A FOME LEVA-NOS A EMPREENDER COISAS EXTRAORDINÁRIAS.

O texto aqui apresentado mostra-se necessário na medidade em que ainda reparamos falhas de palmatória sobretudo em entidades que serviriam de bússola para a franja que dizem ser o motor de qualquer sociedade.

Não é nossa intenção desmerecer uns e favorecer outros com este texto. Mas como diz certo adágio, «os ratos fazem festa na ausência dos gatos», pelo que se torna necessário colocar traço em alguns tês e ponto em alguns is, o que não quer dizer que sejamos os donos da verdade.

Ultimamente, tem se notado uma gritante tendência quanto à publicação de livros de auto-ajuda e/ou motivacionais, o que é, de algum modo, bom. Mas tais autores, editoras e o media têm falhado na apresentação dos mesmos, pois apresentam esses livros como Obras Literárias. Segundo o Breve Dicionário de Definições Errónias, «a expressão obra literária circunscreve-se apenas àquelas inseridas no domínio da arte» (Simbad, 2016), e todo e qualquer ser que respire e se atrever a publicar um livro de carácter científico, motivacional ou de pensamento é apenas autor, porque o mesmo não se dedica à produção de obras literárias. 

Importa relembrar que Literatura pode ser vista no âmbito geral (inclui toda produção literária duma determinada época ou região) e restrito (apenas configuram as obras que se dedicam a trabalhar a palavra, das quais encontramos os géneros Narrativo, Lírico e Dramático).

Há uma linha de escrita que denominamos Literatura de Esperança, uma literatura que os jovens têm avidamente procurado. À guisa de exemplo:

— Recentemente (dia 31 de Agosto de 2019), o músico Dog Murras vendeu, como disse o mesmo em entrevista ao programa RC da rádio LAC, 2000 exemplares do livro “Matemática da Coerência”, em 4 horas de venda sem interrupção. Algo inédito!

— “O Meu Livro de Pensamentos”,  de Victor Hugo Mendes, chegou a quarta edição em menos de quatro anos.

Estes livros, pela quantidade de vendas, são considerados “bestsellers”, fazendo desse modo parte dum grupo restrito de livros mais vendidos em Luanda.

Será este um indício de que os jovens estão interessar-se por Literatura e/ou leitura? Não estarão os mesmos à procura de fórmulas que lhes farão sair da pobreza em tempo de crise?

Literatura em sentido restrito pode entender-se como sendo «ARTE da transfiguração da palavra, arte do não simples, arte do não óbvio» (Eliane, 2018). Essa literatura que nos convida muitas vezes a entender o que o seu cultor quer dizer e não necessariamente o que diz não tem muitos apreciadores comparativamente a Literatura de Esperança. Logo, torna-se perigoso afirmar que os jovens estão a ganhar, de modo geral, o gosto pela Literatura, pois a que mais nos interessa neste texto é a Literatura em sentido restrito, a da transfiguração da palavra. Temos observado que os jovens estão sequiosos, procuram fórmulas mágicas que lhes servirão de tranpolim para a riqueza material em pouco tempo, uma ou mais fórmulas que, num estalar de dedos, levar-lhes-á ao sucesso empreendedor. Prova disso é a participação assídua por parte da juventude em palestras motivacionais, aliada  ao surgimento de, cada vez mais, palestrantes dessa área. Alguns dos autores de livros de auto-ajuda e palestrantes vendem esperança a essa juventude que, feito folha arrancada, vai aonde o vento a quiser levar, ou seja, uma juventude ainda por se afirmar.

A Literatura de Esperança tem ganhado muitos aderentes fruto da grande estratégia de marketing por parte de seus fazedores. O número de vendas dos livros já citados é uma amostra deste facto. O que não acontece com Obras Literárias, pois nota-se uma fraca estratégia de marketing por parte de editoras quanto a publicação das mesmas. Tanto escritores conceituados bem como estreantes caem no conformismo. Geralmente, suas obras que, em cada edição, tiram apenas mil exemplares ficam em muitos casos pintadas de pó nas prateleiras de estabelecimentos comerciais, revestidas de teias de aranha entre o que é e o que não é Literário. 

Ler é como praticar fisioculturismo. Quando mal se executam os exercícios físicos, os resultados que devem ser esperados não aparecem e corremos o risco de ficarmos deformados. Ler não foge a regra. É necessário que haja boa orientação para que tenhamos resultados excelentes.

Para que isso se concretize e para que haja equilíbrio quanto às literaturas apresentadas, editoras e escritores têm de rever a(s) sua(s) forma(s) de actuação. 

Que doravante editoras e escritores percebam que ninguém procura algo do qual nunca ouviu falar, ou seja, têm de melhorar a estratégia de marketing. Parem com o mau hábito de publicitar o lançamento de livros tarde, quase sempre uma semana antes da data prevista. O trabalho de divulgação do livro não termina no dia do lançamento, é um processo contínuo. Façam o livro chegar até aos lugares mais recônditos, não deixem ficar apenas na burguesia, há também no kimbu bons fregueses, e estes precisam ler os vossos escritos. Acima de tudo, saibam atribuir preço aos livros, que o vosso objectivo não seja apenas vender.  

Como já dissemos, não queremos com este texto dizer que não há uma luz no fundo do túnel. Queremos ver mais jovens a ler.

Convidamos outros jovens a escreverem sobre o assunto apresentado. Ficaremos muito felizes se abordarem numa perspectiva diferente da apresentada aqui.

Bibliografia

Eliane, C. (2018). Agriprosa: o manifesto, in Tunda Vala – Agristética, ano II. Luanda: UEA

Simbad, H. (2016) Breve Dicionário de Definições Errónias, in Tunda Vala – Umoutra proposta, Luanda: Movimento Litteragris.