Chegamos a Março, o mês considerado das mulheres e período em que, normalmente, começam a aparecer os “largos e pomposos” elogios às mães, amigas, esposas, namoradas e até àquelas mulheres que não nos são próximas. Longe de deslegitimar os actos de carinho direccionados a nós, gostaríamos apenas que nesse Março parássemos para pensar de forma diferente na condição das mulheres, nas suas vivências difíceis fruto das desigualdades de género que regem as sociedades. E é a pensar nessas desigualdades e na forma como afectam negativamente a vida de inúmeras mulheres que trazemos como sugestão de leitura o livro Niketche de Paulina Chiziane.

Um livro que apesar de ser de uma escritora moçambicana e ter Moçambique como principal contexto, aborda a condição da mulher numa perspectiva além desse contexto principal, ou seja, ultrapassa os limites de Moçambique e abrange outras culturas africanas.

Niketche é uma estória de poligamia que retrata a vida das mulheres em função de um homem e seus caprichos.

É um reflexo de como o facto de muitas sociedades e culturas africanas legitimam a submissão e subalternação das mulheres aos homens, prejudicando-as e desumanizando-as. E falamos de sociedades e culturas africanas, porque as nossas culturas não são todas iguais, não temos ‘uma cultura africana homogénea’, mas vivemos numa diversidade. E essa diversidade, no livro, é espelhada pelas mulheres do nosso polígamo do texto, que são naturais de regiões diferentes do país, que recebem instruções culturais diferentes, mas que, em relação ao homem, têm a mesma base: obedecer independente do que aconteça e olhar o macho como o todo-poderoso!

Toni, o nosso polígamo e “grande macho” da estória, espelha atitudes de inúmeros “pais” que andam por aí; é o típico homem que só faz filhos, ou seja, que lança inúmeras sementes e estupidamente se orgulha deste acto de “macho”, mas, logo a seguir, não se importa com a assistência, auxílio, tempo e dedicação de que essas sementes precisam para crescerem em condições. Deixa tudo a cargo das mulheres e vai viver a vida de pássaro que não se satisfaz só com um ninho. E ainda, tem consigo as culturas que o protegem e tornam legítimas essas formas de proceder e exigem das suas mulheres submissão.

Em Niketche, somos convidados a pensar de forma não romantizada na condição social de obediência da mulher, somos chamados a reflectir na forma como essa hierarquia estruturada em “Homem manda e Mulher obedece” não é justa, não é saudável, e não constrói uma sociedade equilibrada.

E antes que termine este texto, importa referir, também, que, no livro, além de todas estas reflexões que somos convidados a fazer, somos levados, também, a ver como a união, de facto, faz a força e pode mudar muita coisa à nossa volta. Quando as mulheres de Toni se unem e decidem pensar nas suas condições injustas e procuram juntas formas de ultrapassar os problemas, então, acontecem mudanças significativas e surpreendentes. Dá-se uma reviravolta que conhecerá aquele que se propor a ler Niketche e deixar-se levar por esta viagem que Paulina Chiziane nos oferece!