«Viagem para o Fim» e «O Ocaso dos Pirilampos» preenchem, muito bem, os pressupostos da prosa surrealista que se resumem na busca pelo insólito desde o discurso à estrutura da narrativa e na expressão de uma visão analógica do mundo. As duas obras partem da realidade objectiva e renascem do inconsciente surrealista, através do qual expõem universos ficcionais muito verosímil ao mundo exterior que integram, constituindo duas formas muito subjectivas de interpretação duma mesma realidade material; equiparando-se em determinados aspectos, distinguindo-se e complementando-se noutros. Nas duas narrativas, os eventos processam-se em solo angolano num período que parte do tempo colonial, passando pela guerra civil e culminando com os imbróglios da paz.

A dimensão surrealista das obras em análise, mais do que visível, na paisagem onírica que configuram, é-nos intencionalmente revelada pelos autores, deixando-nos alguns sinais evidentes, como título ou parágrafos de revelações.

Dentre as narrativas que compõem a obra «Surreambulando» do escritor João Tala, «Viagem para o fim» é, incontestavelmente, a que, em termos metonímicos, mais jus faz ao título que, na verdade, resulta da amálgama de «surrealismo» e «deambulando», propondo «uma trajectória surreal feita por alguém» e é o protagonista de «Viagem para o fim» quem, indubitavelmente, segue esse caminho onírico.

No romance «O Ocaso dos Pirilampos», a realidade afigura-se como surreal à personagem principal que, algumas vezes, se confunde com a personalidade do autor empírico, que se imiscuiu, na narrativa, como que um segmento humano ou traço psíquico de variação de personalidade, resultando numa outra voz que perscruta, rigorosamente, a mentalidade colectiva, penetrando-lhe no íntimo:

O nevoeiro do vosso sonho parece um lençol de gelo, frágil e transparente: é uma rocha, provérbio incongruente vindo das frases da circunstância, corpo de uma atmosfera ecléctica, surrealista e enfeitiçada (P. 105).

O surrealismo não impõe uma poética prosaica rígida, e, como já referimos, seria contrária ao conceito de automatismo literário que, por extensão, nos remeteria ao conceito de «intuição» Croceana. Em «O Ocaso dos Pirilampos», nota-se uma certa desorganização que, na verdade, quer dizer muitas coisas: entre outras, revela o estado psíquico do déspota e a sociedade enviesada que criou. Tal desorganização é tão evidente que se torna quase que impossível apresentar uma síntese linear, como é possível fazer com a novela «Viagem para o fim». Tal aparente desorganização se concretiza por via de frequentes recuos no tempo, ocorrendo o mesmo, de igual modo, ainda que menos confusa, na novela.

Em «Viagem para o Fim», o narrador antecipa os acontecimentos como que contando cenas de um próximo capítulo duma telenovela, aguçando a curiosidade do leitor. Revela o desenlace da trama, sem, no entanto, comprometer a faculdade de a obra poder provocar uma descarga emocional no final:

Estaria assim mesmo vestido, alguns meses mais tarde, perante um tribunal, mas negar-lhe-iam o valioso vínculo com a pátria, (…), sob alegação de que aquelas divisas doiradas tinham sido substituídas por outras…

Quer no romance quer na novela, a linguagem é deveras rica em figuras de retóricas, permeada de tropos, obrigando-nos, por vezes, a parar e a reler com uma tonalidade que nos remete à poesia lírica e figuras como hipérbole (permite satirizar da melhor forma a sociedade com os seus excessos), perífrase (permite alongar a narração, elevando a sua carga poética, uma vez que consiste em dizer, em muitas palavras, algo que se poderia resumir e pode encerrar outras figuras), comparações (uma forma de cruzar os objectos surreais com os do quotidiano objectivo), metáforas, alegoria, etc.

No âmbito das categorias da narrativa, o que elas têm em comum leva-nos aos seus narradores subjectivos que, frequentemente, se intrometem na diegese, emitindo pareceres. Em «O Ocaso dos Pirilampos», temos um narrador autodiegético com vários transtornos psíquicos. Na novela Viagem para o fim, a classificação do narrador quanto à presença leva-nos a ultrapassar os trâmites da teoria da literatura e envergar para várias abordagens de fórum filosófico-literário, pelas indagações, na medida em que, no princípio da história, o narrador assume-se como uma personagem figurante, implícito nas formas verbais de primeira pessoa (não sabíamos, eu vos falo de Nganga Sonhi, [P. 17]), no entanto, logo desaparece, reaparecendo na página 28, para se referir ao voo surreal da velha. E seguirá assim, ora homodiegético ora heterodigético.

O insólito é o tom natural da narrativa de Adriano Mixinge. As imagens que o seu inconsciente surrealista produz são escombros da realidade, fragmentos do quotidiano, trabalhado no seu mundo interior: uma marca que acompanha todos os eventos desconexos que se vão complementando com o avançar das páginas. Tal é o caso dos aviões, carros, escolas, prédios e cidades inteiras que nasciam da sua urina, vómito e excremento. Outra situação insólita tem que ver com a história do misterioso jardineiro duma das amantes do tirano e a sua presença surreal que, por vezes, dava a impressão de nunca ter saído do jardim, e para o narrador, este é um «prolongamento da areia que molha, das folhas que secam e de tudo que envolve o jardim».
O insólito na novela de João Tala, embora com menos incidência, também acompanha quase todos os eventos. O primeiro evento remete-nos ao estado de decadência da personalidade Solanhi, a esposa de Candimba, uma mulher perturbada, duma complexidade surreal que arranca dois galos da sua imaginação e oferece ao seu marido; padecendo duma epilepsia, «vinha e saía voluntariamente do coma» e, como de noite não «vivia», porque «morria», decide «nunca mais dormir». Contudo, a grande paisagem onírica é observada em Mazoto, uma aldeia em que a quase totalidade dos populares padeciam de tripanossomíase e, por isso, dormiam constantemente. Com a sua chegada, Candimba, subvencionando uma misteriosa velha, que já lá se encontrava, com o seu saber de enfermeiro e os dois galos arrancados da imaginação da sua esposa, que passaram a funcionar como que o despertador daquele povo, ajudou a contornar aquele quadro negro. «A cura parecia definitiva, com muita evolução». A velha, que era um anjo ou talvez mulher-pássaro, levantou-se de Mazoto num voo protagonizado por um enorme pássaro «que parecia varrer um espaço africano até se transformar num pássaro vulgar». E Candimba viria pagar por tal acto, acusado de participar em práticas de bruxaria.
Outro evento extraordinário em «Viagem para o Fim» surge depois de Zé Perdido, o homem que era uma história, ter roubado os galos arrancados da imaginação da mulher de Candimba e os mantimentos deste, resultando numa trajectória em que um homem e uma cadela partilharam uma história épica, apresentando-se «o homem» ao mesmo nível que o irracional animal, partilhando o mesmo prato com a cadela e comendo com a mesma sofreguidão. Tal evento traz-nos à memória a imagem dum homem desnutrido, em decadência, misto de humanidade e irracionalidade, de quatro e a partilhar alguns restos de comida com um animal, num quadro cinzento pintado por um artista surrealista.

João Tala e Adriano Mixinge, nas suas narrativas, revelam um conhecimento elevado em biologia através da interposição duma terminologia que obriga os leitores menos esclarecidos e, por vezes, até mesmo os mais atentos, a consultar um dicionário de medicina geral.

Terminamos a nossa abordagem comparativa, afirmando, categoricamente, que «Viagem para o Fim» e «O Ocaso dos Pirilampos», bem como as outras prosas já apresentadas por esses autores, estabelecendo uma analogia com a conjuntura literária nacional e especialmente com o que a nova geração produz, marcarão, seguramente, o início duma nova prosa na magna Instituição Literatura Angolana.