Numa época em que nós por cá andamos com as “makas” da escassez e preço do pão, Manuel Rui traz-nos o livro a acácia e os pássaros, e a linha que une o livro a essas makas é ténue.

Em poucas páginas, numa narrativa divertida onde tudo tem uma razão de ser, a começar pela escolha dos nomes das personagens principais que, de forma implícita, indicam-nos nuances profundas do tema do livro, com sarcasmo na medida certa, aliado ao discurso indirecto livre e uma linguagem que congrega em si gírias actuais, somos levados a conhecer as makas de Januário por causa do pão e que espelham, no fundo, um pouco daquilo que se vive no contexto nacional actual e também no universal.

Januário, o protagonista da história, por querer que o outro dividisse os inúmeros pães que tinha, acaba preso e daí em diante sua vida muda completamente. E é na prisão onde o leitor, nas vestes dele, confronta-se com questões relativas à violência, distribuição equitativa da renda, religião e, acima de tudo, à aplicação dos direitos humanos no nosso contexto. Vítima do descaso do sistema judicial, vítima de violência praticada pelos polícias, o leitor ver-se-á dentro de uma caixa onde as possibilidades de manobra para a liberdade não são muitas. Entretanto, apesar de o leitor ser levados a reflexões humanitárias importantes e profundas, o bom humor de Januário e seu companheiro Aristófanes e seus devaneios dão um sabor agradável a leitura.

O pão que constitui o corpo de delito da história e a causa da prisão de Januário, dentre os vários significados que este possui no livro, representa, principalmente, a partilha, a igualdade social e a liberdade de expressão que, ao decorrer da leitura, cada um poderá responder a si mesmo até que ponto estes aspectos são reais ou se materializam no nosso quotidiano. E não pensem os leitores que tais aspectos se apresentam de forma explícita logo a partida, ao contrário, o autor, através da vida de Januário e do seu percurso, exige um certo esforço de interpretação e a busca pelo entendimento de várias questões.

A descrição do modo de vida das pessoas no livro, em vários níveis, faz o leitor pensar no nosso modo de vida em todos os aspectos, positivos e negativos, e fá-lo pensar também na forma como lidamos uns com os outros e de como olhamos uns para os outros. Ler a acácia e os pássaros é, para quem não anda muito atento, desvendar a nossa realidade a cada página, para os outros é simplesmente reconhecê-la.