O Movimento Litterágris, dotado de características bem peculiares e com propósitos claramente definidos e apresentados de formas eficazes através das suas manifestações artísticas no quesito literário, publicou a segunda edição da sua revista literária, AgrisMagazine, doravante denominada Tunda Vala.

A revista é o resumo anual dos trabalhos e principais concepções literárias do Movimento e faz transparecer a essência que traça perfil deste, ou seja, a Agristética – estética literária que guia o Movimento Litterágris. Tal perfil é facilmente denotado no editorial da revista e no manifesto, onde é referenciado de forma acentuada e se evidencia a intenção da RUPTURA com outras tendências literárias. Assim, com esse perfil tido como a base de todas as criações da revista, os autores tencionam agir como erupções intelectuais no campo da arte que abraçam.

 Primeira Secção: Poemas.

Nos poemas, de modo geral, nota-se, claramente, o tal perfil agristético no cerne das introspecções e exortações profundamente poéticas, partindo, por exemplo, dos desvios intencionais do poema “Oitavo Período”, seguindo-se um “Comboio de Infâncias” carregado de subjectivas nostalgias; uma breve revelação ao toque infame sofrido por África é lida no poema “Noites Mortas” que abre espaço a uma das mais fundas introspecções do livro, “Pedido de Morte”.

A mulher, “Ó Mulher”, musa inspiradora desde os poetas centenários, não se deixou em branco nessa obra e rompeu as entranhas da poesia agristética, como um “Talismã”, possivelmente por essa razão, numa mensagem insólita. Tal declaração de amor, de um jeito incomummente escrito, é homenageada no tema “Uma Carta ao Vento”; em seguida, lê-se, nos dezanove versos do poema “A Prostituta”, numa narrativa coerente e concisa, a história de uma mulher que se entrega aos prazeres sexuais em troca de algum paraíso monetário.

Seguindo a viagem pela leitura, vê-se o rematar das nuances da vida a desaguar em “Silêncios”, que provavelmente remontam os desejos pueris do poeta que se segue e que nos versos canta “Minha Deusa Abstracta”. No entanto, falando em divindades, mais a frente no poema “Mãe”, pode-se apreciar uma inédita referência a um dos maiores astros que iluminam o caminho da inspiração existencial de qualquer artista da palavra.

Assim como se espigam as gotas de vida das nuvens carnais, em “Deus Veste-se de Mulher” lê-se o erotismo metaforizado por um poeta nato; por outro lado, nos versos da poetisa que lhe sucede, no poema “Vozes do Além”, vê-se a angústia entre as palavras embrenhadas no sentimento que domou a escritora quando as fez brotar; já em “Prometo-te” é revelada, através da escrita do poeta, a promessa de um amor inverosímil.

Uma magnificente revelação da génese de um poeta é apresentada em “Humanus” e, assim, como uma ligação telepática entre poetas, o poema “O Ser de Não Ser Só” acaba levando a um prazer similar, pois lê-se a relação implícita entre o poeta e o seu sujeito lírico, como observado, também, em “O Cantar do Poeta”; em seguida, nas três estrofes de “100.000,00 kzs de Areia”, lê-se uma enfasada crítica social inspirada por um modo de vida deplorável.

A caminho do final da secção poética, o “Germinar da Minha Vontade” resume a expurgação de uma qualquer fúria vestida pelo poeta quando lastima pela esperança enclausurada. Por sua vez, o poeta seguinte releva-se como uma figura inexistente nas estrofes do “Páginas do Meu Poema”. É, entretanto, o poema “Fardo Leve”, que nos versos de comiseração, toca a badalada final da representação Agris-Poética.

 Segunda Secção: Contos.

Nessa secção, a viagem é destacada pelo conto de abertura, “O Coleccionador de Mulheres”, um texto com traços bem distintos e simultaneamente próximos da realidade, demostrando indícios indiscutíveis de uma narrativa que envolve o leitor. Embebido numa linguagem que mescla uma docilidade poética, fruto da sensibilidade do escritor, com dizeres suburbanos bem assentes numa Luanda fictícia, o resultado é uma viagem com mensagens ora claras ora subliminares, mas, acima de tudo, que acentuam a presença de um rebento artístico aprazível de se ler, embora, nalgum momento da trama, se sinta um encurtamento de pontos fulcrais da história, deixando lugar às asas da imaginação para preenchê-los.

O “Beijo do Travão”revela ser um conto cru, sem qualquer resquício de ficção, que assenta no Modus Vivendi de quem deambula pelas ruas e vielas da cidade, particularmente nos meios de transportes públicos. Um conto suburbano desde a história à linguagem, desde a narrativa à trama central, que releva vários personagens reais que se vêem entre si, se ouvem entre si, ou se ouvem falar pelas trilhas de Luanda desde os prédios altos da baixa da cidade até aos confins empoeirados ou enlameados dos subúrbios. Com referências geográficas e sociais, facilmente identificáveis ao longo da leitura, esse conto apresenta uma narrativa coerente e deixa patente a herança da oralidade enraizada no perfil literário angolano.

O estilo metafórico que carrega o Movimento é representado de forma bastante efusiva e consistente no conto “O Político e a Retórica”, em que, deslizando por uma narrativa contínua com pouco recurso a diálogos, o autor se incide nas incongruências do universo da política e dos olhos da sociedade para com os políticos. Para basear geograficamente a trama, recorre a uma concepção regional fictícia, bem como ao uso de termos inventados, especificamente, para esse conto, permitindo, por isso, verificar-se o carácter de uma escrita invulgar em que a intenção viva é uma manifestação contra o modo de se fazer política e de se lidar com o povo.

“Sem Nome” é o conto em que o personagem se revela sem identidade do primeiro ao último parágrafo. Num monólogo seco em que o narrador faz fluir uma autocomiseração espessa, o texto proporciona uma viagem inédita ao âmago da angústia provocada pela miséria. É, no entanto, um desabafo de um cravo condenado desde os primórdios da sua vivência ao descalabro existencial, assim como as rosas que brotaram do mesmo jardim de sua procedência, abusadas pelos primeiros que deviam, quiçá, ter-lhes estendido a mão. Não proporciona de qualquer modo uma leitura leve e, pela linha que segue, a mensagem no final revela que nem sequer uma vã esperança está do seu lado.

Dotado de uma narrativa que tem como base fortes referências históricas, “Kalombolombengo” é uma proposta em que o valor estético da escrita se emaranha na estória do bairro com referido nome desde as motivações da sua criação, que fazem a essência da trama, às complicações e desentendimentos entre os grupos étnicos e regionais que lá habitam, cada um buscando sobrepor o seu valor como membro da restrita sociedade. É um conto que evidencia alguma referência geográfica onde residem traços das várias rixas entre concidadãos que, por serem de regiões distintas, ao coabitarem no mesmo espaço, sempre procuram fazer prevalecer a sua natureza mais que a de outrem.

Encerra a secção de contos, o tema “Descer à escada da última poesia”, um testemunho solene de uma poetisa que se despede da vida e revolve toda a sua vivência nos seus últimos instantes em que luta pelo desbravar da inspiração para expelir um último texto, o seu testamento. A autora do conto procura envolver a angústia da personagem com cada linha das revelações de um passado insólito para o futuro certo, a morte. Uma carta de despedida de quem, no lugar de amores e desamores, se vingou da desgraça à sua inspiração e viveu fechada para os prazeres que a realidade lhe podia proporcionar.

 Terceira Secção: Ensaios.

A última Secção da revista representa o ápice do que é afinal a essência do Movimento. Do Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litterágris, CE3L, dois Ensaios são apresentados, com temas que são verdadeiras propostas para estudantes de literatura ou para qualquer outro que se interesse pela cientificidade literária. São os temas “Estatutos das Línguas em Angola – Um Problema” e “Do Spoken Word ao Conceito de Poesia Dita”. É nessa secção, em que o Movimento reitera com solidez as suas intenções no que concerne à acentuação na diferença, pois revela o carácter analista e crítico que não se vê em outros movimentos literários.

Logo de seguida, duas crónicas são apresentadas como bónus da revista, ambas descortinando, de modos bem peculiares na Agris-doutrina, a essência da revista e do Movimento, a ruptura. Segue-se, finalmente, um “Breve Dicionário de Definições Erróneas”, que leva ao baixar da cortina de um aprazível e incomum espectáculo literário.

Em resumo, ao longo da viagem pelo livro, percebe-se, nalgumas vezes, de forma clara, noutras bem subjectivas, a ideia da abrangência do perfil Agristético, como argamassa para construção do alicerce de um Movimento que se prevê adoptar uma solidez longe de qualquer vaidade mediática. Sem querer descorar os precursores da literatura angolana ao longo das várias gerações, mas também sem ficar a devê-los, os autodenominados Paravicultores gritam, nas letras de cada uma das criações da Revista TUNDA VALA, a necessidade da REVOLUÇÃO para, por um lado, desambiguar o cenário literário jovem e obliterar o prolongado vazio que abrange esse seio por mais de duas décadas e, por outro, dar a essa geração pernas científicas para se seguir um novo caminho e afirmar-se como uma nova geração de escritores que traçará o novo rumo para a literatura angolana.