Já estamos em 2018, mas fica difícil esquecer o ano de 2017. Pois dizem que o passado é para ser esquecido, mas diríamos que é para ser usado como meio de aprendizagem no presente e perspectivar o futuro. E é com este propósito que devemos voltar para o passado ano da famosa crise e aprendermos com os erros e principalmente com as superações que foram necessárias para que não caíssemos numa depressão de valores, que até já é nossa parente há anos. Por incrível que pareça, as maiores superações resultadas da necessidade de adaptação à crise vieram de um dos sectores que menos atenção recebe do executivo e da sociedade em geral.

Em quanto o sector do comércio lutava com o Banco para encontrar divisas para importar os produtos necessários para alimentar o país, e, por conta disso, empresas se fechavam, empregos se perdiam, a cultura, sem precisar de importar mentes, corpos, imaginação, produziu mais do que se podia esperar. Pois, se este sector, mesmo no tempo de algumas vacas gordas, era visto por binóculo pelos olhos institucionais, era previsto que tivéssemos um dos piores anos em termos culturais.

Porém, mesmo sem dinheiro, os artistas, os promotores culturais e artísticos e todos aqueles que se sentiam responsáveis por esse sector, revelaram-se capazes de não se deixarem mover apenas pela fama fácil proporcionada por uma elite que se recorda que existe arte e cultura nacional para benefício próprio. Ou seja, o ano da escassez de quase tudo foi para a arte e cultura o ano em que estas foram movidas por elas mesmas, isto é, a arte moveu a arte e a cultura moveu a cultura, e da escassez veio abonança criadora. Isto responde, na nossa visão, à pergunta “o que move o artista” ou, neste caso, “o que moveu o artista”.

O supracitado mostrou também que os fazedores da cultura acabaram por mostrar que não precisam dos milhões aplicados nas estradas, no geral, nas obras públicas, para produzirem e contribuírem para a economia que até agora continua a ser-lhe madrasta. Não podemos tapar o sol com paneira, nem seria possível, porque foi estrondosa a quantidade de actividades, eventos culturais e artísticos tendo em conta a falta de dinheiro. Mas produzimos. De uma forma paradoxal, a arte e a cultura deram à economia o que há anos mendigaram à mesma.

Depois de tantas evidências do que a cultura é capaz, provando que pode contribuir para o crescimento económico – sendo a maior preocupação no momento – e para o caduco problema de resgate dos valores culturais, perguntamos: e agora? Continuarão a olhar para os artistas como se não fossem capazes de contribuir, como se fossem meros pedintes? Seja como venha a ser o novo ano de 2017, se seremos olhados ou não, a verdade é que, evidentemente, continuaremos a produzir e, com isso, bofetadas sem mão levarão as instituições a fins.