Poderia circular em meio a palavras pom­posas, longas, mas directas, para tentar explicar este conceito… mas vou aqui reco­rrer ao dicionário para responder a essa, aparentemente, fácil pergunta: “Identidade é o conjunto de características que DISTIN­GUEM uma pessoa ou uma coisa (enten­da-se aqui nação também), e, por meio das quais, é possível INDIVIDUALIZÁ-LA’’.

Se lhe perguntar que características distinguem o nosso país, Angola, prova­velmente terá uma série de respostas a pipocar pela sua mente ou na ponta da sua língua para dar, e tenho quase a certeza de que a sua ou as suas respostas estariam certas.

Mas pensemos por um instante: será que tudo o que pensou pode realmente ser identificado como nosso, digo, de Angola?

Percebo constantemente que, sempre que surge um assunto como este, uma das coisas de que temos sempre muito orgulho de falar e identificar como traço cultural de Angola é a dança, as nossas danças (que são incontáveis). E quando queremos dar a conhecer a alguém que tenha vindo dar um passeio por essas bandas ou quando des­locámo-nos para terras do alheio e países do primeiro mundo e nos é perguntado o que gostamos de dançar, cheios de orgulho e de boca cheia, falamos do nosso Kudu­ro, da nossa Kizomba e do nosso Semba. Todos os estilos que têm colocado Angola no mapa.

Como angolanos, temos uma ginga natural, um talento próprio e sem esforço para as danças, não apenas as do nosso país, mas de outros também. Somos dotados, devo admitir… nota-se até mesmo em seres minúsculos, não totalmente desenvolvidos, chamados crianças, que animam as festas familiares com todos os toques novos que são inventados diariamente um pouco por todo o país.

Vários são os angolanos que, por causa desse talento e entrega à dança, têm le­vado o bom nome de Angola para países vários, principalmente na Europa, onde têm desenvolvido desde festas e festivais a grandes competições que têm o nosso Kuduro e a nossa Kizomba como atracção principal. Um grande motivo de orgulho, é verdade!

Tenho dito que é maravilhoso ver a inter­nacionalização das nossas danças, por­que, através destas, mais pessoas, vindas de todos os cantos do mundo, terão curiosidade e oportunidade de se deslo­carem para cá, e, assim, reconhecer e ala­vancar a carreira de jovens artistas ango­lanos, contribuir para o turismo nacional, para economia, intercâmbio entre países, contribuindo até mesmo para o Plano Nacional de Desenvolvimento flexível.

É verdade! Tudo isso seria muito bonito e seria perfeito se nós fôssemos respon­sáveis, astutos e visionários; se fôssemos pessoas que entendem que não podemos dar valor apenas ao que vem do exterior, mas preservar e desenvolver também o que é nosso. Somos tão cegos que nem vemos que “os de fora” estão a dar mais importância aos ritmos africanos, mais especificamente, ao angolano, do que nós próprios. O único problema é: já está a ser dançado no exterior, já foi alterado e misturado com outros estilos (especifi­camente a Kizomba e, em alguns casos, o Kuduro), o que não é mau, visto que diversos estilos de dança sofrem alterações com a internacionalização. Mas todos es­ses outros estilos, como o tango, a salsa, a valsa, por exemplo, são estilos que se sabe exactamente de que países saem, qual é o jeito tradicional (clássico) de dançar e que alterações sofrem em competições; infe­lizmente não podemos dizer o mesmo do Kuduro, do Semba e da Kizomba.

A grande questão dessa história toda é: onde estão os órgãos de direito, nomeada­mente o Ministério da Cultura, para registar as nossas danças?

Para dizer que temos identidade cultural, temos de conseguir partilhar patrimónios que simbolizem verdadeiramente a nossa nação, ou melhor, temos de compreender a constituição dessa identidade.

Claramente, não estou para aqui a dizer que essa identidade é imutável ou permanente, mas que é um conjunto de manifestações e práticas que transformam e definem o indivíduo e, consequentemente, a sociedade da qual ele faz parte.

Se não formos capazes de fazer isso com as danças que já são internacionalmente reconhecidas, o que poderemos dizer das inúmeras que fazem parte do folclore ango­lano, que estão espalhadas por todo o país e nem sequer são ouvidas por muitos ango­lanos?