá dos kwanzas que de uma casa de pacificação de espíritos. Os dois falavam num sotaque nada comum para angolano começaram por comercializar sermões do paraíso que parecia converter moscas para o seu reino necropolitano. Ninguém estava interessado no que diziam os dois (pensei) “aí de ti se não evangelizares”. Estava assim a minha posição de religioso em questão.
Um rapaz que se dirigia a porta para descer descuidado com os empurrões e safanões pisou um daqueles homens que já me tinham dado a impressão de ser um João ou um outro Paulo que tentavam revolucionar o século XXI dos tsunamis, dos enforcamentos em nome dos direitos humanos, da exploração do homem contra o homem e de toda a roubalheira. Dando a “Deus o que é de Deus e a César o que é de César” fazendo com amor o que o mestre manda. Desatou um palavrão que todos se viraram para ele esqueceu as setenta e sete vezes sete que devia perdoar, levantou a mão pronto a entalar no rosto do rapaz mas foi impedido pelos presentes que o repudiavam. O miúdo vinha da escola e parecia ter aprendido ainda alguma coisa deste sistema de educação órfão de moral pedia insistentemente:
― Desculpa, desculpa, desculpa tio!
Mas tudo aquilo era em vão porque o homem estava mesmo nervoso tinha se convertido ao deus pedra que só nos afasta do Deus altíssimo. O homem tinha perdido a moral ofendia de pai a outros membros da família acrescentando ainda:
― Desculpa, desculpa masé a uma ova. Quem disse que desculpa cura a merda da dor?
“As aparências iludem os menos atentos”.
Que absurdo! Aquela discussão não tinha lógica de existir por isso desviei a minha atenção a geometria côncava de uma leviana mulher que tinha o púbis por de fora num spot, excitando o meu olhar e de quem contemplava-a com o olhar sedento de prazer. “Alienação dos valores é o desafio destes publicitários”. Uma outra rapariga que na idade do descobrimento exibia a sua nudez numa saia para bonecas que vergonhosamente deixava exposta virgens tumbas, traseiras que em cada movimento tornava-se mais volumosa, apetitosas e onduladas e embriagava os olhares, pareceu-me ver a serpente do Éden a oferecer-me frescas maçãs da árvore proibida.
“È melhor granjear o respeito que a admiração das pessoas”. Era tanta indecência, ainda veio-me por acaso as palavras do livro santo “teu corpo é templo do espírito santo não o deves escandalizar”.
Um velho falava dos casos de violação quando um grupo de homens gritara do interior do autocarro em coro entre assobios e insultos:
─ Uaue! Bendita sejam as musas angolanas!
─ É bandidaaa!

Na minha objectiva veio os rostos carrancudos e descabelado das zungueiras vítimas de todos apetites as que ficam atadas no calvário do nosso luxuoso império, essas sim são as “benditas musas angolanas” porque o seu canto é triste como são os dias e as noites neste buraco onde vivemos atolados.
Sentindo o meu coração esfaqueado com o seu batimento fora do normal como quem tem medo da morte, levei as mãos ao rosto apertei-o, deslizei nervosamente até ao cabelo depois só queria não pensar em nada fechei-me no meu mutismo sensorial.
Em cada paragem o motorista com o seu fiel cobrador que não davam valor a vida atestavam o autocarro, quanto mais enchiam mais “messo wa tunda”. Alguns dos meus compatriotas foram barrados por não ter dinheiro para o bilhete. Enquanto outros enfiavam-se as escondidas do olhar selectivo e arbitrário do cobrador.
Senti pena dos valores éticos e morais atropelados e ofuscados por esta geração de intelectuais e políticos que fingem existir direitos humanos quando diariamente sepultam-no sempre com seus egoísmos atolados. Inventam leis para escamotear, fazer desaparecer o pacato os sem, voz nem vez. Os manda chuvas borrifam-se de dinheiro, em qualquer sitio são conhecidos, são os preferidos de todos, são chamado de sua excelência. E os farrapos são apelidados de nomes que os marginalizam.
Os postes iluminavam as ruas e pareciam vencer o escuro, mas de súbito sumiu, sumiu e a saudade ficou estampada nas estradas esburacadas, alguém disse:
─ A luz foi!
Perguntei-me porque chorar lágrimas que se dissolvem na areia, se ninguém a pode encontrar? Porque sonhar com rosas quando vivemos sobre cactos ou sobre ervas daninhas?
Águas, luz, nas ruas da minha banda, só na candonga. Máquinas infernais que não nos deixam respirar o oxigénio despertam-nos o sono, águas pretas, verdes e castanhas, doces e salgadas repletas de todos os micróbios vestidas de todas as doenças é que matam a nossa insaciável sede. Ah bendita seja a esperança do pobre porque nunca morre. Nem mesmo quando a opulência convertida a religião dos malfeitores nos lançam uma nuvem de fumo ela vence-a. Veio-me na objectiva o meu tio e o seu fiel amigo.
Fernando Kifuba Osso, formado e doutorado na URSS ex. União Soviética, Manuel Kinga Mbote que tem as cores de Angola no seu sangue e o hino gravado como os 10 mandamentos nas tábuas do seu coração doutorado em medicina na República Federativa de Cuba. Vieram para preencher o vazio de quadros existentes, mas a pátria tranco-lhes a porta e a felicidade fugiu-lhes pela janela hoje andam entregues as barracas de álcool e cantam como galos as suas malambas.
Voltei a minha atenção ao rapaz que bebia whisky indiferente a conversa da sociedade agora parecia mais animado talvez a bebida já começava a fazer o seu efeito pois alegrava-o. “O álcool é o verdadeiro amigo nas horas alienantes”
Tinha se juntado ao clube dos dois homens «santos» mais três homens que transformaram o autocarro uma igreja discutiam tudo, discussão sem nexo nem progresso, por isso prestei a minha atenção a quatro jovens que conversavam com um homem sobre o Ensino em Angola e o fenómeno gasosa e parecia uma reflexão seria porque tinham todos noção do que diziam, podia se ver nos múltiplos exemplos que buscavam para sustentar as sua ideias ao contrário daqueles três homens com seus capítulos decorados.
Cedi o meu lugar por três vezes sem por isso esperar retribuição. Um velho embriagado parecia macaco fazendo caretas para todos rirem, enquanto um grupo de rapazes batendo nas portas do autocarro, com latas e outros objectos a fazerem as suas cantaroladas ─ “nós do musseque somos mbora matumbo”─ no exterior como no interior do autocarro não havia diferença porque estava tudo alienado e a rodar. Por isso encostei-me e resolvi tirar uma soneca ao menos sonho com “novos horizontes”. ─ Porque até, esta reflexão de rotina já começa a me alienar também.