Após paparmos bué de natais e tantos anos novos, nossa mente mergulha paulatinamente sob um oceano onde as águas do pretérito se misturam com as do presente e, ambas, com as águas do porvir. Direccionamos o nosso olhar para onde saímos, observamos o que permanece a parcos palmos dos nossos pés e olhamos também para onde almejamos chegar. Em volta dessa tríade atrelada ao tempo, tendemos a digerir a tenebrosa sentença universal, segundo a qual não viveremos para sempre, e a vida nos pode abandonar no virar da próxima esquina. Essa percepção, baseada na suspeição de se estar à beira do fim é extensiva a todos os homens, mas a reacção à mesma é multiforme. Cada um possui a sua. Eu também tenho a minha e talvez a apresentarei mais além.

O percurso trivial da vida apresenta-se imenso e complexo. Amiúde, julgamos que a plenitude da felicidade reside noutro vértice do oceano, mas, quando finalmente lá aportamos, trespassamos a duvidar da nossa sanidade mental. No limiar da vida, infância, fascinamo-nos com a imensa independência que os kotas exibem nas suas acções. Olhamos para eles como heróis, nossos verdadeiros heróis, e isso atiça-nos a acreditar que a nossa felicidade somente atingirá o zénite no momento em que nos tornarmos adultos. Por conseguinte, nosso eu tinge-se de densa pressa em somar mais e mais e mais e mais e mais… um ano de vida. Porém, volvidos vários aniversários, a pressa deixa-se à mercê de outros tons. Na fase adulta, principalmente a partir dos trinta anos em diante, a pressa em somar anos de vida indicia desgaste. Assim, a aproximação da data de aniversário vai esvaindo a satisfação frente ao avanço da inquietação. Nessa fase, descobrimos a existência de um expressivo desencontro entre a expectativa de outrora (a criada durante a infância) e a real realidade da fase adulta.

Além de ficarmos a saber que os kotas não são tão independentes quanto aparentavam, descobrimos que a nossa beleza decresce com a ascensão dos anos, desvendamos que a abundância de anos vem segurando a solidão pelas mãos; descobrimos que o gozo da felicidade requer alguma dose de inocência; enfim, descobrimos que nunca seremos tão felizes quanto na fase da meninice. Então, sob impulso dessas desconfortáveis descobertas, a nossa arqui-vontade passa a ser o regresso à infância.

Ora, quando éramos crianças fervilhávamos de sofreguidão em sermos adultos, mas, depois, ao atingirmos a fase adulta, desejamos ser crianças, outra vez. Paradoxo! Feliz, ou infelizmente, o tempo não retrocede e, pior que isso, a trombeta do destino, que soa o som da morte, vai se transmudando mais audível, sobretudo na altura em que os nossos contemporâneos passam a ser abruptamente arrastados pelo violento vento do além, entretanto inapto em trazê-los de volta ao nosso convívio. O nosso cérebro cede espaço, no começo escasso, a um novo hóspede que nos vai dizer:

“tu podes ser o próximo”, “tu podes ser o próximo”, “tu podes ser o próximo”, “tu podes ser o próximo”.

Na tristeza dessa silenciosa e estridente réplica, cada homem, em consonância com o seu carácter e sua mundividência, ajusta ou muda a respectiva rotina pensando num mundo do qual, em algum dia, já não fará parte. Há quem prefira bater as botas antes que a morte lhe dê o derradeiro kandandu, deixando-se ficar em casa vendo “a vida passar pela janela” (Ana Carolina); há quem opte por percorrer Ceca e Meca em busca de experiências e deleites que o mundo ainda lhe pode proporcionar e há quem escolha contribuir para que o planeta azul se torne num lugar melhor para viver, registando e difundido as lições que a vida lhe ensinou, lições susceptíveis de evitar que as gerações futuras cometam os mesmos equívocos da geração hodierna.

Eu, por minha vez, à medida que me aparto da meninice, sinto crescer a minha sensibilidade à dor sempre que observo um kandengue a cometer os erros que já cometi. A “mea culpa” açoita-me imenso, porquanto acho que, se ele soubesse das graves e, algumas vezes, irreversíveis consequências dos seus actos, presumivelmente teria enveredado por outros actos. E esse kandengue só saberia os riscos das suas acções a partir de alguém como eu, mais velho que ele, e que já tenha sentido dor por pôr a mão no fogo. Assim, a única via que me é possível reduzir a “mea culpa” tem sido escrever o que tenho aprendido com a vida. Logo, é bastante provável que eu seja alguém que prefira se esforçar para metamorfosear o mundo num recinto melhor para habitar.

Portanto, depois de termos vivido uns tantos anos, vamos percebendo, feito a cadência no passo do cágado, que somos mesmo peregrinos nesse mundo e que num relance poderemos ser obrigados a nos transformar em estrelas cintilantes lá no ápice do céu quando sol se esconde. Enquanto a hora do derradeiro suspiro não chega, há quem prefira abraçar a derrota, escusando-se de mover palha alguma para prolongar ou adornar a sua vida; há quem prefira abraçar o usufruto completo dos prazeres e, por último, há quem prefira abraçar actividades que contribuam para a melhoria do mundo, ou seja, prefira trabalhar para deixar um testemunho, um legado para as futuras gerações. Porque, no final, a susceptibilidade de ser abraçado pela morte é menos incómoda quando se tem noção de ter feito algo em prol das gerações vindouras.