Queria ter estado lá, quando fizeram o mundo. Eu, sentado onde fosse possível, a ver o nada a transformar-se em alguma coisa. Deve ter sido divertido para quem viu o nada a transformar-se em alguma coisa. Eu também queria ter visto, mas não fui convidado! Queria ter apreciado as coisas a ganharem vida. Como será que a primeira erva surgiu? Eu queria ter estado lá para dar a minha opinião, provavelmente, não seria ouvido, mas daria mesmo assim. Podia ter sido bom. Queria ter visto o crescer da primeira árvore e deleitar-me a sua sombra, deve ter sido sensacional para o primeiro que tirou uma soneca debaixo do primeiro embondeiro.

No dia em que fizeram, o mar podiam ter-me convidado para assistir, queria ter visto como era o mar sem um traço de poluição, cristalinamente limpo que até os recifes e os corais, de lá do mais profundo, podiam ser vistos de cá de cima. Queria ter visto o céu no seu primeiro dia. Tenho a certeza que não me passaria pela cabeça que, daí, a milhares de anos, a conversa de todos os dias seria um buraco que alguém fez na camada de ozono e que ninguém consegue mais tapar. Se estivesse presente nos primeiros instantes da origem do céu, tenho a certeza que veria nuvens límpidas sem terem absorvido ainda a acidez que vagueia hoje pela atmosfera. Decerto teria sentido a sensação de que haverá sempre amanhã, sem ter que me preocupar se algum dia o sol voltará ou não a brilhar.

Queria muito ter sido convidado quando fizeram o mundo, só para ver algumas coisas na sua naturalidade, sem antes a mão do homem ter dado lá um toquezinho para melhorar, mas, na verdade, ter acabado por criar o princípio do fim. Aliás, não seria nada mal se me tivessem chamado quando fizeram o homem. Se calhar, podia ter conseguido coagir a não lhe darem vontade própria, assim tudo seria segundo os parâmetros de quem o fez. Se tivesse estado lá, quando fizeram o homem, pediria para lhe ensinar a tomar só o necessário para a sua sobrevivência, assim não haveria quem quisesse ter tanto que não deixava mais nada para os outros, de certeza que, com isso, não teríamos uma África como ela é, a mãe que amamentou o mundo, mas, até hoje, sente o mau agradecimento desse filho bastardo, que se formou e se firmou e não mais quer saber de onde saiu, deixando-a simplesmente ser a África. Se tivesse estado lá quando traçaram o seu destino, pediria para que o fizessem um pouco mais para esquerda do que esse que o fizeram, nem mais para cima e nem mais para baixo.

A sério, queria ter estado lá no dia em que decidiram mandar-me para esse lado. Gostaria, pelo menos, que me tivessem perguntado, se eu queria vir para esse mundo cheio de coisas desagradáveis para se ver, viver e sentir. Queria ao menos ter tido a oportunidade de pedir o curriculum vitae de muitos dos que nele fazem parte. E, a propósito, não seria nada mal ter recebido uma carta de recomendação de muitos deles, para seleccionar quais fossem e quais não fossem acompanhar-me nessa viagem longa e jornada imperfeita, chamada VIDA.

Fui seleccionado para o emprego de viver mesmo sem ter-me candidatado, e, no contrato, o tempo é indeterminado. Não me deram a oportunidade de ter visto, lido e discutido todas as cláusulas que dele fazem parte, e o pior é que nem sequer assinei esse tal contrato. Por isso, dói-me muito ter a certeza de que, da mesma forma que fui admitido para esse emprego de viver, serei demitido sem sequer a minha opinião contar.

Queria apenas…