Já não é novidade para ninguém que a crise financeira, que assola o país, faz algum tempo, tem obrigado a fortes restruturações em diversas áreas da sociedade, se não em todas. Sabe-se, também, que essa mesma crise tem sido usada como a principal desculpa, estupidamente esfarrapada, vale sublinhar, para o emagrecimento ou cancelamento de projectos, actividades e prémios que promulgam a arte, a cultura ou outros. Qual dos referidos casos é o mais comum, não cabe aos meros mortais, como nós, julgar, porém, também não nos impede de expressarmos alguma opinião sobre o paradigma actual nas áreas do saber, da preservação e expansão da identidade artístico-cultural. Ninguém precisa ser um exímio analista para perceber que a dita crise parece não ter afectado grandemente o quesito da música.

Não precisamos enumerar as obras discográficas que agrediram o mercado no ano transacto, tão menos os tantos eventos que prestigiaram a referida arte. Tanto como isso, os prémio anuais, novos e velhos, e os apoios que indubitavelmente deram o ar da sua marca. A trienal, ao longo do referido período, rendeu centenas de eventos com e pela música no palco principal. Mas quantas, perguntemo-nos sem receio, feiras de livros ou outro tipo de actividade com implicações literárias prestigiou?

Disse Ernesto Che Guevara: Um povo que não sabe ler nem escrever é um povo fácil de enganar. Na verdade, tudo o que se apresenta neste artigo mostra que,  como não é dada a devida importância à educação, a literatura é carcomida no mesmo diapasão. Ou seja, a falta da importância que se dá às fontes de desenvolvimento intelectual reflecte que neste país as mesmas não se encontram com a importância desejada para o engrandecimento de uma sociedade. Vê-se, por exemplo, nos prémios de literatura dos PALOP, a diferença de quantidade e diversidade de géneros que existem nos outros países. Enquanto uns ostentam dezenas, com géneros mesclados e apartados, nós, de meia dúzia não passamos, quase todos generalizados e, nalguns, o prestígio, se o tiverem, é posto em causa por se verem envoltos ora em polémicas ao longo do seu processo de avaliação ora com a falta de transparência que os rege.

Sobre os prémios realizados em 2017, começámos o ano testemunhando, através de alguns órgãos de informação, que devido à falta de condições financeiras, não haveria a edição 2016 do Prémio Sagrada Esperança. No entanto, dias depois, ouvimos a Ministra da Cultura a contradizer e a reafirmar que haveria, sim, a avaliação das obras e a premiação do vencedor, o que realmente veio a acontecer no final do ano, saindo galardoado o escritor Alberto Oliveira Pinto com a obra “Imaginários da História Cultural de Angola”. A 17ª edição do Prémio Nacional de Cultura e Artes galardoou na categoria de Literatura o escritor António Fonseca. O Prémio Literário António Jacinto 2017 foi o que certamente apresentou a maior repercussão entre a imprensa, redes sociais, fazedores de literatura e grande parte da sociedade jovem, devido ao seu vencedor Ibinda Kayambu, pseudónimo literário de Hélder Silvestre Simba André, com a obra “Enviesada Rosa – Poesia Erótica Africana”. O que não aconteceu foi o Prémio Sonangol de Literatura.

O que sabemos sobre economia e finanças, pouco ajudou-nos a perceber, com claridade, como a queda do preço do barril do petróleo afectou de forma abrupta os pilares da nossa sociedade. Foi, entretanto, o cancelamento do prémio de literatura mais prestigiado que o país já conheceu, o prémio Sonangol de Literatura, que nos deu luzes sobre como a crise realmente tinha caído como soco no estômago de algumas áreas sociais. Tal como referido no primeiro parágrafo desta abordagem, se o referido cancelamento, temporário ou definitivo, parece que ainda não se sabe ao certo, seja vítima de uma restruturação forçada ou desculpa esfarrapada, com ou sem julgamentos, obriga-nos, assim,  como a todos que se importam com a literatura, a tecer alguma opinião sobre o assunto, pois é evidente o vazio que deixa o referido concurso, que lançou grandes nomes da nossa literatura.

“A crise nos oferece a dádiva da saturação. Quando não se tem caminhos para onde seguir, é a altura ideal para se inventar”, afirmou certa vez o analista de arte e ensaísta Isis Hembe de Oliveira. É, pois, em tempo de crise da literatura, como esta que vivemos, que vemos surgirem ideias das mais geniais às mais inesperadas possíveis. Em relação aos prémios, vimos a acontecer no ano transacto os Prémios Jovens da Banda, que ao longo da premiação, sem serem apresentados os critérios de selecção, aliás sem serem citados os devidos concorrentes à referida categoria, saiu galardoado o escritor Job Sipitali, com a obra “Raízes Cantam”.

Sublinhando de forma ainda mais criativa o pensamento sobre a (re)invenção em época de crise, vimos surgir o concurso “Miss e Mister Literatura”, que apenas o magnífico deus das Letras deve saber o que uma coisa tem a ver com a outra que, até aqui, ainda não nos fez perceber como classificá-lo. Pois, segundo os preceitos de Concurso de Literatura, o acima referido certamente não se enquadra em nenhum dos que conhecemos. Sobre este concurso, que por acaso mereceu reacções e ovações de diversas personalidades, ligadas ou não a literatura, bem como apoios de instituições credenciadas, como foi o caso da Fundação Dr. António Agostinho Neto, que, inclusive, doou livros ao comité de organização do referido evento, estou ansioso para ver as próximas edições, quanto tempo há-de sobreviver, que inovações hão-de colocar nos itens de qualificação e, quanto mais não seja, quando será apresentada a proposta para a sua internacionalização. Talvez seja este o quesito que falta na nossa literatura para atingir os mais altos patamares da literatura africana ou, quiçá, da mundial.