“Não importa o que vai fazer, hoje é o seu último dia.”

O que foi que fiz eu de errado? Por que tenho recebido SMS como esta, o dia todo? Será o artigo que publiquei na internet? Será por causa das palavras que proferi na reunião dos escritores? De qualquer jeito, merecem… Meu amigo publicou um livro e não teve o apoio, muito menos o reconhecimento que merecia. Por ser do bairro…?

Devia ter ouvido a minha mãe, não devia falar de política ou coisas parecidas, não mais.

Agora estou aqui, sem eira nem beira, moribundo e aflito.
– Eiii… Olha por aonde anda! – Gritou para mim, alguém que… nem reparei direito como era. Estava mais preocupado em recolher o teclado do meu iPad que se desligara deste e caíra aquando do choque de ombros com a única pessoa que se cruzou comigo nos últimos cinco minutos em que eu vagueava pela cidade, fugindo de tudo e de todos.

– Merda! – As ruas parecem alagadas. As chuvas no meu país são mais fortes do que os partidos políticos da oposição. O meu teclado se molhou todinho. O bom é que este novo teclado para tablets da empresa da maçã mordiscada parece impermeável. Enxuguei a água no exterior e continuei andando, apressado.

Havia dois senhores de roupa preta e de boné, de pé, ao lado de um carro preto parado, bem na direção para que eu ia. Alterei o meu trajecto e entrei na esquina que dá a um bairro cheio de vida, porém, de ruas sem asfalto e sem esgotos. Falar de saneamento básico ali dá no mesmo que falar de Júpiter.

O novo programa de reconstrução de Luanda, capital de Angola, prevê demolição de todo este bairro. Para além de estar situado no centro da cidade e dar mau aspecto ao novo projeto de urbanização, a polícia diz ser ali de onde sai a maior parte dos ladrões que têm infernizado a vida da população nos arredores. Este é um daqueles lugares parecido àquelas favelas cariocas, próximas à Copacabana.

Ao contrário do que diz a polícia, em lugares como este nascem as pessoas mais criativas da cidade. Dos artistas mais versáteis e criativos aos atletas mais craques e dedicados.

Querem demolir um bairro inteiro sem se quer arranjar um lugar decente para colocar a sua população. Enfim, não é da minha conta, eu nem devia estar pensando nisso de novo.

Devia ter ouvido a minha mãe, não devia falar de política, para isso preciso parar de pensar no que eles fazem ou deixam de fazer.

Família unida de Salanga

A esta hora da noite, eu costumava estar em casa, normalmente lendo, escrevendo ou assistindo a um ou mais capítulos das minhas séries favoritas. Parece perigoso morar sozinho, devia ter ouvido a minha mãe. Ela insistiu que eu ficasse com ela na mesma cidade, mais tranquila, em casa da família. Mas o meu instinto masculino é naturalmente atrevido e, com o passar do tempo, cobra liberdade e independência. Ela mesma lia para mim, com frequência, Marcos 10, e, desde então, tenho em minha cabeça o versículo 7.

Havia uma festa no bairro. Cansado de andar, com sede e fome, decidi entrar nela. De alguma forma estava lá eu no meio da festa, sem receio algum, comendo apressado.

Quando pousei o prato para beber, reparei que estava todo mundo a olhar para mim.

Deve ser das minhas vestes molhadas ou talvez seja por causa do meu enorme tablet entre o meu tronco e o meu braço direito. Olhei para a mesa à direita, havia um bolo caseiro, fez-me lembrar a minha mãe. Havia um outro ao lado, enorme e com velas por cima, obviamente era uma festa de aniversário.

Dois senhores de tamanho XXL, que pareciam a reencarnação de Golias, seguraram-me pelas mãos e me levaram com eles. Como eles me acharam!?

Do lado de fora, no meio daquelas duas muralhas em pessoa, uma senhorita elegante e cheia de vida chegou perto e me entregou o meu tablet, nem tivera dado conta que caíra.

Dava para perceber que ela assumira com orgulho a sua negritude. As roupas que ela usava, iguais às de telenovelas brasileiras, não lhe impediam de assumir os seus cabelos afro. Era negra, linda e de carapinha duríssima. Missanga de modelo africano pendurado em seu pescoço magro fazia ela se parecer com a Nefertiti. Por um instante, fez-me voltar aos manuais de história africana do meu pai e lembrar a Rainha Ginga Mbandi. Se não estivesse apressado, até me apaixonaria.

– Não devia penetrar em festa alheia sem ser convidado. Podem deixá-lo ir. – Disse ela. Eu sorri para ela, ela não sorriu de volta, fez cu doce, porém tinha o olhar de quem queria me ver sorrir de novo. Um dia ainda voltarei para aqui e tornarei a vida dela, junto da minha, num conto romântico digno de ser lido.

As duas muralhas que me cercavam voltaram para dentro da festa. É indecente entrar em festas sem ser convidado, devia ter ouvido a minha mãe que sempre me aconselhou a não ter atitudes como esta. Por um instante, pensei que fossem os senhores do carro preto.

O pessoal dentro da festa começou a cantar, era o hino dos aniversários “Parabéns Para Você”. Três segundos depois, um apagão envolveu o bairro inteiro, as pessoas na festa pararam de cantar. Houve um corte na luz. É incrível como em pleno século XXI a distribuição de eletricidade continua sendo um problema enorme no nosso país. Que Deus nos acuda! É melhor eu ouvir os conselhos da minha mãe, e não mais reclamar de coisas do género.

O truque do escuro é usado em Angola desde a época colonial. No escuro o povo não vê, no escuro o povo não lê, no escuro o povo dorme cedo, no escuro o povo não interage virtualmente e nem assiste noticiário.

Bendita hora que a minha mãe se tornou o amor de infância do meu pai, e casou-se com ele quando adultos. Graças a eles, tivemos uma moradia em um condomínio particular, onde a luz vai menos que nos bairros. Aproveitava e passava várias madrugadas em claro. Vi e li todo tipo de notícia. Viajei, virtualmente, pelo mundo inteiro. Estudava e devorava livros enquanto parte da cidade dormia e, assim, ganhei o dom das palavras.

Senti-me humanamente capaz de inspirar outras pessoas, principalmente os meus amicíssimos lá do bairro que não leram o que eu tive o privilégio de ler. Por isso é que padecer calado comigo não resulta. A minha cama confortável parece um jardim, cheirando a rosas, mas cheia de espinhos quando penso que o meu amigo no bairro ao lado não dorme em noites de chuva, porque a sua casa pode ficar inundada ou mesmo até ser arrastada.

Devia ter ouvido a minha mãe… Agora estou aqui, sendo caçado por causa deste domínio que adquiri, o domínio das palavras.

Faz 14 anos que terminara a Guerra Civil no país. Aquando da assinatura do acordo de paz, em 2002, o povo pensou que ganhara democracia total e liberdade de expressão. Pouco diferente do período da Guerra Civil, em Angola, as palavras continuam sendo perigosas; proferi-las com cuidado é quase garantia de vida.

A iluminação dos faróis, que irradiavam que nem a claridade que vem do alto ao meio dia, me trouxe de volta à vida, saí do bairro. O carro preto estava lá, desta vez em movimento. Não devia ter saído do bairro, pelo menos lá eles não têm como me perseguir de carro. Há buracos por todo o lado. Não fui a tempo de escapar de novo. Prenderam-me.

Devia ter ficado com a minha mãe.

Dentro do carro, no assento de trás e entre duas torres em pessoa, eu tentava, sem sucesso, gritar quando uma voz suave, no assento do lado oposto ao do motorista, falou:

– Não precisa gritar. Não importa o que vai fazer, hoje é o seu último dia. – Fiquei mais preocupado ainda, era a frase da mensagem.

– Estamos aqui para ajudá-lo, Mandume. A partir de hoje, as tuas palavras ganharão asas. – O motorista, mais sério do que os outros, começou a falar:

– Ouvimos o que você falou naquela pouca vergonha de reunião. Ouvimos os teus discursos nas escolas dos bairros. Achamos que podemos levar as tuas palavras para mais além. Somos os Literatvs. Mas xiuu… – Colou o indicador sobre os lábios. – Não conte nada a ninguém. Temos uma proposta.

Contou-me com detalhes e me tornei fã do projeto de imediato. Disse que fui chamado, mas que precisava cumprir certos desafios. Fez-me lembrar Mateus 22:14: “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. Não sei porque vivo lembrando esses versículos. A minha mãe, de certeza, tem grande influência sobre a minha vida. Faz tantos anos desde a última vez que fui à igreja, mas ainda assim me lembro de cada palavra. Ela me dizia para não me meter com estranhos, mas foi ela mesma quem vivia dizendo também que quem não arrisca não petisca.

– Está interessado? Perguntou para mim um dos senhores.

– Estou interessadíssimo. O que devo fazer? Qual é o próximo desafio?