Fodíamos todas as noites — era assim que começava o livro dela. Um romance de mau gosto que devia ter sido escrito com os dedos sempre húmidos. Não faltava no livro palavras que se ouvem apenas de mulheres húmidas. Enquanto ouvia ler este Atestado da Intensidade Erótica, pensava nela, vigorosa e cálida, a surgir coberta de roseiras-rubras nos seios e no sexo. Era o segundo livro e terminava com uma convocação de traições e sangue, depois de uma sucessão de lugares-comuns. A ousadia e o escândalo do anterior — mais no título, Flores para o teu sexo, que nas fastidiosas descrições sexuais —, tornaram-na numa figura adorada por adolescentes da classe média luandense, que fingiam libertar-se das amarras da infância cercadas pelos arames dos condomínios. Ela tinha 22 anos, meia dúzia a menos que eu, e era lida por pessoas que apreciavam, antes da sua escrita, a sua árvore genealógica.

Na noite da apresentação do livro, eu descia a Marien Ngouabi remexendo os lábios de insegurança. Tinha acabado de escrever uma coleção de contos, uma imitação fácil de Cortázar, escritos enquanto lutava com a água da chuva a inundar, todas as vezes, o meu quarto e os meus melhores escritos arquivados num caderno de papel sulfite amarelo. Quando escrevi, durante seis dias, o conto Cartas para Libélulas, fingindo compreender a música de Charlie Parker, misturando muitas vezes com as músicas-noias de Sebem, eu tinha ela unicamente nos sonhos. Posava na água, e pequenos círculos concêntricos ondulavam até a margem do rio onde me encontrava estendido. Na quarta noite, fui interrompido por um lamaçal que entrou na abertura rasteira da minha porta, eu chovia no sonho.

A pior sensação que tive enquanto descia a Marien Nguoabi é que o meu Escritos Paliativos não teria valor nenhum entre os críticos nacionais. A União dos Escritores Angolanos certamente consideraria aquilo num atentado à cultura autóctone. Uma inversão de valores, sobrepujada pelo ocidentalismo, como uma vez li num semanário cultural já fora de circulação. A nossa cultura ainda precisa ser entendida e difundida, e não serão os escritores os primeiros a ignorarem-na, defendia o articulista. O artigo seguia ainda com uma grande nota sobre a identidade cultural em falta, exaltava narrativas que tinham os falares e rituais dos nativos, sem aportuguesamentos das expressões nem das vontades. Mingota é Mingota e não Domingas Ferreira, arrematava. Dias depois de ler o artigo, escrevi um punhado de textos, desfilando bêbados, desvalidos, trungungueiros e curibotas. Apliquei neles, forçosamente, algumas expressões e dizeres na língua dos ambundos, tirados de um pequeno dicionário de provérbios imprenso na forma de fascículo. O resultado era de uma mediocridade cabal. Anui e arquivei-os com desgosto.

Certamente, a anuência é uma característica nacional (em tudo e sobretudo quando o poder é ordem). Ela publicava um segundo livro e a academia, a crítica ou o que seja nada fez. Vi no mesmo jornal uma nota, embora minúscula, a exaltar nela uma veia criativa nesta menina de olhos para o amor. De certo, viveu uma longa penitência quem tenha escrito a nota — bem fez em não assinar, suponho que o deixava ultrajado.

Quando cheguei ao evento de apresentação de Atestado da Intensidade Erótica, escrito por Margarida Cohen, jovem escritora de 22 anos, com força nas palavras e no sentimento de descrever amores que desejamos viver para sempre, arrepiei com o volume de carros no parque de estacionamento. Nunca percebi de carros e menos ainda de futebol, coisas entendidas como factores para a masculinidade, mas sabia que estavam ali importantes marcas para a vaidade colectiva. Fui tomado por uma postura dengosa, uma vontade de pertencer ali. Um grupo extenso de homens com câmeras e microfones criava uma densidade na entrada da sala. A decoração do lugar dava vistas para uma festa pós-sessão.

Sentei-me num canto destacado, à direita do olhar da mesa. Aprendi a sentar-me sempre à direita do olhar da mesa, na escola. Na primária, era ali onde começava a ronda da minha professora Lizete Lisboa, uma mulher de olhar luminoso, desses que se ressalvam numa possível escuridão global, e um rosto de preservada juventude até nestes dias que está mais velha. Rondava e passava as suas mãos sobre nossas cabeças, cantando juntos o Angola Avante. O Hino Nacional tinha o sentido último de patriotismo na sua voz. Os seus trabalhos de casa eram leves, mas, nas sextas-feiras, punha-nos todos a ouvir por horas uma colecção de jazz afroamericano. Isto criou nos meus colegas uma aversão enorme pelas sextas-feiras, eu, por outro lado, tentava compreender a música, como até hoje ainda tento, agora mais envolvido com ela. O Kind of Blue do Miles Davis era o meu favorito. Uma vez, quando fui à casa dela visitá-la por estar doente, ouvimo-lo por inteiro, muito silenciosos — sem nenhum constrangimento da idade ou da autoridade. Depois, ela pôs a tocar Come As You Are de Kurt Cobain num tocador de vinil que tinha conseguido na África do Sul. Contou-me, este rebelde de Seatle pôs uma bala na cabeça quando não viu mais sentido na busca de sentido. É assim a vida, uma bala na cabeça. A frase, pouco ou demasiado pedagógica, deu-me o atestado de que estava ela profundamente doente e nunca me pareceu que fosse uma doença resolvida por antibióticos ou drogaria de igual valor, devia ser doença da alma. Naquela tarde, a professora alimentou-me com uma sandes de peixe e sumo de laranja natural; não me esqueço como a cor do líquido se puxava de semelhanças com o céu da tarde a morrer através da sua janela. Hoje ela vive em Aveiro e, vez por outra, vem a Angola fazer apresentações sobre a obra de Ernesto Lara Filho, tema de seu doutoramento.

Prosseguindo, do canto direito da mesa, encarava com clareza a assembleia responsável pela apresentação do Atestado. Margarina Cohen não estava ainda lá, no entanto o evento tinha começado com uma sessão de música acústica. Uma jovem cantava os temas mais conhecidos de James Brown; a forma dela se sentar tinha uma inocência, uma busca de refúgio, mas a sua voz não era por aí entendida. Transmitia a sua luz. A seguir, uma outra jovem, que conheci com título de filha durante o lançamento do livro de memórias de um nacionalista, tecia elogios à amiga pela coragem de mais um romance e agradecia por anos antes ser ela no lugar da outra quando ambas trocavam impressões sobre o livro desta. E foi anunciado a entrada dela.

Margarida Cohen entrou de sorriso aberto e leitoso. A sua cabeleira encrespada brilhava do gel que devia ter aplicado com estudado cuidado. Tudo combinava com o vestido fino creme-branco que demarcava com honestidade o seu corpo jovem. Quando ela falava, tocava em minha cabeça April in Paris de Parker, e imaginava-me com Margarida Cohen, a apresentadora e a tímida cantora de James Brown sentados na Paris perdida, na Paris da Ocupação, vigiados pela professora Lizete Lisboa com o seu tocador de vinil conseguido na África do Sul. Eu encarava-a com devido interesse na forma como aveludava as palavras entre os lábios.

Ainda absorto, a frase “Fodíamos todas as noites” fez-me percorrer no corpo uma repulsa pelos meus pensamentos. Imaginei que tinha chegado a fantasias distantes em lugar inapropriado, era apenas o início da leitura do livro. Recordei que tinha entrado sem o comprar, pelo que me levantei imediatamente, avisando ao companheiro da assistência que preservasse o lugar da concorrência em pé. Na entrada, a banca estava abandonada quer de livros como dos vendedores da editora. Depois do meu aturdimento, apareceu uma moça demasiado magra que tinha uma trança idêntica a das mulheres adventistas. Falou-me que o livro se tinha acabado — apesar do preço, que descobri estar além do que possuía em dinheiro —, mas que os editores estariam ali de volta com outra caixa de livros. Voltei ao meu lugar, acompanhando por aí a leitura.  Saltavam-se capítulos, conhecia-se uma personagem feminina tão insegura quanto burguesa e um personagem másculo, arrogante, de uma família tradicionalista. Os atestados da intensidade erótica estavam, por assim dizer, nos capítulos em que ambos pareciam trocar de peles e “eram devorados por uma languidez extensiva da noite profunda”, como se leu algures entre as descrições.

De repente, não mais que de repente — acertou nisto Vinicius de Morais —, o esbatimento tomou conta de mim. Saí da sala e fui parquear com os lustrosos carros que aguardavam em ânsia os seus donos pujantes — de bolsos quanto de corpos. Puxei do bolso esquerdo da calça de ganga o meu maço de Malboro. Recordei, era o último maço que tinha. Há alguns meses, quando troquei os cigarros baratos por estes, apressei-me em comprar dois pacotes de Malboro, cada um com doze maços, e passei a fumar sem remorso nos saraus e outros tipos de eventos culturais que aconteciam um pouco por toda a cidade. A minha mudança de marca deu-se por conta de um mal-entendido numa noite em que entrei inocente numa galeria de arte, onde as pessoas visitavam as exposições somente por convites. Tinha terminado o turno tarde e ainda estava no centro da cidade, parecia-me moralmente aceitável estar num ambiente assim. Vi algumas figuras frequentes nas revistas de celebridades e algumas pessoas do governo ou as suas versões fantasmas. Tomei um pouco de vinho tinto e fui fumar. Estava sem isqueiro e fui interromper duas senhoras que conversavam freneticamente entre o fumo. Elas olharam e responderam com escárnio ao meu pedido, só fumamos o que tem classe. O meu cigarro disposto na direcção delas, diante do eletrónico nas suas bocas, murchava com a bituca a escapar-me dos dedos. Sei que a minha nova marca não é a linha da frente entre os célebres tabacos no mundo. Serviu, porém, para me tornar mais atento aos tipos de cigarros e as suas conveniências em determinados lugares. Talvez não fosse em mim que elas condenavam a falta de classe, mas no cigarro.

Uma mão posou no meu ombro. Sabe me indicar onde é a casa de banho? A voz cresceu entre o silêncio estrelado que estava no parque, e retirou-me os pensamentos. Quando virei, era Margarida Cohen aflita. Indiquei uma porta iluminada onde minutos antes vi a iconografia de uma mulher. Ela correu no cuidado agarrado de uma noiva às pressas para o martírio matrimonial. Não demorou lá dentro e saiu já recomposta da sua expressividade anterior. Chamei-lhe a atenção. Aproximou-se de mim.

Como se sente com este feito?, perguntei-lhe. Estou satisfeita, obrigada. É jornalista?, ela moveu o sobrolho de espanto. Disse-lhe que sim e rapidamente puxei meu telemóvel da calça de ganga e fingi gravar a conversa. Mas devia estar lá dentro, o evento ainda não terminou, disse-me ela. Respondi que precisava fazer uma outra cobertura numa galeria de arte (falei o nome da mesma dos convites exclusivos). A noite está concorrida, disse-lhe, mas certamente o seu acontecimento é o mais primoroso e a história cultural da cidade fará questão de registar na memória. A graxa deixou Margarida Cohen graciosa. Agradeço as palavras, mas estão à espera de mim lá dentro. Contive ela, sob o pretexto de querer que ela deixasse algumas considerações antes que eu partisse.

Margarida Cohen empertigou-se para aproximar o rosto à posição onde eu mantinha o telemóvel. Um ritual de preparo vaidoso. Na minha primeira pergunta, deixei a descoberto uma rasura de construção do personagem do seu Flores para o teu sexo,e Margarida Cohen expressou de novo o seu espanto através do sobrolho e disse-me que gostaria que falássemos deste livro e não do anterior. Perguntei a seguir em quem pensava enquanto calejava aquelas descrições. Desconfiei de mim mesmo depois de dito, questionei-me se a palavra calejar era frequente entre os jornalistas e vi mais uma vez Margarida Cohen a usar o sobrolho, desta vez sem estar atónita, mas levemente acirrada. Gesticulou como se quisesse dispensar a entrevista com uma indicação à entrada do salão. Segurei o dedo indicador dela ainda preso no ar e disse-lhe, requebrado:

— Devias pensar em homens que escrevem de verdade.

A frase saiu de algum lugar, não sei de onde, e arrependi-me, porque não parecia certo com o estado difuso do meu desejo. Desculpa, está a roubar-me tempo com coisas inúteis, Margarida Cohen enrubesceu quando voltei a segurá-la entre a cintura, mas afastou-se bruscamente cotovelando meu peito.

— Seu provinciano imundo. — Gritou ela — Aqui não é seu lugar, animal. E correu a uma cabana onde estavam dois seguranças distraídos nos relatos do campeonato nacional de futebol. Voltei as minhas costas a um carro gigantesco para me esconder dos dois homens que viam com os corpos volumados por enormes casacos árticos. Lembrei a frase da minha professora Lizete Lisboa, uma bala na cabeça. Ouvi a voz de Margarida Cohen gritar duas vezes:

— Vem mostrar quem és, grande animal.

E os seguranças diziam para ela que eu já devia ter escapado, o parque era grande para me achar naquela confusão. Margarida Cohen passou o restante daquela noite apreensiva. Vi-a pelas imagens da televisão.

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