A literatura angolana recebeu no dia 17 de Março de 2017, mais uma obra literária que trouxe consigo mais uma estreante neste mundo da literatura. O Hotel Skyna foi o local escolhido para o lançamento e apresentação ao público deste livro de poesia, cuja autora, há um ano, nem era um embrião no útero da complexa literatura nacional, razão de curiosidade dos leitores em se fazer presente neste dia, a fim de saberem como, em menos de um ano, alguém comece a marcar os primeiros passos e já apresente, ao mesmo tempo, frutos! Caso para se dizer que talvez o bichinho da escrita já fosse prisioneira da Alfredina, precisando de estímulo para ser expulso em forma de arte.

E com vontade de saciar desejos insaciáveis do “Insaciável Desejo”, uma boa moldura humana fez-se ao Skyna. Mas o que se viu foram algumas actuações musicais, declamações de poesia e uma apresentação que excedeu o tempo limite que se prevê para o efeito. Questiono-me, portanto, o que deve atrair o leitor para o lançamento de uma obra literária, quanto mais de um novo escritor? Melhor, como deve o novo escritor aproveitar-se de o lançamento da sua obra para atrair leitores? É óbvio que os leitores são ou devem ser atraídos pela qualidade da obra artística, porém, tendo a oportunidade de apresentá-la ao público, como tirar vantagens disso? Posso estar equivocado, mas a Alfredina Ventura, que fez jus ao seu sobrenome ao escrever esta obra em tão curto espaço de tempo, não soube aproveitar-se da aventura em que se colocou, pois limitou-se a estar presente na sala, para no fim tecer algumas palavras de agradecimento e declamar um dos seus poemas. Acho que não é isso que leva um leitor ao lançamento de um livro.

[Na foto, Alfredina Ventura e a moldura oficial do seu novo rebento literário: Insaciável Desejo]

Além de ser nova neste mundo, nem mais de um ano tem de escrita, duas razões que coçam a curiosidade de qualquer leitor activo. Era suposto, por conta disso, que a autora do “Insaciável Desejo”, falasse sobre o seu livro, motivações, inspirações para escrita do mesmo, mostrando segurança aos seus aspirantes leitores e fazendo nascer nestes o interesse por tudo que ela venha a escrever daqui adiante. E isto poderia ser feito com sessões de perguntas e respostas, mas, nem isso, houve. Só não se sabe a quem atribuir esta suposta culpa, se à escritora ou à editora. De qualquer forma, talvez isto não venha colocar em causa aquilo que se espera da sua obra, pois já se houve boa crítica da mesma, particularmente do seu mentor. E sabe-se que esse mentor, um dos mais jovens críticos literários que se apresenta como tal por meio das suas análises, faz análise crítica sem se prender ao amiguismo, apenas favorecendo a literatura.

A situação exposta no parágrafo anterior somada com a não-explanação dela pelo seu trabalho fazem-me questionar, ainda, que obra teríamos se não tivesse o Hélder Simbad como mentor? É difícil responder a esta pergunta nesta altura, mas esperaremos por próximas obras para certificar a qualidade da nova escritora.

Na foto, Alfredina Ventura e a moldura oficial do seu novo rebento literário: Insaciável Desejo

No final, o que mais interessava à editora aconteceu, venda dos livros. Parecia mais uma venda e sessão de autógrafos de um álbum, hipótese um pouco desmentida pelas declamações de poesia das quais uma feita pela própria escritora.

Porém, a adesão de apreciadores da música ao de evento de venda e sessões de autógrafos, ao contrário da adesão de leitores ao lançamento de uma obra literária, é sustentada pela promoção de algumas músicas do trabalho discográfico em causa. Até se pode dar o luxo de se dispensar este evento de venda ao público, se esta promoção for bem trabalhada, salvo algumas excepções, claro. E mesmo havendo, ao músico não se espera uma apresentação oral, senão à imprensa, pois a sua música fala por si durante a promoção. E o livro cuja promoção se resume ao anúncio de “temos a honra e o prazer de convidar V/ excelência a participar na cerimónia de lançamento do livro «Insaciável Desejo»…”, por exemplo? Enquanto não acontecer o lançamento, ninguém poderá dizer que a obra é boa ou má, por isso vou ou não ao lançamento e vou ou não comprá-lo. No evento, o leitor, portanto, pode, limitar-se, inicialmente, a assistir a apresentação, esperando que o autor, principalmente este, e aquele a quem é atribuído a responsabilidade da apresentação, o convençam de que vale a pena comprar o seu livro. Acredito que ninguém faça isso, mas seria sensato, sem se considerar escândalo, se os leitores assim agissem, pois seria esta a promoção do conteúdo do livro tal como é para música a promoção nas rádios, televisões e internet.

E, assim, esperamos que não se leve como afronta esta apreciação que se focou na apresentação da obra e não na obra. Vamos ler o “Insaciável Desejo” e conhecer a alma da autora a partir da sua poesia, já que ela se limitou a não fazer de forma objectiva e clara durante o evento.