«Fui ensinada pela minha mãe a valorizar a limpeza de uma casa. Mostrou-me o quanto se associava à nossa higiene pessoal. Mesmo no chimbeco do Marçal que ela construiu para mim e os meus quatro irmãos, a higiene e ordem eram essenciais.

Minha mãe trabalhava como quínguila durante o dia, deambulando pelas esquinas de Luanda. Dizia muitas vezes que só entre as nossas quatro paredes ela tinha paz. Mas sempre tememos que, em qualquer instante, ela viesse a ser roubada da alegria com que levava o seu dia. Conseguia ludibriar os fiscais com fintas pelos vários cantos da cidade. Era uma especialista em ludibriar, e coisas como essa nos ensinou desde cedo.

Os meus tios visitavam-nos quando ela estivesse a trabalhar para verificarem se estava tudo bem connosco. Sentavam-se. Dormiam. Um deles cozinhava, fazia-me companhia enquanto eu estivesse a acabar de arrumar aquela parte da casa. Certo dia, ele puxou uma cadeira e chamou-me dizendo para que se sentasse ao colo dele. Sentei-me sem pensar duas vezes. Afinal, é meu tio. Repentinamente, senti a mão dele entre as minhas nádegas e dedos a penetrarem na minha vagina. Quando menos esperava, a outra foi-me aos seios. Não soube reagir senão olhar-lhe nos olhos. Lembro-me de sentir o meu corpo estar tenso, primeiro. Mas nessa fracção de segundos, consegui saltar daí.

Desde esse dia, nunca mais aceitei ficar no mesmo sítio com ele caso estivesse sozinha. Ele pediu-me para não contar a ninguém. Não o fiz. Sabia que ninguém acreditaria em mim. Mas aquele dia ficou registado na minha mente, no meu corpo de 10 anos. Desde então, a limpeza passou a ser um martírio para mim. Custava-me fazer a minha parte especialmente quando tivéssemos companhia.

Desaseis anos, cinco meses e duas semana mais tarde, numa festa de família, notei o meu tio Gioseto, o mesmo que me tocou ao sentar-me no colo dele, chamar a minha filha. Logo após a minha Gioleni sentar-se ao colo dele, o meu corpo voltou a mesma tensão de há anos. Vi a saia dela a voar, e ele a expor a mão dele na tal posição da qual eu bem conhecia a intenção. Corri até eles, esbofeteei-o com a mão esquerda e arranquei a Gioleni que já tinha na cara a mesma estampa de susto que bem reconheci. Carreguei-a ao colo e sai em direcção à porta. Fui directo à polícia.

Há nove meses daí, não pude acreditar no veredicto do juiz ao terminar a leitura do julgamento do meu tio. Quisera sentir-me feliz, mas a tristeza lembrava-me da nossa vulnerabilidade. Abraçada à minha carteira e com o rosto lavado de lágrimas, fiquei sentada na escadaria do tribunal. A minha mãe e o resto da família fumegavam enfuriados pela minha posição. O meu tio é o irmão mais novo da minha mãe, o cassule que ela muito queria, muito quer ainda, e a quem sempre abriu as portas de casa, e que acabara de ser sentenciado acusado de envolver-se em actos indecentes com a minha filha de sete anos. Tudo por causa do meu testemunho. Por causa da minha decisão rápida de parar o seu acto no momento e fazer a devida queixa as autoridades. Apesar do resultado, sei e reconheço que nem todos os casos são assim, principalmente na nossa sociedade.

Casos como o acima referido não são singulares e tampouco diferentes do que estamos acostumados a ouvir. Casos semelhantes acontecem diariamente entre as quatro paredes dos vários cantos do país. Muitas são as meninas assediadas por homens e outras crianças e jovens; assim como meninos são. Ouvimos alguns casos nas redes sociais e/ou televisão/rádio, mas, na sua maioria, incomensuráveis casos continuam no silêncio. Uns porque as vítimas desconhecem os seus direitos e outros por medo de qualquer que sejam as ameaças que recebem. Há, entretanto, uma percentagem que são vítimas do oportunismo ou permissismo e necessidade perceptiva das vítimas e das suas famílias. Infelizmente, a sociedade angolana continua, na maioria dos casos, a aplaudir estes perpetradores, dando-lhes nomes que são glamourizados e usados na retórica até de muitos adultos que se dizem condenar os actos desses.

As meninas em Angola não nasceram com o conceito catorzinhas, mas deu-se asas a estes actos de abuso a crianças inocentes que eram/são muitas vezes “preparadas” pelos seus perpetradores, presenteando-as com coisas de valor para ganharem a sua confiança. As vítimas passam a associar erroneamente os presentes ao carinho e amor que estes adultos têm por si. Infelizmente, ainda vemos que, mesmo em casos óbvios, nos quais as vítimas são menores de idade, a tendência é encontrar-se nessas as culpadas pelo sucedido. Comentários como “ela é muito assanhada” ou “também vestida como estava, estava mesmo pedir” apenas fulminam as atrocidades a essas crianças.

Nenhuma vítima pede para ser violada, molestada, abusada. Criança alguma pede que se os roubem a inocência, a virgindade, o seu sentido de segurança. Uma menina, qualquer criança, precisa de viver todas as fases da sua vida. Ainda que muitas vítimas superem ou aparentam superar, as experiências de abuso ou molestação que tiveram nas suas vidas sem qualquer assistência profissional, muitas vivem em silêncio e dor os reminiscentes desses incidentes por anos, mesmo depois do abuso terminar.

É essencial que não as acusemos, não as retraumatizemos, não as isolemos, maltratemos ou desprezemos por terem sido vítimas. Angola continua a precisar de melhorar o apoio às vítimas de qualquer abuso. Não é apenas trabalho de mulheres ou mães ajudar a identificar vítimas e apoiá-las no processo de recuperação. Todos devemos ajudar. Ensinemos aos nossos filhos e filhas o impacto do abuso e negligência como forma de prevenção, dando-lhes voz, crendo no que eles dizem.

No caso apresentado, a Gioleni teve a protecção da mãe que, certamente, reconheceu previamente a intenção, pois foi fruto da mesma mão e soube identificar os sinais antes mesmo das coisas saírem do seu controle, ao invés de normalizar a situação. Devemos sempre ter em conta que nem toda a vítima sente a força da sua voz ao partilhar as experiências difíceis que vivem. O serviço de prevenção começa na educação e supervisão, pois os perpetradores dizem, muitas vezes, que não têm em mira crianças que se parecem protegidas por alguém e munidas de informação que questionam os seus actos. Eles fazem-se de ladrões à vista de qualquer oportunidade, como bem diz o ditado. Armemo-nos e lutemos contra esses crimes que acontecem entre nós e ficam gravados nas memórias como mãos sujas nas vidas de muitas vitimas.