Nos últimos anos o universo da escrita angolana tem evidenciado um número cada vez mais crescente de novos escritores, na sua maioria jovens, que procuram revelar-se em todas as frentes da literatura. Vários têm despontado e apresentado as suas obras com bastante destaque mediático e que acabam por ser referenciados como autores promissores para a nova vaga da literatura angolana. Obras singulares, colectâneas, assim como  publicações em jornais e revistas, sites e redes sociais, têm sido amostras irrefutáveis de que mais nomes estão sendo, ou virão a ser, escritos no livro de registos dos escritores angolanos.

Avaliando os precursores da nossa literatura, não é penoso concluir-se que está englobada desde sempre em ousadia e bravura. Um dos primeiros textos ficcionais angolanos do século XX, por exemplo, O Segredo da Morta, de Assis Júnior, é uma das mais antigas provas dessa ousadia, em que o autor despe-se da influência colonialista e desbrava uma literatura rica de personagens com uma essência angolana e ambientada pelas suas vivências. Ademais, destaca a sua genialidade ao recorrer a um estilo narrativo de autores mundialmente conceituados, do início do século, mesclando com dialectos e provérbios nacionais, mais especificamente o quimbundo;

Óscar Ribas por sua vez, mostrou-se como o “sunguilador – mor” no que concerne a tomar os ápices da literatura de tradição oral e passá-la a escrita. Deste modo, cantos, contos, provérbios, adivinhas e rituais religiosos, que costumavam ser contados a noite, comummente à volta de uma fogueira, foram trazidos à palavra escrita. Nisso destacam-se os três volumes de Misoso como obras de compilação de narrativas tradicionais orais. Por tal empenho e ousadia, Óscar Ribas veio a notabilizar-se como um dos maiores colaboradores na configuração de um perfil identitário de Angola.

Por outro lado, os temas abordados por Uanhenga Xitu, em seus diversos livros, representam o ser angolano gritando ao mundo as suas identidades e desafiando os diversos sistemas, sociais ou políticos, com uma ousadia na escrita, tal que o fez um dos principais modernizadores da literatura angolana. Em temas como Bola com Feitiço, ou Manana é notável a representação de um contador de estórias vestido sob a pele da angolanidade e do modus vivendi angolano, sem descorar o ocultismo presente em vários ramais da nossa sociedade. Deste modo, a sua escrita acabou certamente criando outros moldes para uma literatura originalmente angolana.

Os exemplos supracitados, reflectem um pequeno punhado do empenho e coragem por que se regeram os referidos autores, deixando algumas bases que os justificam  como referências na criação narrativa da literatura nacional. Evidentemente outros, não menos ousados ou empenhados os ladearam ou os seguiram e fizeram-se referências, quer pela qualidade apresentada em suas obras como pelas inovações que fizeram as mesmas transportar.

Ao longo das décadas de 1990 e 2000, o país passou por um período de quase estiagem literária no quesito da narração. Poucas obras foram lançadas num grande período de tempo, sendo que muitos poucos autores novos emergiram. No entanto, as mudanças no paradigma geral do país aos poucos foi se reflectindo na arte literária até chegar num momento em que, para muitos, tornou-se quase uma obrigação ter uma obra disponível ao público. Pelas trilhas por que corre a sociedade actual, o universo de questões para serem abordadas é incomensurável o que dá espaço à ousadia dos novos autores para escolherem as que mais se adequam a sua forma de abordagem ou às suas intenções. E isso é em sua essência um dos cernes desta análise.

O novo escritor, que leva a sua obra ao alcance do leitor, ambiciona, ou tende a ambicionar, ser um precursor da literatura para as gerações vindouras. É com esse pressuposto, dentre outros, que a ousadia tem despontado no seio e que os leva a arriscarem-se a publicar as suas obras, quer o façam individualmente ou em colectivo, quer através de algumas editoras ou por meios próprios, viajando de temas polémicos à abordagens inusitadas. Deste modo, o número de livros lançados entre os jovens e novos autores tem ganhado, a cada publicação, mais notabilidade.

Entre factores sociais, culturais e económicos, o aumento do número de novos escritores e a pouca presença de autores de outras gerações nas novas publicações, têm levado leitores, escritores – conceituados ou não –, analistas e cultores literários à uma análise contínua e permanente em vários fóruns sobre o estado da literatura angolana, em que se evidencia uma crise com tantos preâmbulos que por vezes reflecte um foco inalcançável de mudança. Tanto como isso, tem-se debatido, a qualidade da literatura actual, especialmente a feita por escritores emergentes. E numa época como a actual, com enorme disposição para o acesso à leitura e, mais ainda, à curta distância de um “clique”, o acervo de literatura é denotado pela diversidade que o universo das letras oferece e a leitura – como base para uma melhor escrita – é tida como garantida quer em obras físicas ou digitais e isso, por si só, poderia ser uma razão para evidenciar a qualidade literária antes da quantidade.

Entretanto, como é sabido, a composição de textos narrativos num livro, para ser considerado uma obra literária, tem diversos pressupostos dentre os quais: os recursos estruturais e linguísticos de um texto narrativo; a descrição dos personagens; o desenvolvimento do enredo; as técnicas de escrita; a profundidade da história; a coerência na narração; a classificação do género; referências históricas e geográficas; referências artísticas e culturais; etc. É com tais quesitos na balança que as supracitadas discussões têm posto em causa, nem tanto a criatividade dos autores mas sim as suas criações, pois têm sido cometidos atropelos que descaracterizam os géneros defendidos.

“[Livros Ruins] Roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objectivos nobres”, disse Arthur Schopenhauer. A mediocridade presente nalgumas obras as vezes referidas, por alguns autodenominados críticos, como grandes obras da literatura angolana, soa quase como um insulto aos conhecedores da escrita e aos leitores ávidos pelo melhor da literatura. Embora alguns autores sejam ousados para abordar determinado tema com um carácter atractivo e de impacto social, não estendem tal ousadia a uma pesquisa rigorosa sobre o assunto; ignoram a essência da própria arte da escrita, não reconhecem que na obra, não é tanto a história em si que importa, mas sim a forma como ela é contada; não transportam a alma do escritor naquilo que apresentam; não demonstram com uma visão particular o assunto comum, acabando por não criar um cunho próprio, e de qualidade, dentro do reportório da escrita nacional.

É necessário que o novo autor conheça os passos que pretende dar na literatura e como os deve dar, por outro lado, é necessário que os críticos e analistas literários tenham a decência de dizer claramente o que está mal e que caminhos se deve seguir para se atingir a melhoria. Carlos Ruíz Zafón, em seu livro o Jogo do Anjo, afirma que “não se deve subestimar a vaidade de um escritor, especialmente de um escritor medíocre”, e é precisamente o que muito se vê. Análises e comentários que inflamam o ego do novo autor com elogios que pouco ou nada engradecem o seu aprendizado literário acabando por influenciar, tão somente, o contínuo aparecimento e destaque de obras medíocres.

Agindo-se com a solidez requerida e exigência defendida comummente nos destintos pontos de vista nos fóruns de discussão e análises sobre a literatura angolana, talvez se possa preencher alguns dos vazios bem visíveis na estrutura dos novos autores e com isso se descamará a mediocridade existente nesse seio.

 

Bibliografia:

SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte De Escrever. L&PM, Porto Alegre. 2009
SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro, Ensaio: Óscar Ribas e as Literaturas da Noite: A Arte de Sunguilar. Mulemba. Rio de Janeiro. 2010.
www.ueangola.com/bio-quem/item/38-antónio-de-assis-júnior;
www.ueangola.com/bio-quem/item/61-uanhenga-xitu;