Algures numa das cavernas desconhecidas pela Humanidade, uma gigantesca criatura saurisquiana, na verdade, a mais terrível e sanguinária delas, anda inquietantemente de um lado para o outro porque um grupo de seres muito menores do que ele, que se acham os melhores do planeta por terem uma estranha massa acinzentada nos seus crânios que lhes concede a fútil habilidade de resolver os problemas com tácticas intelectuais e não com rugidos e garras aguçadas, estraga cada vez mais o habitat concedido não só a eles, mas também a minerais, vegetais e outros.

– Acham-me extinto? – inquere a criatura de si para si. – Vangloriam-se como os maiores predadores existentes? E jactam-se: «Fomos feitos à imagem de Deus»? Acham-se superiores a mim por causa disso. Nem sequer chegam para tapar o buraco dos meus dentes afiados e duplamente serrilhados! Comem os animais mais fracos. Eu também fazia isso quando existiam muitos de mim. Mas eles… eles ultrapassam-me. Nem o mais temível dos animais conhecido por eles está a salvo. Grrr! Raiva, raiva, raiva, raiva, raiva, raiva! Porque é que até as plantas e as árvores pagam? «Oh, descobrimos a cura para essa doença!» «Oh, esta madeira dará uns bons móveis!» Palermas! Pusilânimes! Sentar em cadeiras que causam inveja aos vizinhos é muito melhor que preservar a própria casa? Estúpidos, estúpidos! «Essa pele de urso deve ficar  bem em mim.» Porque é que todos os animais não nasceram com instinto de alfaiate? «Gostas das minhas calças, senhora ovelha? São de pele humana», «Oh, sim! Gosto! E o que achas do meu vestido, senhor gorila? Foi feito com o mesmo tecido», isso é que seria bom de ouvir. Até os tubarões são presas fáceis! Chega!!! Vou mostrar a esses bípedes sem escamas que a Grande Chuva não me extinguiu. O tempo deles de glória chegou ao fim. Basta um acirrado ataque surpresa e governa o Tyrannosaurus Rex outra vez! Voltaremos à época do Cretáceo superior… ah! Carne fresca e a jorrar sangue que escorre directamente para garganta. Que sensação! Êxtase gastronómico… Calma – diz, suspirando. – Se eu mandasse, aconteceria o mesmo. O melhor é deixar as coisas como estão. No fim, o Feitor saberá o que fazer a eles. E, tenho a certeza, será muito pior do que aquilo que eu faria…