Um espactáculo teatral, como de praxe, começa com as bambolinas do palco a se abrirem para o público que acorre a sala, e, sobre o palco, actores se apresentam por meio de uma cena dramático-imaginária para o deleite da platéia.  No vocabulário grego, o teatro – Théatron (θέατρον) – é nada mais e nada menos do que o lugar físico onde o público espectador aflui para assistir uma peça, “lugar onde se vai para ver”, e que, ao mesmo tempo, traz consigo um complemento reflectivo do que é real e do que é imaginário.

É contemplando este lugar que se vai para ver, que somos carregadas às ruas da antiga França – entre os séculos XIX ou XX –, para descobrir a origem da expressão “muita merda”.  A expressão nasce da relação público versus actor. Do público que, sedentamente, lotavam os espaços teatrais e dos actores que, na sua ousadia, interpretavam personagens daquilo que muitos tinham vergonha de fazer. Na língua francesa, merde era o amontoado de fezes que se encontravam às portas das casas teatrais, devido ao público que afluía em carruagens e cavalos. Com alguma ironia, a expressão passou a ser usada para relacionar as enchentes das casas de teatro com uma boa apresentação, ou seja, quanto mais merda à porta da sala, maior o público (estatísticas), e, consequentemente, o desejo de se ter muita sorte na representação de uma peça.

Curiosamente, o uso da merda nas lides artísticas não está apenas associado ao amontoado de fezes nas entradas das salas de teatro. A merda (fezes) era também usada na Grécia antiga como forma de repreensão crítica ou não aceitação da exibição de alguma performance. Atiravam merda aos artistas, porém alguns não se deixavam demover e continuavam a sua exibição, crendo que, quando mais merda lhe era jogado, maior seria a repercussão da sua apresentação. Uma outra curiosidade é que, segundo uma estória romana, um actor iria apresentar a peça mais importante da sua vida, e que os maiores críticos do seu tempo se fariam presente, porém o actor deparou-se com um incêndio que o deixou perdido pela cidade e, com algum esforço e desvios pelo caminho, conseguiu chegar ao teatro. Na porta do teatro, para sua sorte ou azar, acabou por pisar num cocô. Com pressa, sem nem mesmo se importar, subiu ao palco e fez a melhor actuação da sua vida, sendo ovacionado pela crítica. Desde então, a merda passou a ser também sinónimo de sorte.

Embora a expressão “muita merda” possa parecer pejorativa, nas lides teatrais, ela consta dos anais da história e perpectua-se entre os actores, nos bastidores, desejando uma boa merda antes de cada actuação. No mundo cênico, quando nos desejam uma boa merda antes de qualquer actuação, é de bom tom responder com outra boa merda ou ficar calado, e nunca com um obrigado ou de nada.

Boa merda para vocês!