Há homens que não morrem

Dotado de uma perícia singular, Moisés Kafala diviniza-se na harmonia poética ao trovar Agostinho Neto. Não é por mera coincidência que a poesia é a arte suprema. Nem é por casualidade que ela é a ciência dos deuses. É exactamente por isso que ela superabunda a mitologia dos mundos.

O poema, quando musicado, costuma ter sabor a incenso, derramado no luar da beleza de Nzinga a acalmia do bater de ondas no ritmo latente dos nossos sentidos. Abre-nos as portas celestes, sobre o vislumbre das acácias rubras, nas avenidas silenciosas da liberdade. Tão livres, tão abertos, doce é o louvor.

O som de uma flauta recria tudo, na harmonia do relacionamento humano. A flauta sorri em voz alta. As estrelas cintilantes têm os lábios pintados de felicidade. O poeta, como um demiúrgico dos sentires, recria o amor, a partir das “feridas que não cicatrizam”.

Mas os olhos encharcam-se no “Amor suspenso”. Setembro tatuou-nos a nostalgia, num estranho e sombrio mistério. Os caminhos descruzaram-se diante da fuga à realidade. Os sentidos inverteram-se e o “pranto afoga-se no mar”.

Setembro apenas germinava. Suspendeu-se. Uma flauta partiu no mínimo e no intenso distanciamento dos zénites ante a terra da promissão. O suspiro oscilava entre o bater trémulo do pêndulo. Desequilibrou-se e evaporou. Ausentou-se. Silêncio. E mais outro silêncio. E a vara-flauta distancia-se da harmonia do cosmo. A luz ruiu. Tudo recomeça a “sangrar”. E outra vez o suplício, o “crucifixo”.

Morrer é humilhante, ainda mais quando se é artista. Talvez seja por isso que, apenas, morrem os homens e não os artistas. O homem é esquecido, mas o artista não.

O artista representa a transubstanciação. Está sempre em metamorfose. É essa mutação de formas e de lugar que anula o tempo e o espaço. Não existe tempo e espaço em arte. Digamos, até, que o tempo é um estorvo para a arte. Se não há tempo nem espaço, então, não podemos falar em morte. Há reinvenção de tudo em que tudo se anula e os seres “entre-são”. Portanto, o artista é intemporal, e por isso o seu canto é eterno e o poeta eterniza-se no seu melhor canto.

Entre nós, Moisés metamorfoseia-se em orfeão da grande boda celeste. Nem Orfeu (o «mais músico», o «mais filósofo» como o caracterizou Ateneu) iguala-se a ele, a este cisne da música angolana.

Moisés é símbolo de resistência. Lutou até que já não restava sopro para sua flauta. Ainda assim, depois de “arremessar o lenço” e carregar “o crucifixo” sobre “caminhos cruzados”, de voltar a ver, com angustiante saudades, as “acácias rubras e vermelhas”, levanta-se altaneiro sobre todas as fraquezas humanas e faz a sua voz ecoar para lá dos limites sensoriais. E o poeta revive. Com ele o homem. Ambos atingem a eternidade.

Moisés Kafala, com sua música, se abstém deste mundo de caos e coisas e vai habitar no mundo dos símbolos e do mito. Um mundo que não obedece aos critérios universalmente aceites. Num mundo onde a voz dos instrumentos «protomorfoseiam-se» na grande orquestra, abre-se ao «trans-horizonte» na luz do seu silêncio melódico.

Torna-se difícil desenhar, com exatidão, as feições de Moisés Kafala, traduzido no amor múltiplo, apaziguador e penetrante, na serenidade do seu afecto, na cristalização do seu humanismo, na heterogénea presença da sua mansidão. Fica difícil definir a sua ternura, por esta terra, pela qual deu a aurora da sua manhã, até atingir a noite de constelações.

Ainda que queiramos escrever a história de diversas maneiras, ela terá início, exactamente, no ponto em que nos habitastes a alma e nos fizestes “sentir a liberdade da poesia, livres como o vento.”

Ainda que queiramos pôr um ponto final, julgando ser o teu fim, tua melodia trar-nos-á a proximidade de tudo. Ainda que queiramos chorar, teu canto apagar-nos- á a mágoa. Far-nos- á lembrar … Far-nos- á… dizer… há homens que não morrem, transcendem.