A crise gerada pela busca do conhecimento combinada com má educação e tecnologia mudou profundamente o modo de vida contemporâneo. De um tempo para cá, assiste-se um dos fenómenos angolanos revestido de pós-modernidade facilmente identificável: a personalidade sofrendo uma crescente interferência da autoridade institucional em consonância com a internet, jornais, televisão e outros meios de comunicação massiva.

Vê-se pessoas aparentemente normais e equilibradas, até então, em suas posições, tornando-se verdadeiros clichés quando surge um assunto, um tema, um facto recente ou milenar, imediatamente surge um iluminado com uma pronta-resposta bem à maneira de quem foi instruído para reproduzir como um manual do usuário, impondo a sua sensação de autoridade moral ao mal que cria dentro da sua cabeça, quando, na verdade, está apenas a pensar no óbvio, no senso comum ou em grupo. Vê-se que o iluminado se expressa não se preocupando com a exactidão daquilo que diz, mas com a mensagem subliminar que o receptor histérico possa atribuir ao conteúdo. O que denota, claramente, uma supremacia da comunicação à realidade..

A loucura deste método parte da genealogia do desastre, citado por Laio Brandão em “Analfabetismo e histeria” (https://laiobrandao.blogspot.com), dada à incompreensão da História da Filosofia, marcada por filósofos menos talentosos que não compreenderam a “coisa em si”, devido à incapacidade humana para apreensão da realidade operatória; da descrença na existência da realidade, levada às últimas consequências, pelo movimento céptico. Estes e outros factores contribuíram para a desconstrução da verdade, realidade e do princípio de identidade, transformando-os em inexistência, mas por meio de um discurso bem construído e divulgado, repleto de embustes retóricos e falácias, apelo à ignorância e emoção que consquiste a todos e faça-os enxergá-lo, este discurso, da maneira como o mensageiro quer. Então, quem negará que escravidão é liberdade, que ditadura é democracia e que os homens são biologicamente mulheres? É a força do discurso determinando, sobre a realidade, uma criação, moldando-a conforme as vontades súbitas dos falantes. Resultado: criam um mundo com palavras e crêem nas ilusões criadas por eles e neles se perdem. Os cépticos que são exemplos clássicos da tal prática, imbuídos de filosofias do desespero e da ditadura do relativismo, na ânsia de duvidar, caminham em direcção ao precipício com a intenção de demonstrar que este não estava lá, o que faz com que os indivíduos percam totalmente a noção da realidade operatória e passam a mover-se na virtualidade das palavras subjectivas, inconscientes, agindo de acordo com o que lhe dão para reproduzir.

Mas esquecem-se de que a verdade não se inventa, descobre-se e revela-se; e que a realidade operatória é feita de factos e não depende das palavras para existir e que o princípio de identidade não perde sua essência, passando pelo processo de mutação, caso contrário não notaríamos a transformação e, consequentemente, seria aniquilamento. Quem acredita na relatividade não tem consciência própria.

Sobre esse aspecto, chamamos a figura do professor, que, para Maestro (2017) “…tornou-se algo anacrónico no mundo actual. Onde a nossa sociedade não busca conhecimento, mas militância. A imposição pós-moderna do politicamente correcto torna-o um militante”. No caso de Angola concretamente, o professor foi substituído pelo militante, onde o nacionalismo joga o papel da docência, e a escola é o ninho onde se cria os discípulos. Os militantes-professores são referências nas universidades, nas comunidades/sociedades onde usam suas liberdade de opressão disfarçada em liberdade de expressão, para imporem suas vontades. Actuam contra um único partido, mas intitulam-se “apartidários”; exigem uma Angola livre, mas querem livrá-lo apenas das opiniões que divergem das suas; promovem revoltas e, geralmente, conversam como se ainda vivêssemos no contexto da guerra fria. Não lêem muito a respeito. Cá entre nós, contarei um segredo, mas que fique apenas entre nós, que é o seguinte: eles não gostam de ler, medem a espessura dos livros, movem o cursor até o final da página e, depois de analisar o tamanho do texto, decidem se farão a leitura ou não. Estão reduzidos ao pensamento raso: se não está com eles, está contra eles. É realmente o que se espera do mestre que ensina o seu discípulo a caminhar em direcção ao precipício e espera que este se segure no braço.

À vista disso, Laio Brandão explica: “nasce uma má educação baseada em falsos pressupostos, com premissas equivocadas, como um vírus que se alastra com a naturalidade de uma epidemia e realiza catástrofes homéricas. Recebida e assimilada voluntariamente por aqueles que confiaram suas inteligências a um falso instrutor” (https://laiobrandao.blogspot.com). Como consequência, o indivíduo se torna desequilibrado e cheio de convicções sem suporte na realidade operatória, vivendo na experiência subjectiva, levando-o à asfixia, à paralisia, à atrofia de consciência, à ignorância, à histeria e à alienação: eis o menu do politicamente incorrecto.

Uma calamidade que espontaneamente não ocorreria com tamanha desenvoltura, mas com uma educação isolada, especializada, mecanizada e “canonizada”, é a figura do perito que, sob a autoridade institucional, conquista livre acesso para delimitar a capacidade de qualquer um. Assim, as autoridades da sociedade em geral conspiram para confundir e impedir o verdadeiro conhecimento para o cidadão.

Agora, havendo necessidade de emendar-se e dever de educar-se, é necessário apostar na educação levada a cabo como um mecanismo plural que englobe um universo que paute não só a formação profissional, como também literária e cultural, que seja capaz de despertar a consciência intelectual da busca dos valores do conhecimento que se conjuga apenas na primeira pessoa que rastreia as origens das suas ideias, das opiniões, ponto de vista e busca saber das premissas que as orienta, fazendo desenvolver no indivíduo a noção de “quem é” e “por que pensa o que pensa”. Emanuel Sebastião nos adverte que devemos ter cuidado com as trilhas que seguimos nesta busca incansável pelo conhecimento, pois alguns labirintos podem fazer-nos esquecer a nossa essência: “Ao procurar percorrer o implacável caminho da busca pelo conhecimento, é importante velar para que não percamos a trilha do caminho que nos leva de volta a nós…” (http://palavraearte.co.ao/da-esplendida-alegoria-da-caverna-de-platao-a-tremendas-trivialidades-de-chesterton/). Caso contrário, ficaremos presos numa rede de regras e perspectivas que não dominamos e desconhecemos fazendo coisas de que não sabemos objectivamente o porquê.

Referência bibliográfica

Maestro, J. G. (2017). Crítica da razão literária. Editorial Academia Hispanismo.