A placa na porta de entrada era clara, não carecia de explicação. Era uma frase simples, escrita em itálico: “Café dos Poetas”. Atiçou a minha curiosidade natural de procurar saber o que acontece atrás de cada porta dessa cidade inflamada de suspiros humanos. Olhei pela janela, notei que havia, no interior, quatro cadeiras de madeira, quatro homens e uma folha branca na mão de cada um, mas não havia café e muito menos máquina alguma para fazê-lo. Minha curiosidade aumentou, dei a volta até a entrada e quase abri a porta, mas parei, imaginando o que sucederia logo que a abrisse:

– Quem és tu?
– Eu?
– Sim, tu, quem és? És poeta?

E eu responderia desajeitado, coçando a cabeça:

– Sou sim, poeta de imaginação, vivo pensando em poemas, mas nunca os escrevo.

Um senhor de idade, aparentemente avançada, mofando de mim e de minha cara de palerma, perguntaria:
– afinal existem poetas de imaginação?

Os outros três homens presentes na sala zombariam de mim, gargalhadas incontroladas, babas, cuspes, engasgos e tudo que se tem direito ao servir-se de uma piada numa manhã ensolarada de sábado. Mas não foi assim que aconteceu, a porta abriu-se logo que meus pensamentos decidiram chamar-me a razão de que seria melhor voltar à janela para continuar a alimentar minha curiosidade natural de saber que vidas vivem as pessoas nessa cidade de chamas silenciosas.

O senhor de idade, aparentemente avançada, trazia nas mãos um livro vermelho sem letras na capa, abriu a porta e, com um tom de voz que muito se assemelhava ao de José Saramago, disse-me:

-Entra, estávamos só à espera de ti para começar.
-Como?

Argui sem mover meu corpo, apenas os lábios, as palavras que rondavam minha mente recusaram-se a sair e fiquei pela pergunta de criança que tudo quer saber; Como? Como conseguem os peixes viver na água sem se afogar? Como? E por ali fiquei por meros segundos, achei que estivesse prestes a ter um ataque cardíaco, não conseguia acreditar, parecia ele, parecia ser José Saramago, não apenas pelo tom da voz, também pelos gestos e a melancolia, característica de sua alma quase imutável. Consegui ler em seus olhos suas ideologias, consegui ouvir suas entrevistas e sentir a energia de seu amor por Pilar, Ele reforçou o convite:

– Entra, apresse-se!

E dirigiu-se ao fundo da sala aonde havia uma cadeira branca, prosseguiu convidando-me a sentar e começou por perguntar a quem mais próximo dele estava, um jovem-senhor de camisa cinzenta:

-Para quem escreves poesia? Para ti, para mim, ou para a vida?
Com o rosto curvado ao chão, o jovem-senhor respondeu:

               ”escrevo poesia para a ironia do mundo
                para ouvir a voz difusa da alma de um mudo
                escrevo poesia para os irmãos gémeos
                os legisladores desse imenso universo

 

                escrevo poesia para o escárnio que é ser Abel
                e o contratempo que é fugir de Caim  
                  ou
                para a sorte de ser um quase-deus
                mas não poder fugir da morte em mim”

-E tu? Para quem escreves poesia?

Dirigiu-se a um outro jovem, aparentemente mais velho do que eu e mais novo do que o jovem-senhor da camisa cinzenta. Pôs-se em pé e disse:

 

    ”escrevo poesia para ela
      a mulher que me transformou em poeta
     para a noite em que tristezas da alma metamorfoseiam-se em melodias  
     e para o crime que é largar abraços no silêncio da brisa da vida
        
     escrevo para a valsa que nunca iremos dançar
     para o barco que mesmo sem vela continua a pelejar para vencer o mar
     eu,
     escrevo para a escuridão poética da noite de rimas sem ar
     em que vi nos olhos dela o azul escuro florescente do mar,
     coisas de me encantar
     escrevo para as ondas sem direcção
     que levam para ela as perólas de minha imaginação”

-e tu ali no fundo, para quem escreves?
-eu?
perguntei com o coração quase pulando pela boca
-sim, tu?

Olhei para ele e pensei porque pulou o adolescente de óculos escuros e veio para mim? Era evidente a seriedade em seu rosto envelhecido, seria mesmo José Saramago? Talvez, de qualquer modo, não sabia o que responder, havia posteriormente dito que era poeta de imaginação e agora me pergunta para quem escrevo?

           mas eu,
           poeta de imaginação desde quando vi o Sol pela primeira vez          
          imagino poemas de delírios
          poemas de amor
          poemas de vida e de morte como qualquer outro poeta
          não os imagino pensando em mulher alguma,
          nunca provei com meus lábios e coração o amor romântico de uma      
          imagino poemas de saudades e de cheiros
          de abraços mal apertados
          e
          de beijos mal beijados
          imagino poemas de não escrever
         poemas de guardar apenas no fundo do meu desarranjado ser.

Levantei-me. depois de uma vista de olhos panorâmica por todos que ali  estavam, disse sem balbuciar:
-eu não sou poeta!
e me retirei às pressas…