Ninguém me pediu para virar um missionário e enfrentar o mundo, como um élder a espalhar o evangelho do kuduro

Kalaf Epalanga é um gentleman contemporâneo, uma mistura mais cool de Alfred Pennywort – mordomo de Bruce Wayne, o Batman – e de um angolano puramente benguelense, que destila todo o seu swag e swing sempre que é visto. Kalaf, além de músico e ex-integrante da banda Buraka Som Sistema, é também conhecido como um poeta e cronista de grande estatura corporal e fala afável. Quem o conhece reconhece nele o gosto apurado por factos, poesia e boa música.

A sua estreia literária dá-se em 2011 com o livro de crónicas “Estórias de amor para meninos de cor”, depois seguiu-se “O angolano que comprou Lisboa”, em 2014. O último livro de Kalaf é resultado de um desafio proposto pelo então amigo e escritor José Eduardo Agualusa aquando da realização de mais uma edição do festival Back2Black, no Brasil, onde ambos conversaram sobre o kuduro.

É deste desafio que o autor autoficciona as muitas experiências e aventuras em prol da internacionalização do kuduro enquanto membro da banda Buraka Som Sistema. “Também os brancos sabem dançar” é um romance musical dividido em três partes com histórias distintas entre o kuduro, kizomba e uma Europa que se faz multicultural. É na essência da primeira parte do livro que a história do kuduro nos é apresentada por uma personagem autodiegética – o próprio Kalaf –, na tentativa de uma aventura frustrada, audaz e irresponsável de entrar em território norueguês com seu passaporte angolano já caducado e apresentar-se no festival de Oya com a banda Buraka Som Sistema. A detenção num posto fronteiriço não tardou. Kalaf é submetido a um interrogatório como se fosse um terrorista, pois, além de estar numa situação ilegal, afirma ser um músico-kudurista que cruzava a Europa “pregando as boas novas do kuduro”, causando estranheza aos nórdicos que nada sabiam deste estilo que aos poucos ganhava o mundo. É neste episódio que o autor viaja com reflexões entre o presente e o passado das origens do kuduro, que nos fazem surgir nos bairros mais recônditos de Luanda e de Lisboa, nos puros guetos por onde o kuduro flui. Dicas e paranóias, nomes de kuduristas, bailarinos e impulsionadores deste estilo são recorrentes na memória do autor.

“Também os brancos sabem dançar” é de longe um romance despretensioso. Escrito de forma simples e com uma narrativa fluída, que proporciona aos seus leitores uma leitura rápida e fácil. É visível a preocupação do autor em narrar de forma biográfica para que os leitores e o mundo entendam e conheçam o berço, as origens e o desenvolvimento do kuduro, este estilo que tem rompido barreiras e ganhado o mundo.