«Um mundo à nossa medida exige
saber, bondade e coragem.»
(Bertrand Russell)

 

No corrente ano, foi com júbilo que lemos, na célebre revista jovial Palavra e Arte, o ensaio do professor Mário Henriques. A substância do ensaio estava ligada às razões que um escritor tem para colocar um glossário na sua obra. Em nosso conceber, das muitas visões do autor do ensaio, Mário defende que é desnecessário o uso de um glossário nas obras literárias quando os termos que dela constam já não são, essencialmente, neónimos, pois são marcas de angolanidade. No artigo Glossário em obras literárias – Para quê? Quando se é necessário?, Mário considera desnecessário o uso de um glossário na obra “Vozes da Cidade”, da autoria de Mira Clock, e, como exemplo da desnecessidade de glossário numa obra literária, traz à tona as obras: “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, de Agualusa e “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto. Desta feita, o Professor e ensaísta Mário Henriques resume que: “A opção do uso do glossário seja consequência de uma insuficiência do escritor no uso de certos vocábulos de formas a evitar dúvida ao leitor, e do editor que não consegue trabalhar com esse, a fim de eliminar essas dúvidas e evitar, consequentemente, o glossário na obra. Ou seja. O glossário acaba por ser um socorro a essas insuficiências.”

É a partir do que acima foi dito e da questão “Por que razão a existência de um glossário numa obra literária?”que vamos tecer este ensaio. A começar:

Para se compreender o assunto em epígrafe, é necessário definirmos o que é um glossário, passar pelos caminhos do que é um dicionário e, assim, mostrarmos o nosso juízo de valor sobre a necessidade ou a desnecessidade de um glossário.

Segundo Chicuna (2015, p. 62), os embriões dos mais antigos dos dicionários são glossários, índices e concordâncias elaborados para compreensão de textos latinos. Os glossários deste tipo constituem, ainda hoje, valiosos auxiliares. “Os alunos utilizam cadernos de vocabulário, os filósofos, os índices de Kant, de Goethe ou Marx, e os teólogos, as concordâncias bíblicas”, afirma Weinrich (1979, p. 316).

À luz dos pensamentos de Correia (2009, p. 31), um glossário é uma lista restrita de vocábulos de um determinado domínio do conhecimento, de um determinado registo linguístico, específicos da obra de um autor, constituída por neologismos, arcaísmos, regionalismos, etc. Muitas vezes, essa lista pode ser apresentada, por exemplo, como anexo a uma obra.

Ora, pensamos que, com o auxílio dos pensamentos dos estudiosos que estão a ser referidos no decorrer deste ensaio, há muita importância na opção do uso de um glossário nas obras literárias, porquanto, antes da função lúdica, a obra, como toda a manifestação linguística, tem a função de informar a visão ou as emoções de um dado indivíduo, ou seja, antes da função poética, a linguagem assenta na função informativa, como concorda Borregana (2003, p. 17) ao dizer que “a linguagem nasceu para satisfazer as necessidades informativas. Daí que a função informativa da linguagem seja a mais importante de todas.” Por outra, defendemos que o escritor não escreve uma obra para determinado povo, acreditamos que, num mundo com vários problemas sociais, separação do que é africano, do que é europeu, do que é asiático ou americano, uma obra literária deve ser um elo sine qua non para unir o mundo, para trazer à baila diferentes modos de ver o cosmo, mas, para que tal aconteça, é necessário que os dialetismos1 ou os empréstimos2 que dela constam devam ser esclarecidos com a utilização de lexias equivalentes, compreendidas facilmente pelos leitores da mesma.

Ao optar pelo uso de um glossário na sua obra, mais do que demonstrar “uma insuficiência do escritor no uso de certos vocábulos de formas a evitar dúvida ao leitor, e do editor que não consegue trabalhar com esse, a fim de eliminar essas dúvidas”, conforme afirma Mário, um escritor opta pelo uso desse meio facilitador pela boa comunicação, pelo bom senso, pela universalização da sua obra, enfim, é seu desiderato que o leiam por todos que compreendam a língua que predomina no seu macro texto – na obra –, não apenas por leitores da sua pátria.

A concluir: uma vez que defende a angolanidade, as línguas bantu, o gozo que há no aprender novas unidades lexicais que integram a língua portuguesa, por meio de importação3 ou hibridismo4, é pertinente o ensaio do professor Mário Henriques, porém só será DESNECESSÁRIA a opção do uso do glossário se um escritor escrever para um povo pré-definido que conheça já os semas de todas as palavras utilizadas por ele mas, se o escritor desejar ser lido e compreendido por todos que, independentemente das suas nações, entendam a língua que predomina na sua obra, será, sem sombras de dúvidas, NECESSÁRIA a opção do uso do glossário.

Outrossim, consideramos um “crime linguístico” o que alguns escritores, “os agora famosos”, como diz Bukowski (“que há um dado tempo terão escrito alguma coisa boa”), andam a fazer com alguns itens lexicais, a dizer: escrever algumas palavras intencionalmente erradas («paçado» no lugar de «passado», exemplificando), escrever obras literárias sobre as “áfricas” ou a respeito dos “brasis” com algumas palavras e frases das línguas bantu ou das línguas tupi para publicar nas “europas”, mas sem glossários. Para tanto, caso Mia Couto, Agualusa ou sei lá quem terá escrito um livro para ser lido por qualquer falante da língua portuguesa que não seja da sua nação (ainda que fosse, nos casos de Angola e Moçambique, devido ao vasto mosaico linguístico o multilinguismo que estes países encerram), mais do que levar os seus leitores ao gozo de aprender palavras de outras línguas ou possíveis neologismos, terá dificultado a boa compreensão da sua obra por parte dos leitores que ignoram os significados de dados hibridismos, dialetismos ou empréstimos.

Vocabulário

dialetismos1: elemento ou traço linguístico (fonético, morfológico, vocabular, sintáctico ou semântico) de origem popular, restrito a uma região de um país (dialetismo regional) ou a uma classe ou grupo social (dialetismo social).

empréstimos2: é usual os linguistas designarem por empréstimo, estrangeirismo ou importação às unidades léxicas que saem do léxico de uma dada língua para o de outra.

importação3: estrangeirismo, empréstimo.

hibridismos4: para Cunha e Cintra (1985, p. 84), palavras híbridas são aquelas que se formam de elementos a partir de línguas distintas.

Bibliografia

BORREGANA, A. (.2003). Gramática da Língua Portuguesa. (1ª edição). Texto Editores: Luanda
CHICUNA, A. M. (2015). Portuguesismos nas Línguas Bantu. (2ª edição). Lisboa: Edições Colibri
CORREIA, M. (2009). Os Dicionários Portugueses. (1.ª Edição). Lisboa: Editorial Caminho
CUNHA, C. & CINTRA, L. (2013). Nova Gramática do Português Contemporâneo. ( 20.ª Edição). Lisboa: Edições João Sá da Costa