A declamação desdobra o sentimento, resgata pedaços de memórias e acalenta emoções. Seus acordes permeiam a sensação que aflora, bailam sobre as nesgas do silêncio e, depois de dialogarem entre si,  repousam na aba do sentimento.

Não importa o timbre da voz, nem o alcance da palavra. A declamação ultrapassa o entendimento, ela é a poesia da voz. Deve despertar o sentimento que brota quando desistimos de sonhar, mas o sonho não vai embora.

A declamação mutilada morre à míngua, antes mesmo que o poema ganhe forma. Por conseguinte, a declamação suprema não se constrói com pedaços de corpo, mas de sonhos inteiros, vestidos de uma miscelânea de sentimentos.

A declamação que prospera é aquela que, para além do requinte, acarreta em si uma ligação com a alma que a canta e, mesmo longe, exilada e esquecida, guarda a verdade com o esplendor do diamante.

O declamador que floresce é seiva viva que não se dobra ao inverno e ao vendaval. É água pura que garante a foz do rio.

Declamar é arte que dispensa adjectivos. É pérola que tem brilho cativo. Mas requer cuidado, como a flor do ninho que, desamparada, clama por carinho. Ela é o mesmo fogo que ilumina a noite escura quando os olhos buscam a chama da aventura, é a insegurança toda da paixão que flameja e arde à entrada do coração quando a saudade invoca a luz do bem-querer, e o que se espera é a emoção do entardecer.

Por este palco a que chamamos arte de Declamar, desfilam diversos declamadores, GRANDES e pequenos. Uns cantam o que nos afecta, desde o êxtase à dor, outros nem se ouvem, porque, enquanto declamadores, não têm alma. Visto que a declamação é o brilho que incita e acalma, tem de ser inteira e vir da alma. Aos sem alma: desfaçam-se dos borrões que vos limitam e sugam a voz dos versos, libertem-se e dissolvam o elo para alcançar a melodia. Pois, o declamador não tem escolha. Tem de mergulhar na poesia e na beleza de seus traços, pois, só assim, vencerá o desafio de mirar o horizonte e perceber que é preciso proteger os olhos para namorar o sol.

Numa palavra, declamar é tocar versos com a ternura dos lábios. E o declamador, mais que tudo, é a pedra que se equilibra no fio de seda. Se cair, é como que evaporasse o elo entre ele e o poema, por não mais ter onde pousar. Se se mantiver firme, alcança a luz de sonhos e esperanças num canto azul levemente dourado, e a canção que resulta desse instante faz o sol perder a hora de dormir.