«Viagem Para O Fim» faz parte dum grupo de oito narrativas (novelas, contos e crónicas) que integram a obra «Surreambulando» do poeta e prosador João Tala. Trata-se duma novela que termina onde começa. Organizada estruturalmente em oito capítulos curtos, a narrativa explicita a trajectória dum sargento e enfermeiro de nome Candimba, que parte com dois galos arrancados da imaginação da sua esposa, Solanhi, após o término da guerra civil angolana; numa odisseia sob uma paisagem onírica que o leva a participar de diferentes eventos extraordinários, passando por duas povoações abandonadas pela administração pública, numa das quais, Mozoto, toda a população padecia de tripanossomíase, doença do sono. Aí conhece uma velha que se lhe apresentava como seu anjo da guarda, com quem se envolve em matéria de cura e, depois de quase resolverem o problema daquela população, a velha transforma-se em pássaro e foge da aldeia num voo que fez com que Candimba fosse expulso do povoado, acusado de bruxaria. Desorientado, segue um caminho que o leva a cruzar com Zé Perdido e sua cadela, o homem que afinal era uma história. Este rouba-lhe o mantimento e os dois galos arrancados da imaginação de Solanhi. Frustrado, com a cadela de Zé Perdido por quem se afeiçoa ao ponto de comerem no mesmo prato, consegue alcançar a aldeia de Cacolombolo, uma região outrora fértil em diamante; diferente de Mazoto, era um lugar que, apesar dos apesares, de alegria, no qual conhece Rosalenda, uma prostituta que o leva a adiar a sua volta à cidade de Luanda, por força das suas habilidades. Aí vive um ambiente de orgia que faz lembrar um hospício e momentos eternos de surrealidade que o levava a gastar toda a sua fortuna que, na verdade, não passava de kwanzas saídos de circulação há já um tempo, ao som mágico do músico Miguel Paris. Certo dia, estando a dormir, ouve a cadela a ladrar, sai e descobre a presença de Zé Perdido; persegue-o e mata-o. Com o processo de reconstrução nacional, Cacolombolo volta a ligar-se às outras cidades. Com isso, chega a administração e um juiz com sede de justiça que leva Candimba às barras do tribunal sob a acusação de assassinato de um homem, Zé Perdido, que afinal era da segurança do estado, e por espalhar dinheiro falso.

Foto de capa do escritor João Tala na sua página do facebook

Os eventos são-nos contados por um narrador bastante subjectivo que, insolitamente, oscila entre o homodiegético e o heterodigético, inicialmente passando a impressão de ser uma entidade intradiegética que primeiro observou e depois ouviu. Porém, a revelação de que «As noites são compridas em Cacolombolo (pág. 49)» fez-nos acreditar, por instantes, que o narrador era uma personagem que seguia o protagonista onde quer que fosse e poderíamos apresentar várias possibilidades para o revelar, e esbarrariam em nada. Estamos diante dum facto literário que nos obriga a folhar diversos manuais para ler teorias literárias inerente às categorias da narrativa e rever as questões que tem que ver com a nulidade do autor no plano da diegese – «Como continuar o conto não sei mais. As noite são compridas em Cacolombolo, caramba! (pág. 49)» –; esta não é, seguramente, uma daquelas passagens que nos aludem a figura do narrador, dirigindo-se ao narratário. Trata-se dum autor que, delirando, se insere no plano ficcional da narrativa que escreve, na medida em que «Cacolombolo» se configura apenas num universo ficcional do qual o senhor João Tala não faz parte.
O tempo cronológico transporta-nos ao ano 2002, altura em que Angola alcança a paz; o narrador faz, no entanto, diversas alusões ao passado colonial, fundamentalmente na fase de transição (pág. 33): ora ao longo da narração, interpondo recurso à analepse, ora servindo-se do pensamento das personagens. Esse processo técnico-compositivo, analepse, leva-nos a revisitar as primeiras eleições gerais realizadas em Angola, o processo de Lusaka e o fatídico evento do fraccionismo (pág. 34).

Os nomes podem justificar a personalidade. Um facto curioso em VIAGEM PARA O FIM é a dimensão metonímica dos nomes atribuídos às personagens. Acreditamos em figuras híbridas e podemos falar duma espécie de metonímia antitética ou mesmo irónica. Alguns nomes desta novela são deveras estranhos: Caridade e Honra, lexemas com um valor positivo, são paradoxalmente nomes de duas prostitutas que se vendiam por tão poucos kwanzas. Figuram ainda nomes como Zé Perdido e Rosalenda, nomes que por si só justificam e explicam a participação das personagens na diegese.

 

Um facto interessante, a reter, é que o tempo da história está relacionado inequivocamente com as vivências do autor. Tal afirmação pode ser justificada mediante a biografia do autor e alguns exercícios matemáticos. A novela evoca momentos antes da independência, a guerra civil e momentos que nos remetem aos primeiros anos de paz efectiva. Ou seja, ela decorre num espaço compreendido entre 1974 e 2004, tendo sido publicada em 2005. Ademais, João Tala nasceu em 1959,16 anos antes de Angola alcançar a independência, o que lhe terá permitido observar e reter alguns dados, que, seguramente, o ajudaram na configuração do universo ficcional. É como se diz: «cada escritor é produto do seu tempo». Outrossim, é que alguns eventos, contados pela personagem Zé Perdido, reportam factos de poucos anos antes da independência. Tal é o caso da «Revolução dos Cravos» que acabou por ter implicações significativas no processo de libertação das colónias portuguesas e, por metonímia, cá entre nós, é substituído pela data, «25 de Abril», referindo-se à queda, a 25 de Abril de 1974, do regime ditatorial que vigorava em Portugal desde 1933, regime autoritário de inspiração fascista liderado por António de Oliveira Salazar:

«O Perdido apoiava suas estórias com datas, tornando-as assim factos. Por exemplo, o vinte e cinco de Abril de setenta e quatro em Portugal,(…). Nessa altura – contava e já o conto ia longe – deflagrava a revolução portuguesa, o explodir da insatisfação (pág 32).».

Um outro caso tem que ver com os eventos que, por analogia, nos remetem ao período durante o qual já se fazia soprar os ventos da independência, 1974, altura em que alguns populares começaram a tomar de assalto lojas, residências e a atacar os cidadãos portugueses:

«De repente, não se sabe como passou o mujimbo, os pretos ripostaram, e os delinquentes entre eles assumiram o comando (Pág. 33).»

Cada povo pressupõe um imaginário, e Mazoto, a primeira aldeia em que o nosso herói se instala, apesar do isolamento, tinha as suas próprias convicções: eram pragmáticos – «nem os anjos voam; só se voa por bruxaria (pág. 37)»  –, no entanto Candimba, com uma cultura provavelmente de matriz judaico-cristã, «acreditava religiosamente em anjos (pág. 37)». Daí se depreende um conflito ideológico-cultural entre o animismo professado pela população nativa e o cristianismo de Candimba.
Um enredo vulgar pode dar origem a uma obra clássica. Falar-se de colonialismo, guerra fratricida e paz no contexto angolano é bastante comum. Por isso mesmo, muitas narrativas repousam em memória olvidada. Umas, pela inexistência duma crítica regular; outras, a maioria, por fragilidade no acto de enunciação da diegese. Não será, seguramente, o caso da novela em análise. Estamos diante duma literatura superior que luta para não ser anacrónica, em razão do leitor coevo que é fruto dum ensino com muitas limitações. A linguagem – repleta de tropos – e o modo surreal como conjuntura social interiorizada é exteriorizada são o que fazem dessa novela invulgar e bela.

«Viagem para o fim» integra a tradição literária angolana de literatura subversiva e lança um repto contra uma certa ideologia, porque

«o poder chegava vindo atrás dos candongueiros, pág. 53».