É nos muros do mundo que o Homem lê a história deste planeta.

Os muros da Serra da Leba é, antes de tudo, a natureza querer nos submeter o conteúdo, o sublime, a beleza a forma e o sentido aos ritmos. Como dizia o outro: quem tem olhos vê, e acrescenta-se: quem tem alma há-de escalar um muro. No nosso caso, há-de ultrapassar os muros através da longa estrada que, se nos apossarmos das metáforas, é ressonância das paisagens. E em que circunstâncias foi construída?

Foi lançado, em momentos coléricos de Salazar, em 1961, um alarme ininterrupto “Para Angola, apressadamente e em resistência…”. No meio de várias necessidades e em situação de guerra que durou perpétuos 13 anos, Portugal procurava cativar a população de pouco estudo, e, por isso, procurou-se levar estudos, mais religiosos, a todos os cantos de Angola, para ver se, no meio de toda miséria, o povo pudesse perdoar ou esquecer que estava a ser oprimido. Foi neste clima de mudança que, em meados dos anos 60, teve início a construção da Estrada da Leba, projectada pelo engenheiro Edgar Cardoso. A sua inauguração aconteceu em 1974, nas vésperas da independência de Angola. Houve muitas mortes aquando da construção da mesma.

A Serra da Leba encontra-se no flanco ocidental do Planalto da Humpata, na fronteira entre as províncias da Huíla e do Namibe. Os contrastes geomorfológicos desta região combinam com mais de cinquenta curvas de estradas da Serra da Leba, na qual podemos observar uma cascata, onde um rio permanente que nasce no Município da Humpata se despenha em outras pequenas quedas.

Em termos geológicos, a subida desta estrada permite validar o princípio da sobreposição a toda uma sucessão estratigráfica proterozóica, com cerca de 600 metros de espessura do chamado grupo da chela e da formação da Leba, conjunto que, por inconformidade, se sobrepõe a granitos com cerca de dois mil milhões de anos. O percurso com um desnível de mais de dois mil metros de altitude serpenteado na sua parte mais elevada, e que, até chegar à margem do atlântico, atravessa várias impressões climáticas personalizadas no sistema Koppen-Geiger.

O homem lê a sua história nos muros como um leitor ávido, fulminante, interrogativo. Observar os Muros da Leba enquanto deslizamos sobre a longa estrada é como reflectir no grande enigma. Às vezes, permanecemos sorridentes, apaixonados, grandiosos, convidativos e sempre, sempre mudos, exclamando, por vezes, “Ó”, invocando tudo que, se o outro nos observar, terá a ideia de que estamos a invocar os deuses, mas não será, de todo, a verdade, estamos a invocar a beleza que a paisagem, por si só, nos transporta de um estado físico a um estado de encantamentos sem bruxas, sem unicórnios, apenas isto: a imagem dos muros à nossa frente, a poesia da natureza aos seres humanos; observar os muros da Leba é estar sujeito a óperas silenciosas, a longos feixes sitiados de emoções, de iluminuras, de alabardas amarelas, verdes, vermelhas, azuis, em suma, cheia de cores. Num mundo em que tudo pode dizer alguma coisa, os muros da Leba cantam. Se o observador amar kuduro, os muros cantarão para si o kuduro mais iluminado (talvez Tchubila de Bruno M. ou Felicidade de Sebem); se amar jazz tocará Kind of Blue de Miles Daves.

Os visitantes ao atravessarem os dois mil milhões de anos tatuados nos muros pensarão que toda paisagem já visitada por eles parece estar contida numa só paisagem; terão diante de si um mundo repleto de espelhos.

Talvez o silêncio no mundo anda ameaçado pelos celulares, mas o silêncio que os muros da Leba nos obrigam a fazer é de espanto e, se quisermos ser mais fabulosos, num gesto de vénia, como se os muros quisessem dizer “só permito ser fotografado no meu melhor lado”, permitir-nos-emos fotografar mesmo pelo mais medíocre fotógrafo, e não terá como não acertar. As fotografias nunca param de falar.

As grandes pinturas com mais de quarenta mil metros quadrados é um convite para o turismo e para as culturas, trata-se da mais verdadeira e poética forma de arte, onde a imagem se volta para si mesma e não somente para o seu conteúdo. Como toda arte é, por si só, perigosa, todo cuidado é pouco: é preciso andar com cautela sobre as artes (este mesmo conselho é dirigido aos automobilistas que por lá passam), entrar nela com toda calma possível; é preciso encontrar, nas pinturas feitas com mestria, uma imagem total e fazer dela uma imagem privada. É nos muros do mundo que o homem lê a história deste planeta como um leitor ávido, fulminante, interrogativo.

Não temos como sair ileso, imune, ao depararmo-nos com a “selffie” feita pela natureza que o homem ousou chamá-la de Serra da Leba, Muros da Serra Leba.