― Queimei-os e depois dei a comer aos jacarés do Kiaposse. O Kassule chorava numa tremebunda canção, e o Kamulingue era o mais distenso, dizia parcas palavras e reunia seus choros numa oração, parecia era por um povo chamado Mwangolé ou sei lá o quê!
― Eu… disparei contra o sorriso popular, matei, durante 38 anos, a dona senhora Esperança; tirei-a do povo e de eles roubei também a alegria e a vendi aos são-tomenses de hoje.
Eram os jingongos, confessavam-se ante a carranca da sala nobre. Seus olhos descoloriam-se sob os olhares dos que, em tintas d’água, morriam a viver as dores durante os séculos de lembranças; os humanos ― os bons filhos desta terra argilosa ― tinham os corações agrafados na ponta de um garrafão de sangue, e os dias, amargos como o sol de 77, queimava-os com a acidez das mentiras que ainda incendiavam a sala. As incoerências cobertas pelos luxuosos vocábulos e pelas vagabundas manias eram os adornos da sala, e a tribuna era um quintal adverso ao katombor, fazendo lembrar o Vaticano.
Estavam todos com as mbundas repousadas nos assentos da Assembleia Nacional, que dizem ter custado mil palancas e algumas pedras ensanguentadas das Lundas. É um edifício de invejar. O luxo serve-lhe de “ás trunfo”, pena é estar sobre o lixo dum bairro das luandas que compramos com as lágrimas de jacarés. A sala falava barulhos, todos os outros homens, até aqueles que tinham os corpos por se libertar, gritavam justiças com as bocas subjectivas das mãos apontando os dedos aos jingongos: “Vocês deveriam é ser queimados vivos, seus assassinos!”. Até que do centro da sala se fez ouvir a voz mestra, rouca e sem reticências…
― Não viemos buscar culpados e sim limpar as vergonhas e nos dar as mãos em paz que nos trouxe à comissão ― berrou o Dias que, qual dos Santos, presidia a plenária das sinceridades. Fingia uma lágrima no rosto queimado com o tempo. Não era uma vítima, tinha as mãos amarradas na culpa de sempremente e o rabo preso numa história do Líbano.
Num repente, a sala solta uma voz, ríspida e amofinada:
― E quem matou o Rufino?
Parou o relógio, o tempo secou na hora e a sala amiudou-se para tanto silêncio. Os de vermelhos engatinharam-se nos olhares, os de verde, com os galos nas mãos, apontaram à oposição dos seus lugares como se deuses fossem. Os humanos gritaram uma verdade nos choros, e minha mãe instalou-se à janela do edifício de ouro, querendo comer o suor da sala e espremer o fôlego com a maioria: o telejornal roubou-lhe o tempo em vão, e a rádio, ao serviço dos de vermelho, enchia os verbos esvaziar com as abordagens estrábicas da praxe. Ela, coitada, usou a boca caboba para expelir supostos terrores…
― Comecemos pelo o 27 de Maio de 77!
― Cala boca, fida puta…! Sua pobre, malcheirosa duma figa! ― gritaram irritados os de vermelho, contundiam com suas línguas ferozes a mãe do povo.
Os de verde pousaram os seus galos, acusaram as vergonhas de outrora, porque lhes vieram à telha as lembranças das kubatas queimadas e vidas roubadas pelos seus desacertos emocionais. Este é um assunto pesado e não há comissão, seja que verdade aborde. E estragou-se o rito, e os sul africanos, depositantes da experiência, fugiram (temiam que se lhes roubassem a voz de gritar paz), e nasceu a mais nova das guerras em Angola: falar a verdade é crime e morre quem recolhe o passado.

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