“Milhares de pessoas cultivam a música; poucas porém têm a
revelação dessa grande arte”.
Ludwig Van Beethoven

Nos dias de hoje, fazer música parece que se tornou na coisa mais simples do mundo. Cada dia me convenço mais de que cantar virou algo corriqueiro. A expressão “qualquer um pode cantar” está a ser interpretada da forma mais leviana possível. Milhares de músicas são lançadas diariamente, porém conta-se aos dedos as que podem ser realmente consideradas músicas. A produção musical deixou-se influenciar pela geração fast-food, a geração descartável, em que uma música é feita às seis horas da manhã, às quinze se torna num sucesso nacional e às vinte já ninguém quer ouvi-la.

Fico com a sensação de que o diapasão usado para determinar o padrão musical para os dias de hoje estava completamente desafinado. Definiu-se uma tonalidade errada para aquilo que viria a ser o pilar que sustentaria a música nos dias de hoje.

Há muita gente a fazer música, mas muito pouca gente com capacidade de compor. Há muita gente a ouvir música, e muito pouca gente com capacidade de analisar e criticar o que se ouve.

Acho que a correria quotidiana nos tirou o foco. Tirou-nos a capacidade de análise e crítica. Hoje tudo serve, tudo está bom. O critério “qualidade” foi substituído pelo critério “gosto”. Hoje já não se perde tempo a analisar a qualidade das músicas. Hoje é: ouviu, gostou e ponto. Gostos não se discutem! Sim, concordo. Porém, gosto não determina qualidade, até porque você pode gostar de algo que não tenha qualidade.

E no meio desta azáfama musical instalada, preocupa-me mais o facto de a falta de qualidade nas músicas feitas aqui na banda não ser apenas instrumental ou vocal. E porque me perece que nestes quesitos até não estamos assim tão mal. Temos bons instrumentistas, bons produtores e bons cantores. Mas isso não basta para que se produza músicas com qualidade. Há muitos outros factores que concorrem para que se produza música cuja qualidade seja apreciada e criticada de forma positiva. Como cantamos ou tocamos? Essa não é a questão, embora esse também seja um assunto discutível no que a qualidade diz respeito. Mas a questão e o foco desse artigo é: o que temos cantado?

Se entendermos que a música é a arte de exprimir sentimentos por meio de sons, então vamos compreender que é o texto (a letra) que, de forma literal, enfatiza a significância da definição de música. Pois, musicalmente falando, não há outra forma de exprimirmos literalmente o que sentimos a não ser pelo casamento perfeito entre a melodia e a letra, a música e a poesia.

Uma boa composição musical é um casamento perfeito entre uma boa melodia e uma boa letra, pois o resto são detalhes. A harmonia e o ritmo, dois elementos que, a par da melodia, se apresentam como elementos constituintes da música, servem apenas como adorno para o embelezamento da mesma. Eu costumo dizer que um grande compositor é, por natureza, um bom músico e, ao mesmo tempo, um bom poeta. Pois, não é qualquer um que tem a genialidade de tocar a alma das pessoas com a musicalidade de sua melodia e poeticidade das suas palavras.

O que adianta teres uma boa melodia quando não tens uma boa letra para colocar por cima dela? O que adianta teres um beat muito bem produzido e, por cima dele, colocares meia dúzia de palavras sem sentido nem significado algum?

Não existem apalavras suficientes para descrever o que se sente quando se ouve uma boa música. A música por si só é poderosa, forte o suficiente para elevar ou rebaixar o nosso estado de espírito. Ela é a maior e melhor sensação que os nossos ouvidos podem receber, e Aristóteles compreendeu isso: “A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição”.

O que temos ouvido nos dias de hoje está muito longe daquilo que disse Aristóteles. É certo que existem diversos estilos musicais, e cada um deles deve ser interpretado de forma particular, dada à sua especificidade. Mas um texto é sempre um texto. Independentemente do estilo da música, a letra tem que dizer alguma coisa aos ouvidos de quem ouve. Há músicas que são um autêntico insulto a estas duas formas de manifestação artística: poesia e música.

Precisamos entender que, no casamento entre a música e a poesia, cada uma desempenha o seu papel. A música apela à emoção, e a poesia à razão. A melodia é emotiva, a letra é racional. Ambas podem andar separadas, sim, já que existe música sem texto, assim como existe poesia sem melodia. Mas desde o momento que decidimos juntá-las, elas têm de ser capaz de impactar vidas, mudar conceitos, revolucionar mentes, educar e entreter sem mutilar. Se não for para isso, não adianta fazer música.

Que não haja divórcio entre a música e poesia.