No presente artigo, pretendemos fazer uma incursão no interior de dois poemas (“Augusto Ngangula” & “Toque Filosofal”), os quais, pelas suas conotações, ousamos designá-los por “poemas contundentes” e, também, procuramos saber se é possível, ambos os poemas, carregarem marcas de heroificação de dois meninos angolanos: Ngangula e Rufino. São textos dos escritores angolanos Costa Andrade e Lopito Feijóo, sediados nas obras “Poesia com Armas” e “Imprescindível Doutrina Contra”.

Como é sabido há muito, muita boa gente das letras define poesia como algo que se define por si ou indefinível. Em nosso conceber, a poesia é um instrumento de exprimir alegrias, tristezas e, de igual modo, lamúrias. Destarte, os poetas encerram em si o dever e/ou o direito de dizer verdades, mentiras e fingimentos, seus ou das suas sociedades. Na baila do Dicionário Electrônico Houaiss da Língua Portuguesa (2001), HEROIFICAR é (I) dar proporções de herói a; engrandecer, glorificar ou (II) incluir entre os heróis; elevar à categoria de herói. Ainda, segundo o mesmo dicionário, um HERÓI é (III) um mortal divinizado após sua morte; semideus ou (IV) um indivíduo notabilizado por seus feitos guerreiros, sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade ou (V) indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum (p. ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem. Tendo em conta os vários semas que a unidade lexical Heroificação ganhou, ao longo dos tempos, desde o século XVII, é nosso desígnio empregá-la, neste ensaio, no plural, Heroificações, carregando, deste jeito, os significados de actos literários de heroificação (coragem, desejo, exaltação e exultação) conseguidos pelos dois senhores poetas nos poemas aqui descodificados:

  1. Augusto Ngangula (Andrade, 2004): Quero ver aqui junto deste herói silencioso aos 12 anos os homens que olham de pé para a igualdade dos homens. Quero ver aqui sobre este chão manchado do sangue de um jovem de 12 anos as mães dos meninos livres da mesma idade. Quero ver aqui junto deste corpo desfeito a dissonância dos que gritam contra a guerra aqui junto ao peito corajoso dos que morreram aos 12 anos os que falam de amanhã e prometem horizontes. Quero ver aqui os homens que entendem os espaços e acompanham os voos cósmicos e transplantam corações e decifram a electrónica do som e cantam estraçalhando os diapasões e pintam desígnios e ideologizam as causas frente a este corpo esfacelado aos 12 anos. Aqui junto desta criança decepada aos 12 anos quero ver os mares os lagos e os palmares e barquinhos de papel. Aqui as armas de todas as origens solidárias da certeza das estradas e da vida. Eu quero ver aqui junto ao corpo frio que sorri aos 12 anos meninos com lápis e cadernos para que aprendam a escrever-lhe o nome simples. E despido enfim da raiva dos rochedos o dia se preencha de canções de roda sobre o verde sempre jovem em torno à pedra erguida que recorda.

No poema supracitado, “Augusto Ngangula”, o eu-lírico, carregado de sofrimentos, procura dar a conhecer a morte de um menino de nome Augusto Ngangula, tendo o desígnio de evocar os elementos naturais e as pessoas (angolanas) a concentrarem-se em volta do cadáver do menino, enfim, seu desiderato é de heroificar o jovem Augusto Ngangula. Segundo algumas nossas pesquisas, na obra “Poesia com Armas” (2004), de Costa Andrade, Augusto Ngangula é/foi um menino, pioneiro do MPLA, assassinado aos 12 anos de idade, no dia 1 de Dezembro de 1968, a golpes de machado, por um comando fascista português a quem recusou informar-lhe o local da sua escola e do destacamento guerrilheiro. Ora, não olharemos o poema supramencionado numa perspectiva hermética, mas sim num ângulo hermenêutico. Vide: eu quero ver aqui/junto ao corpo frio que sorri aos 12 anos/ meninos com lápis e cadernos/ para que aprendam/ a escrever-lhe o nome simples/ em torno à pedra erguida que recorda. Portanto, vistas as conotações do poema com uma visão enciclopédica, concebemos que o sujeito poético, no poema, denuncia o acto bárbaro, como o rapaz Ngangula foi assassinado por aquele comando fascista português e, convocando as mães dos meninos livres da mesma idade, os homens que olham de pé para a igualdade dos homens e os que falam de amanhã e prometem horizontes, glorifica o eterno menino Augusto Ngangula, tornando-o um dos heróis do povo angolano.

Desvendada a estacada do sujeito poético do poema “Augusto Ngangula”, vamos adentrar o útero do poema “Toque Filosofal”, de Lopito Feijóo:

  1. Toque Filosofal (Feijóo, 2017): Logo existo. Resisto e insisto. Só sei que nada sentem. Deparam. Disparam e mentem. Reparam. Separam e dá nisto. Um fino fio de água feito rio. Um corpo carpindo cheio de frio. Fonte de luz e desvario. Do mais estranho compadrio. Rufino António é uma chama. Seu espírito inflama. Proclama O porvir doutra gestão. Eis a questão. Que agora estamos com ela. É CONFISSÃO!

Nesse, o poeta andarilho, Lopito Feijóo, desenha um sujeito poético muito contundente. Um eu-lírico que não quis deixar com que a morte do menino Rufino passasse de forma normal, como muitas outras mortes que têm acontecido por Angola fora. Este mesmo eu-lírico, bicefálico (lesse com duas cabeças), mescla uma visão do presente e outra futurística.

Atentemos: Registo. Logo existo. Resisto e insisto/ Só sei que nada sentem/ Deparam. Disparam e mentem. Com os versos aqui apresentados, é possível notarmos a contundência do eu-poético que tem o intento de registar os males de quem governava e, concomitantemente, resistir aos ataques dos verdugos, daqueles que ele insiste que nada sentem. Por outro lado, vê-se uma visão profética, de tempos áureos em Angola, quando o sujeito poético confessa: Rufino António é uma chama/ Seu espírito inflama. Proclama/ O porvir doutra gestão.

O que sabemos sobre Rufino António é que foi um humilde fedelho, morto por, simplesmente, ter reclamado a respeito da demolição da casa dos seus pais. Em verdade em verdade, é este acto heróico que penetra o imo do sujeito lírico e leva-o a tecer versos que encerram eternas verdades sobre uma fase da nação angolana e o desaparecimento de uma alma jovem. Assim, ao cantar que Rufino António é uma chama/ Seu espírito inflama. Proclama/ O porvir doutra gestão, o sujeito poético heroifica o jocoso menino Rufino António.

À guisa de encerramento, resta-nos dizer que, em poesia, não basta os jogos dos sons, as figuras de estilo e os ritmos, a poesia tem que ter o condão de encerrar em si verdades sobre um mundo existente dentro do mundo, ela tem que ser fonte de mistérios. Outrossim, nos dois poemas, “Augusto Ngangula” & “Toque Filosofal”, o Ndunduma We Lépi e o poeta Andarilho (outros nomes com que os poetas são tratados) eternizam e heroificam dois jovens meninos no meio de nós, elevando-os à categoria de heróis do povo angolano, e tornando verdadeiro o que Paul Éluard, certa vez, disse: “O poeta deve ser mais útil que qualquer outro cidadão da sua tribo, e a poesia não deve ser um objecto de arte mas um objecto utilitário.”

Bibliografia

ANDRADE, C. (2004). Poesia com Armas. Luanda: Maianga Edições
FEIJÓO, L. (2017). Imprescindível Doutrina Contra. Lisboa: Rosa de Porcelana Editora
INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS (2001). Dicionário Electrônico Houaiss da Língua Portuguesa. (versão 2.0b). Rio de Janeiro: Autor