No ano de dois mil e dezasseis, também conhecido como de escassez, nada foi fácil para ninguém. Posso mesmo dizer que 99% da população sofreu e sofre pelos mesmos problemas, que acaba por ser até consolador, porque só de saber que não és o único que, de 700 USD, até final de dois mil e catorze, ganhas agora menos de 150 USD ou por saber que saíste do nível de pobre – situação que até te dava jeito para se achar o mais importante entre os vizinhos – para miserável, porque perdeste o emprego, tornou e torna o sofrimento menor. Ou seja, tornamo-nos mais comuns do que se podia imaginar e querer, só que de problemas e de contas a fazer e a pagar.

Ia! Contas! Esse mambo de ter contas para pagar era para quem tinha filhos no colégio, na escola de dança ou de piano, ou seja, essas coisas dos endinheirados. Pobre angolano, não pagava nada! Não sei como, mas pescava energia no vizinho; mesmo aqueles que conseguiam ter energia eléctrica da EDEL, hoje mais rica, porém mais mão de vaca, ENDE, raramente eram e são regulares no pagamento; eram e são male aguentadores. Mas nada que compare com os aguentos que recebem do Zecutivo! Em relação à água, só tendo tanque e gastar dinheiro que não se tem – acho que cai do céu! – para enchê-lo, ou cartar água – embora alguns se acham finos e dizem acarretar – na casa dos vizinhos que de forma bem viju, conseguiram meter água corrente nas suas casas, uns de forma legal, outros nem tanto, mas sempre de forma viju, porque até o legal se forra de biolo e de mixa – Epá, deva haver alguma diferença! Sem falar dos automobilistas que ao estado pouco ou nada pagam, mais ainda assim pagam contas que nunca estão na do mês, mas na do dia, só que não para o cofre do estado. Pronto! Acho que já perceberam a ideia de que contas só mesmo aquelas para não deixar o fogão a apagar!

Mas dois mil escassez escasseou algumas e muitas coisas, mas encheu-nos de razões para termos contas a pagar: surgiu o lixo que queria ter valor ou exigir o valor que sempre teve – só que noutros espaços geográficos –, mas nunca recebido, juntando-se à energia, ou seja, queria pendurar-se no já caduco e experiente pagamento de energia eléctrica, mas não pegou, caiu! Antes ainda, surgiu a tal taxa de residência ou habitação – já nem sei bem! – que queria nos obrigar a apagar pelos espaços que as nossas residências ocupam, tudo porque as terras pertencem a um rei. A tal ENDE, mais rica porque agora é nacional, queria exigir o pagamento do que distribuía mal, algumas poucas vezes, bem e até o que não distribuía. A EPAL, mesmo introduzindo novas canalizações, a água insiste em não obedecer às ordens não sei se de quem, mas não jorra pelas torneiras que se tornaram utensílios de decoração de quintais dos angolanos. Mas, ainda assim, apertou o cerco e passou a ser mais dura na cobrança… mas acho que já perceberam que a ideia era e é fazer-nos ter razões de pagar contas, que é bem diferente da cultura de pagar impostos – que se precisa! –, pois os impostos têm por objectivo beneficiar ao povo e somente.

Agora chegamos em Dezembro, que há dois anos, era de dinheiro dobrado para os funcionários públicos e não só. Para quem não trabalhava, só não morria de tristeza, no mês de festa, porque aprendera com a guerra. Agora, terá de reaprender com a escassez do ano famoso da crise. Mas aqueles, cujo salário dobrava, graças a um décimo terceiro de cujo mês não se vê no calendário, viram, em percentagem, a esfumar-se, entre os dedos do meio do ano, um subsídio que já não é de natal. E para piorar, o décimo segundo jabá ficou preso no trânsito, porque, por ordem do Zecutivo, não pode entrar nas contas dos seus respectivos donos, desrespeitando, melhor aguentando, mais uma vez, o pobre angolano, que, sem querer ou não, devolve na mesma moeda, ou pensa que devolve, a cada aguento; só que não ganha nada.

Assim, para não sermos acusado de actos preparatório de golpe de estado, vamos adiar o Natal – talvez já tenha sido adiado! Caso não adiemos, podemos reivindicar o nosso salário do mês que se diz de Nascimento de Jesus. Ou então vamos deixar que nos aguentem, mais uma vez, ou, simplesmente, para honrar o menino Jesus, oremos a Ele para esqueçamos: “Jesus, Por favor, multiplica só aquela nguirra de bacalhau que o vizinho boss me ofereceu do resto do seu bacalhau! Olha, meu Senhor, converte só, também, a água da EPAL em Cuca, Sumo Compal, Blue, Champanhe e vinho. Nos dá força pra não guardar rancor pelo nosso Rei, ungido pelo Senhor, teu Pai, nosso Pai! Que o senhor abençoa a sua família, pois ele não é o enviado pelo Criador do Céu e da Terra!?”