A guerra deve ser condenada pelos atrasos que infligiu aos angolanos, que, entre matas e matos, viram-se obrigados a viver sem nortes, buscando uma escapatória para sobreviver à vida das bombas e balas que pelo território rabujavam. Há ainda quem, com justo extremismo, pense que deve ser julgada ilegalmente, contanto-que o ordenamento jurídico angolano não possui penalidades que lhe sejam justas. À guerra, aplique-se prisão de morte, em nome do povo, pelo Tribunal Supremo da Paz, onde não terá advogados, senão os desalmados inimigos do desenvolvimento do Estado.

Pela paz, Pedro Quiquissa achara oportunidade para conhecer Luanda, a província dos sonhos. Tal foi-lhe proporcionada em 2007, pela sua avó, desarraigando-o do seu solo, seu núcleo, seu motivo — família tradicional—, nas circunscrições da província do Bié.

Importa realçar que durante o êxodo, enquanto assistiam ao funeral do sol no Mussende, naco de terra da província do Cuanza Sul, tinha agarrado uma peça de carvão, tendo proferido uma declaração que pareceu estranha demais para quem vinha duma zona completamente recôndita. Ré com, dita seja a verdade, toda a sensaboria das suas tentativas de ser urbe. Ninguém conseguia acreditar que um “cimbundu” chamava “ombataria” ao carvão, sendo um bem de produção inteiramente não industrializada, pelo menos nestas bandas, Angola. Apesar da patente e natural inflamação, em nada se assemelha a baterias, senão pela cor, que também é de África, preta. Desconhecer o carvão é um facto (admissível) para quem nasceu nos centros urbanos, onde as cozinhas são dominadas por fogões de inúmeras bocas cujos alimentos são as panelas. Admissível, entre parêntesis, com a devida hesitação, porque o carvão também pinta as confeições citadinas, mormente em eventos “kilambas”, faustos ou infaustos. É de gente com características alheias ao nanismo, as farras ou óbitos que dispensam o carvão.

Em Luanda, foi cognominado por “Do Brasil”. A metamorfose foi imposta pelo facto de encontrar um familiar cujo nome próprio era também Pedro, por coincidência. Entre eles, nem as leis dos xarás funcionaram. A casa estrebuchava pela resposta dum, quando queria ouvir o outro. Do Brasil, ao Pedro mulatinho, ao passo que, D’Angola, apelidou-se o outro, pelo facto de ser de tez escura. Era uma vez aos Pedro. Eles devem ter adorado a extinção, porque, mesmo separados, o que foi a Benguela continua sendo D’angola. Ficou o Do Brasil, sorrindo à miscigenação demográfica da Kianda.

Foi nesse ano que entrou numa sala de aulas pela primeira vez. Sua segunda instituição social, palco que, decerto, recebeu-o com solenidade e prazer de socializá-lo e colocá-lo nas artérias da intelectualidade.

É paz que Angola inspira ao pulmão há 14 anos. Logo, não é crível que tenha acontecido um fuzilamento, no dia 28 de Junho de 2016, tal e qual sucedia, amargamente e com estardalhaço, durante os tempos belicosos, que avermelham as páginas da história da nação comprada por sangue. Destes factos, entre tantos meios, a bandeira nacional é testemunha.

O pobre vinha da escola e, ao cair da noite, cruzou-se com o azar numa esquina do nosso Kandua, fatia do mais nórdico município de Luanda — Cacuaco. Até ao dia que terminei de escrever este texto, a família estava amargurada e sem alento nos corações, por saber que nem a paz tem sabido proteger as vidas dos angolanos. Não seria eu, tio dele, a narrar o facto, para não pensarem que não sinto pelo seu desaparecimento. Por ser a testemunha ocular mais próxima, sou a preferida, segundo o princípio processual penal da imediação.

Vi trilhos de lágrimas fazendo racha no rosto do miúdo, inanimado, por desconseguir encontrar a palavra “comprimentos” no dicionário. Se isto não foi fuzilamento, que nome se pode dar? O inexistente é perigoso. Não é apenas pelo calar das armas que a paz se torna efectiva. Há mais pedras.