No segundo dia do ano, o presidente da república, João Lourenço, ou, como comummente tratado pelo povo, JLo, o exonerador implacável, recebeu em audiência um grupo de músicos, acompanhado pela ministra da cultura, Carolina Serqueira, no palácio presidencial. A notícia correu nos jornais nacionais, foi manchete em diversos programas televisivos, radiofónicos, sites noticiosos e páginas das redes sociais.

A manchete vinha estampada em letras garrafais – PRESIDENTE RECEBE ARTISTAS –, mas, ao olhar para a foto que acompanhava a notícia do momento, eu e assim como muitos fazedores de artes, os ditos artistas – não que os músicos sejam menos artistas –, percebemos que havia um equívoco no que nos estava sendo dito!

Foto link da matéria publicada no Jornal de Angola

A primeira pessoa que me veio em mente foi o meu amigo Luefe Khayari, pensei no quanto ele ironizaria esta notícia e, rapidamente, resmungaria em tom de correcção, “artistas! Não! Mas aí só tem músicos e alguns humoristas que só pisaram o pé nesta audiência, porque também são músicos. O sensato seria músicos e não artistas, como estão a tentar nos fazer crer!”. Pensei também num debate acirrado que teríamos no espaço Entredanças da nossa querida bailarina Aneth Silva, e como seria um osso duro de roer juntar um António Paciência, Isis Hembe, Bona Ska, Djanira Barbosa, Dominnick Tanner, Osvaldo Moreira, Adelino Caracol, Ana Guerra Marques, Fradick, Mauro Sérgio, Agualusa, Jessé Manuel, Hélder Simbad, Flávio Ferrão, Alvim Faria… em que, no final do dia, entre risos e gargalhadas, concordaríamos que não nos sentimos representados nesta audiência com alguns “artistas”, digo músicos, pelo facto de não termos sido ouvidos ou quase nunca convidados e ouvidos nestes fóruns.

Há que reconhecer que o presidente da república tem dado mostra de querer apoiar o sector artístico para o bem da economia angolana, pois a diversificação passa também pela aposta forte nos diversos sectores das artes, no entanto é preciso que se diga que alguém tem estado a errar ou a coar os demais artistas em privilégio dos músicos, pois, nas duas audiências até então concedidas pelo líder da nação, estiveram apenas presentes alguns músicos como representantes de todo um sector artístico, e as preocupações apresentadas, obviamente, recaem sempre para a mesma parcela, os músicos. E onde ficam os demais nunca ouvidos?

A representatividade da classe artística passa pela presença de um todo, ou seja, artistas (artistas plásticos, escritores, cineastas, dramaturgos, cartunistas, curadores de artes, agentes culturais, actores, grafitters, dançarinos, dirigentes das associações artísticas e culturais, gestores de salas de espectáculos…) e não músicos somente, pois, ao contrário do que se possa pensar, há uma gama de pessoas envolvidas, um background de suporte para que a arte em Angola aconteça, e é necessário que todos sejam ouvidos para que juntos possamos traçar caminhos que melhor contribuirão para a diversificação da nossa economia através do sector das artes.