Tenho uma vida sedenta de sabedoria. Aprender a toda hora para mim é tão obrigatório e saudável quanto respirar, porque um maremoto de “porquês” habitam na minha torga e acredito que, enquanto tiver vida, eles ainda continuarão a fazer furor. Quiçá quando eu partir desta para a outra, terminarão. Mas é bom que o aprender seja contínuo e a busca pelas respostas das perguntas “estúpidas” da vida continuem a tilintar a minha vida que, uma vez vivida com vida, tarda a chegada da outra vida sem vida.

No âmbito da busca de saberes, fui conhecendo pessoas que hoje as considero como arquitectas de pensamentos e personalidade. Pessoas com enormes capacidades de discernimento e argúcias agudas que me encantaram e continuam a encantar. Sempre que posso, pergunto qual é o segredo. Obtive várias respostas, muitas delas insatisfatórias, até que uma, em particular, chamou a minha atenção:

“O segredo, não é nada de extraordinário; simplesmente, tenho que abandonar o improfícuo, as amizades infecundas e passar a fazer amor com o que vale a pena: a sabedoria e o conhecimento”.

“Amizades infecundas?” Preferi entender o conselho como referindo-se a nada que não me ajude a crescer. Assim o fiz. Passei a ler mais. E desde já devo admitir que tenho leitura em atraso, não porque não goste de ler, mas porque não tinha referências de literatura profícua. Eu não leio qualquer coisa.

Perguntando a outras eruditas personalidades que mais livros lêem ou que livros devia ler para que me tornasse escravo da literatura, foi-me citado os “Clássicos da Literatura Angolana” como um leque de leitura obrigatória.

Desloquei-me a um dos supermercados que comercializam sabedoria (livros) e para adquirir o que me foi alvitrado porque, para mim, a leitura de um livro é mais saborosa quando nos pertence, e mesmo sabendo que há livros que não custam o que valem.

Deparo-me com os tais clássicos da literatura. Alegria no coração. Parecia o nascimento da minha filha e comecei a rir como se uma moça me tivesse dito “sim”. Os livros nem estavam, sequer, apreçados. Pouco me importei. Era literatura angolana e clássicos, aspecto que preço algum dê valor. Peguei uns 20 livros.

No caixa, estava prestes a ser atendido por uma moça de vinte e poucos anos de idade. Embora calada espelhava inteligência.

Ao vê-la a registar os livros, fiquei feliz, por constatar que cada livro custava “apenas” 500 kzs. Maravilhado, dirige-me para ela, dizendo:

“500 kzs por 1 livro considerado Clássico da Literatura Angolana? Não sei porque os nossos jovens não lêem”.

Ela olhou para mim e resmungou:

“Achas que vou comprar um livro com 500 kzs? Com este valor compro uma sandes e uma Coca-cola”.

Assustado com a resposta, paguei o que me competia e saí do supermercado com a resposta da moça batendo como sino na minha cabeça. Achei um absurdo, mas depois caí em mim e vi que ela tinha razão. 500 kzs, para mim podia ser pouco para uma refeição abstracta eterna, mas para ela é o valor de uma refeição física “degustante”. Reflicto: de que lhe adiantaria ler com fome?

Admito: Aconselhar um esfomeado físico-estomacal a ler, é querer ouvir ofensas do tamanho de um repolho, mas com dor moral do tamanho de uma enciclopédia.

About The Author

Edson Mayene Tomás Nuno, de pseudónimo literário Edy Lobo, nascido no dia 6 de Fevereiro de 1983, natural de Luanda, casado, residente em Luanda. Licenciado em Língua e Literatura Inglesa pela faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, é professor há já 10 anos. Tem textos publicados no site do Club-K e é um assinante SEMANAL no Facebook com as crônicas "CACOS" DA MINHA RESENHA SEMANAL que é publicado todas as segundas feiras. Teve a sua primeira participação na obra do saudoso escritor português Eduardo Águaboa, no livro Crônicas do Bar dos Canalhas, do qual fizeram parte escritores como Luís Fernando e Onélio Santiago.

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